Como está a implantação da TV 3.0?
Estimativa é que pelo menos 10 mil pessoas já adquiriram o kit que permite o acesso ao DTV+
A TV 3.0, chamada tecnicamente de DTV+, foi lançada oficialmente pelo governo federal por meio de decreto de agosto de 2025, com a promessa de ter operações experimentais a partir deste ano, exatamente no primeiro dia da Copa do Mundo, ou seja, 11 de junho.
Na abertura do Mundial, efetivamente, a Globo abriu os testes para DTV+ para regiões das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Com limitações: somente consegue captar o sinal DTV+ os usuários que têm o kit TV 3.0, composto por antena, conversor e controle remoto. Por ora, não existem televisores embarcados com DTV+.
O presidente da Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão (SET), Paulo Henrique Castro, atualiza como está o processo de implantação da TV 3.0. A SET é associação técnico-científica sem fins lucrativos que reúne empresas e profissionais de tecnologia, mídia e entretenimento no País.

O presidente da SET, Paulo Henrique Castro, atualiza como está o processo de implantação da TV 3.0 (Crédito: Divulgação)
Estágio atual da TV 3.0
Meio & Mensagem – Como está o atual estágio da TV 3.0?
Paulo Henrique Castro – A TV 3.0 entrou na fase inicial de implementação. Já temos o padrão tecnológico definido, as normas técnicas publicadas e um arcabouço regulatório que vem avançando.
Ao mesmo tempo, saímos dos testes exclusivamente de laboratório para transmissões em condições reais, com estações experimentais e iniciativas que chegaram ao público durante a Copa do Mundo.
Agora, o principal movimento é de escala. Isso significa ampliar a infraestrutura e a cobertura, incorporar mais emissoras e, muito em breve, estarão disponíveis no varejo televisores com a tecnologia DTV+ embarcada. Paralelamente, avançamos no desenvolvimento de conteúdos e aplicações que explorem a interatividade, a personalização e a integração entre broadcast e broadband.
É importante lembrar que essa transição será gradual. A TV digital atual continuará convivendo com a TV 3.0 durante esse processo, inclusive porque o próprio modelo definido para o Brasil prevê essa coexistência. Portanto, já temos uma tecnologia funcionando em campo, mas ainda estamos no começo de sua implantação em escala nacional.
Globo e os testes de TV 3.0
M&M – A Globo é a única emissora que colocou a DTV+ no ar?
Castro – A Globo é a emissora que está em estágio mais avançado, com operação pré-comercial da DTV+, mas existe um ecossistema mais amplo de testes e preparação para a implantação da tecnologia no país.
Desde abril do ano passado, a emissora mantém estação experimental no Rio de Janeiro, com dois transmissores e, desde a Copa do Mundo, realiza transmissões ininterruptas, inclusive com conteúdo interativo.
Assim, como a regulamentação e as licenças definitivas ainda estão em tramitação, o termo mais adequado neste momento é “operação pré-comercial”.
DTV+ no SBT, Record, EBC e CNT
Em São Paulo, a Seja Digital (instituição não governamental e sem fins lucrativos criada para operacionalizar a migração do sinal de TV analógico para o sinal digital no Brasil) inaugurou, em agosto do último ano, duas estações experimentais utilizando as torres do SBT e da Record, demonstrando o envolvimento dessas emissoras no processo de evolução da TV 3.0.
De fato, SBT e Record também estão em fase de discussão interna e planejamento dos investimentos necessários para a adoção da tecnologia.
Em Brasília, a EBC opera testes na torre de TV com canais da TV pública, enquanto a CNT está em estágio avançado de preparação para iniciar suas transmissões.
Esse é um processo progressivo, que depende do planejamento e dos investimentos de cada emissora.
Dessa maneira, o objetivo é avançar na implantação da TV 3.0 preservando uma característica essencial do modelo brasileiro: a oferta de televisão aberta e gratuita.
A Globo, por exemplo, prevê ampliar gradualmente sua presença e alcançar os 15 maiores mercados até 2030, incluindo cidades como Recife, Brasília, Belo Horizonte e Porto Alegre.
Fabricantes de TV
M&M – Entre os fabricantes de TV, até agora, não há produção de televisores embarcados com DTV+. Tem alguma previsão de quando chegarão ao mercado?
Castro – Os fabricantes trabalham com seus próprios ciclos de desenvolvimento, estratégias comerciais e de marketing e, por isso, ainda não há um cronograma consolidado ou anúncio oficial sobre a chegada ao mercado brasileiro de televisores comerciais com DTV+ embarcado.
O que sabemos é que fabricantes já adquiriram componentes e estão trabalhando no desenvolvimento desses produtos.
Já existem demonstrações concretas desse avanço. Durante o SET EXPO, a Mirakulo apresentou um televisor com DTV+ embarcado utilizando seu software. Mais recentemente, durante o IBC, em Amsterdã, Davi Brito Júnior, CTO da empresa, afirmou que a expectativa é que equipamentos com a tecnologia integrada possam chegar ao mercado até meados de 2027.
Mas essa é uma expectativa apresentada pela Mirakulo, e não de um calendário oficial compartilhado por toda a indústria.
Neste primeiro momento, os conversores também terão um papel importante, permitindo que o público tenha acesso à nova plataforma sem precisar trocar imediatamente de televisor.
Processo produtivo básico para TVs com DTV+
Ainda, paralelamente, está em discussão no governo a definição de um Processo Produtivo Básico (PPB) para televisores que incorporem a tecnologia DTV+. O mecanismo estabelece requisitos para a fabricação local associados à concessão de incentivos fiscais e pode contribuir para estimular a incorporação gradual da nova tecnologia às linhas de produção no país.
Portanto, há uma movimentação concreta da indústria para colocar esses equipamentos no mercado. A incorporação do DTV+ aos televisores de fábrica será uma etapa importante para a expansão do sistema e deverá avançar de forma progressiva, acompanhando os ciclos de desenvolvimento e produção dos fabricantes e a expansão da cobertura das emissoras.
Receptores DTV+ disponíveis
M&M – Na internet, é possível comprar equipamentos que convertem as TVs atuais para TV 3.0. Tem algum balanço desse tipo de atualização? Na Copa, muita gente estava interessada nas possibilidades desses equipamentos por conta dos avanços da DTV+.
Castro – O que se fala no mercado é que já existem mais de 10 mil receptores DTV+ nas casas dos brasileiros. A procura inicial foi bastante significativa: os primeiros estoques chegaram a se esgotar em poucos dias.
O brasileiro tem uma relação muito próxima com a televisão e demonstra grande interesse por novidades e tecnologia, e essa combinação contribuiu para a receptividade desses primeiros equipamentos.
Os conversores têm um papel importante nesta etapa de implantação porque permitem que os televisores atuais tenham acesso à nova plataforma sem que o consumidor precise trocar imediatamente de aparelho.
De fato, recebem e processam o sinal da TV 3.0 e levam ao televisor existente os conteúdos e recursos disponibilizados pela DTV+, ajudando a atualizar a base instalada enquanto os televisores com a tecnologia embarcada começam a chegar ao mercado.
A Copa deu uma visibilidade importante à DTV+ e permitiu que o público tivesse um primeiro contato mais concreto com os recursos e as possibilidades da nova geração da TV aberta.
Portanto, a tendência é que esse movimento avance à medida que aumentem a cobertura, a disponibilidade de equipamentos e, principalmente, a oferta de conteúdos e serviços que explorem os diferenciais da plataforma, como interatividade, personalização e integração entre broadcast e broadband.
TV 3.0 brasileira & padrões internacionais
M&M – Como o DTV+ pode ser interoperável com outras tecnologias de TV 3.0 globais?
Castro – O DTV+ brasileiro foi desenvolvido a partir de tecnologias internacionais e compartilha uma base importante com o ecossistema ATSC 3.0.
De fato, o DTV+ no Brasil, o NEXTGEN TV nos Estados Unidos e o UHD Broadcast na Coreia do Sul são implementações nacionais baseadas nessa mesma família tecnológica, embora cada país tenha feito escolhas e adaptações de acordo com as características de seu mercado.
Isso não significa que qualquer televisor ou receptor produzido para um desses países vá funcionar automaticamente nos demais. Existem diferenças entre as implementações, e o próprio ATSC mantém uma norma que documenta as configurações adotadas em mercados como Brasil, Estados Unidos e Coreia do Sul.
A interoperabilidade deve ser vista principalmente como uma oportunidade de convergência tecnológica. Quanto mais conseguirmos harmonizar componentes, especificações, testes e processos de certificação, maior será a possibilidade de compartilhar chipsets, softwares, equipamentos e soluções entre diferentes mercados. Isso amplia a escala da indústria, favorece o desenvolvimento de novos produtos e reduz a fragmentação tecnológica.
Esse movimento já está acontecendo. O Fórum SBTVD, a ATSC e a TTA, organizações envolvidas na definição e evolução dos padrões adotados nesses países, firmaram um acordo para trabalhar conjuntamente em harmonização, testes, certificação e interoperabilidade.
Durante o SET EXPO, esse diálogo também avançou em uma reunião com representantes internacionais, reforçando a integração do Brasil a esse ecossistema global de televisão de nova geração. É um trabalho importante para que a evolução do DTV+ esteja cada vez mais conectada ao que está sendo desenvolvido em outros mercados.