Caso Mbappé: como um meme virou uma crise de imagem?
Atleta francês perdeu patrocínio e China interrompeu a exibição da LaLiga no país

Mbappé perde patrocínio após fala polêmica (Crédito: reprodução)
Uma montagem que circulou na internet durante o período de Copa do Mundo acabou se transformando em uma crise diplomática envolvendo um dos principais atletas da nova geração da França, Kylian Mbappé.
A repercussão aconteceu após o atacante do Real Madrid declarar ao The Bridge, programa apresentado por seu companheiro de seleção Aurélien Tchouaméni, que seu meme favorito na internet era uma montagem sua no corpo de um “ditador chinês”. O atleta explicou, inclusive, que utilizava a imagem com seus amigos em jogos de videogame.
A imagem em questão é uma referência a Mao Tsé-Tung, fundador da República Popular da China, de quem os fãs de futebol utilizaram a imagem para produzir conteúdos gerados por inteligência artificial com o rosto do esportista.
O mercado chinês respondeu ao comentário e o atleta perdeu alguns patrocínios importantes. A empresa de bebidas DongPeng (Eastroc Beverage) encerrou sua relação com o francês tendo como justificativa que adota uma política de tolerância zero contra qualquer conduta que fira o sentimento nacional do país. Já Mengniu e Milkground, do ramo de laticínios, também interromperam sua relação com o jogador.
Ivan Martinho, professor de marketing esportivo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), explica que, embora os atletas de elite sejam marcas multinacionais, nem sempre eles têm uma preparação para acompanhar essa dimensão.
Isso se aplica no caso de Mbappé, mesmo que ele se posicione frequentemente sobre política, em oposição à extrema direita, combate ao racismo e outros assuntos desse espectro. “Uma piada de vestiário pode provocar uma crise milionária do outro lado do mundo”, comenta.
A repercussão também afetou o Real Madrid, clube em que atua, e a LaLiga. Em represália às falas de Kylian, estatais chinesas, como China Media Grou (CMG), suspenderam a transmissão do Campeonato Espanhol em território Chinês.
Para Ricardo Fort, fundador da Sport by Fort Consulting, jogadores e celebridades têm pouco controle sobre como as suas imagens são usadas, sobretudo em tempos de IA, mas o caso de Mbappé teve mais desdobramentos devido a dois fatores principais.
O primeiro deles, de acordo com o executivo, é porque o governo chinês exige que as empresas locais punam atletas, times, e eventos que os agridem, ou criticam. “Isso já aconteceu em outros momentos, por exemplo com a NBA. Pelo seu poder econômico, quaisquer sanções impostas têm grande impacto no esporte”, diz.
E o segundo é pela grandeza que Mbappé tem hoje no cenário esportivo, sendo mundialmente conhecido. “Se o mesmo tivesse acontecido com qualquer outro jogador falando de qualquer outro país, o assunto teria passado despercebido. Mbappé é um dos jogadores mais profissionais do mundo, dentro e fora dos campos. O que aconteceu com ele foi realmente uma infelicidade”, comenta.
Pedido de desculpas
Para tentar remediar a situação, o Real Madrid postou em suas redes sociais um comunicado se desculpando com os chineses sobre as falas dos atletas. O clube espanhol reforçou o respeito pela China e pelos torcedores.
“O Real Madrid reafirma o seu compromisso com os valores do respeito, da convivência e do entendimento entre culturas, e expressa o seu desejo de continuar a fortalecer os laços de amizade e afeto que o unem à China e aos seus cidadãos”, declarou.
Já Mbappé utilizou as redes sociais para classificar o seu comentário como imprudente. “Agora compreendo que ele feriu muitas pessoas na China e em comunidades chinesas ao redor do mundo”, disse.
A declaração oficial da LaLiga defendeu o respeito, convivência e unidade entre pessoas e culturas e a entidade afirmou que está trabalhando com os parceiros e interlocutores na China para reestabelecer a relação.
“Transmitimos nosso respeito à China, às suas instituições e ao seu povo, e valorizamos profundamente o apoio dos milhões de fãs que nos seguem a cada semana. Reafirmamos nosso compromisso com uma relação construída ao longo de anos”, publicou.
Casos semelhantes
Embora esse caso tenha tomado uma proporção global, Mbappé não foi o primeiro atleta a perder patrocínios por conta de envolvimento em assuntos delicados.
No Brasil, por exemplo, em 2025, o atleta de esports Lucas Dias fez com que a Team Liquid perdesse o patrocínio da Honda, que já durava por seis anos, após publicar um GIF de bomba atômica depois de ser derrotado no Campeonato Internacional Reload.
Em 2021, o jogador de vôlei Maurício Souza fez uma postagem de cunho preconceituoso em seu Instagram, comentando o anúncio no qual a DC Comics revelava que na HQ Superman: Son of Kal-El o novo Super-Homem, filho de Clark Kent, assume ser bissexual e beija seu amigo.
Na ocasião, Fiat e Gerdau, patrocinadoras do Minas Tênis, se posicionaram pedindo medidas cabíveis. Maurício, que inicialmente foi afastado do time, teve seu contrato encerrado.
“Não dá para exigir que um jogador seja especialista em história ou política mundial, mas é perfeitamente razoável que ele tenha orientação sobre temas culturalmente sensíveis. Hoje, uma declaração individual pode produzir consequências comerciais que vão muito além dos contratos pessoais do atleta”, explica Wagner Leitzke, Head de Desenvolvimento de Negócios da Agência End to End.

