Diversidade não tem hora marcada
Marcas e empresas passam pela maior prova sobre o valor das pautas DEI em muito tempo

(Crédito: Angelina Bambina/Shutterstock)
É comum e até esperado que mercados corporativos acionem o freio em momentos turbulentos, especialmente quando é na política que a temperatura sobe mais. A retração das pautas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) tem sido grande por aqui, influenciada pelo atual cenário norte-americano. Lá, o ataque a pautas e programas de inclusão é deliberado, com investidas diretas ao setor privado, das mídias às grandes corporações.
Sendo os Estados Unidos a potência que são, essa onda atravessou fronteiras e desembarcou no Brasil, afetando até mesmo o nosso setor da comunicação. Não bastasse isso, estamos vivendo um dos ciclos eleitorais mais acirrados da nossa política. Essa é a hora que as diretorias pedem por mais prudência e, com isso, a representatividade some nas campanhas e metas internas, e a nossa participação no debate social vai ficando para outra hora.
Que a gente não tenha dúvidas: trata-se de um momento crucial para as agendas de inclusão do país. No nosso mercado, é inevitável nos perguntarmos se o compromisso com a diversidade é uma escolha estrutural de governança e negócios, ou se foi mera conveniência de ocasião, quando a pauta estava “em alta”.
Aqui, as aspas não foram à toa. O primeiro erro estratégico é encarar a diversidade como uma onda boa de surfar no verão, e possível de ser esquecida no inverno. Depois, não podemos importar acriticamente os pânicos morais norte-americanos. Por último, não podemos aceitar que as agendas de DEI sejam suscetíveis às disputas partidárias eleitorais, ainda mais quando o conservadorismo e o ataque às questões de gênero ocupam parte significativa da agenda.
A realidade brasileira é marcada pela pluralidade. É a nossa verdadeira identidade e, por isso, negociar equidade de gênero, inclusão de pessoas com deficiência, combate ao racismo e dignidade às pessoas LGBTI+ conforme convém é engano estratégico que custa caro. Diversidade é vetor de inovação, competitividade e inteligência de mercado.
Nas minhas mais de três décadas atuando em RH, e hoje liderando frentes no mercado publicitário, vejo que a ausência de vozes diversas no topo das empresas gera erros operacionais e de comunicação. Quando uma liderança aceita a falsa premissa de que ser inclusivo significa “tomar lado”, ela abdica de sua autonomia e valida a polarização como régua de gestão.
Quando organizações encaram a transformação com maturidade, elas compreendem que a perda de coerência reputacional é muito mais importante do que estarem suscetíveis a ruídos momentâneos ou externos à relação entre quem quer comunicar e seu público-alvo. Se a regra da nossa realidade é a própria diversidade, ela deve ser inegociável nessa troca.
Para atravessar os momentos turbulentos sem comprometer reputação e coerência, sugiro que toda liderança comece por uma palavra: Querência. A intenção genuína em mudar precisa da coragem para colocá-la em prática. Tendo a convicção do querer, o próximo passo é fortalecer internamente este propósito.
Enquanto o ambiente externo gera ruídos, as metas internas precisam estar consolidadas e os processos seletivos focados em encarar diversidade como estratégia de governança. É preciso, também, mostrar que a pauta traz eficiência nos negócios por meio de dados e resultados reais, acompanhando a evolução do processo interno a cada passo, para blindá-lo de críticas e tentativas de recuo.
O mercado de hoje percebe quando uma empresa não está de fato comprometida com programas de inclusão. A persistência é o que garante o sucesso e a coerência de longo prazo, já que a maturidade da organização se revela quando a conjuntura exige firmeza para sustentar princípios. O verdadeiro reconhecimento vem da reputação cada vez melhor com os nossos talentos e consumidores.