Desperdício é um dos custos mais caros para empresas
O desafio não é apenas vender mais, mas entender como ampliar o valor gerado por aquilo que já foi produzido

(Crédito: Unsplash)
Durante décadas, empresas competiram para produzir mais, vender mais e ganhar escala. A eficiência dos negócios era medida pela capacidade de ampliar volumes, acelerar processos e disponibilizar produtos no mercado com mais velocidade.
Essa lógica ajudou a transformar cadeias produtivas e modelos de consumo. Mas, diante de um cenário marcado por margens pressionadas, custos operacionais elevados e grande complexidade nas cadeias de abastecimento, uma nova pergunta ganha espaço nas decisões estratégicas: quanto valor ainda é perdido antes que um produto complete seu ciclo de vida?
O desperdício, por muito tempo tratado como uma consequência natural da operação, passou a representar um dos maiores custos invisíveis dentro das grandes organizações.
Ele aparece em diferentes etapas da cadeia produtiva, entre materiais descartados antes de serem totalmente aproveitados, produtos que deixam de ser comercializados por pequenas avarias, estoques que perdem valor, processos ineficientes, consumo excessivo de recursos e itens que poderiam permanecer em uso por mais tempo. São muitas as possibilidades e necessidades de um olhar cada vez mais atento.
Embora nem sempre esteja claramente identificado nos balanços financeiros, esse desperdício representa capital investido que deixa de gerar retorno, além de prejuízos socioambientais.
Essa discussão ganha relevância em um momento em que a economia global enfrenta o desafio estrutural de precisar produzir mais utilizando melhor os recursos disponíveis. Segundo o Circularity Gap Report 2025, da Circle Economy, apenas 6,9% dos materiais consumidos globalmente retornam atualmente para a economia por meio de processos de reaproveitamento e circularidade. O dado revela que a maior parte dos recursos ainda segue um modelo linear, baseado em extrair, produzir, consumir e descartar.
No Brasil, o cenário é ainda mais desafiador, pois, segundo dados da Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais), apenas cerca de 4% dos resíduos sólidos gerados no país são efetivamente reciclados, um percentual inferior à própria média global.
Essa realidade persiste mesmo após mais de 15 anos da promulgação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Por outro lado, a iniciativa privada tem assumido compromissos públicos de taxas de reciclagem e redução de resíduos, as listadas ou não em bolsa, e publicado seus resultados (via Relatórios de Atividades, relatório de resultados integrados e relatórios de sustentabilidade) por vezes superiores a 80% de atingimento de desvios de aterros de seus resíduos.
Para além da questão ambiental, esse cenário representa uma oportunidade econômica. Cada material ou produto descartado antes do fim de sua vida útil representa uma perda de valor que poderia ser recuperada por meio de novos modelos de negócio, processos mais eficientes e soluções que prolonguem o uso dos recursos.
É nesse contexto que a economia circular deixa de ser apenas um conceito associado à sustentabilidade e passa a ocupar um espaço estratégico dentro das empresas. Investir em práticas ESG se alinha totalmente ao retorno econômico, e isso impacta diretamente nas decisões.
Por essa razão, em vez de olhar apenas para o momento da venda, é preciso que organizações passem a considerar toda a jornada dos produtos. Isso envolve pensar em durabilidade, manutenção, reparo, reaproveitamento, recuperação de materiais e novas formas de oferecer valor ao consumidor.
O papel do varejo, que durante muito tempo, foi avaliado principalmente pela capacidade de disponibilizar produtos e gerar vendas, muda. Hoje, a competitividade passa também pela capacidade de criar soluções que ajudem consumidores e empresas a aproveitarem melhor aquilo que já existe.
Um produto que volta ao mercado em vez de ser descartado, um item reparado em vez de substituído ou um material reaproveitado em vez de eliminado representam mais do que ganhos ambientais representam eficiência operacional, melhor utilização de recursos e novas possibilidades de geração de valor.
Essa mudança acompanha uma transformação no próprio comportamento do consumidor. A decisão de compra está cada vez mais relacionada à qualidade, durabilidade e à capacidade de um produto atender às necessidades ao longo do tempo. O consumidor busca soluções completas, que façam sentido não apenas no momento da aquisição, mas durante toda a experiência de uso.
O desafio para as empresas, portanto, não é apenas vender mais. É entender como ampliar o valor gerado por aquilo que já foi produzido.