Quem está representando a mulher no climatério?
Eleger mais mulheres foi um passo, mas a pauta das mulheres maduras no trabalho só avança se houver quem a acompanhe

(Crédito: Câmara dos Deputados)
As eleições de outubro levaram 109 mulheres à Câmara dos Deputados e 12 ao Senado, e com isso a Câmara terá em 2027 a maior bancada feminina de sua história. O número é uma boa notícia, mas deixa em aberto uma pergunta que interessa a milhões de brasileiras: as mulheres no climatério estarão representadas nesse novo Congresso?
Segundo estimativa do Instituto Fernandes Figueira, da Fiocruz, cerca de 30 milhões de brasileiras estão na transição para a menopausa ou já na pós-menopausa. Durante muito tempo, porém, o assunto ficou restrito à vida privada ou foi tratado apenas como parte do envelhecimento, algo a ser enfrentado em silêncio, e por isso quase não aparecia em programas de partido, em campanhas eleitorais ou nas discussões sobre leis.
Esse silêncio contrasta com o lugar onde o climatério se manifesta todos os dias, que é também o trabalho. Uma professora dá aula depois de uma noite sem dormir, uma analista de sistemas enfrenta fogachos no meio de uma reunião e uma médica tenta manter a concentração durante o plantão, e nenhuma delas encontra, na legislação trabalhista ou previdenciária, uma regra pensada para a fase que está vivendo.
A cientista política Jane Mansbridge, professora emérita da Universidade de Harvard, ajuda a entender por que isso importa. Em um artigo de 1999, ela pergunta se um grupo precisa ter, nos lugares em que se decidem as leis, alguém que compartilhe a sua experiência, e responde que às vezes sim.
Uma das situações em que isso faz diferença, segundo ela, é quando as demandas do grupo ainda foram pouco debatidas em público e as próprias pessoas afetadas não sabem bem o que reivindicar, caso que ela chama de interesses não cristalizados. O climatério se encaixa bem nessa descrição, pois quando um tema não tem nome público, mesmo um grupo de milhões dificilmente consegue transformá-lo em reivindicação.
Há sinais de que essa cristalização começou. Na saúde, o PL 5602/19, apresentado em 2019 pela então deputada Bia Cavassa (MS), reuniu projetos de outras deputadas, passou por comissões com relatoras mulheres e foi aprovado em julho de 2026 na Comissão de Constituição e Justiça, com relatoria de Tabata Amaral (PSB-SP). O texto cria diretrizes no SUS para o atendimento de mulheres no climatério e na menopausa e, como não houve recurso ao Plenário, foi encaminhado à redação final, etapa que antecede o envio ao Senado.
No trabalho, o tema chegou depois. Em 2025, o deputado Romero Rodrigues (Podemos-PB) apresentou dois projetos que alteram a CLT: um inclui a menopausa entre os fatores que as empresas devem considerar no gerenciamento de riscos psicossociais, para que ela não se torne motivo de discriminação ou de perda de oportunidades, e o outro prevê medidas no ambiente de trabalho, como ventilação adequada e acesso fácil a água.
Em Roraima, a Assembleia Legislativa aprovou em maio de 2026 um programa estadual de apoio às mulheres no climatério no ambiente de trabalho, com incentivo à flexibilização de jornadas. São propostas iniciais, que ainda dependem de aprovação, mas mostram que a discussão começa a sair da saúde e alcançar as condições de trabalho.
Esse percurso também confirma a ressalva de Mansbridge de que a presença ajuda, mas não basta. Os projetos de saúde nasceram e avançaram pelas mãos de deputadas, enquanto os trabalhistas foram apresentados por um deputado, o que indica que o tema pode chegar às leis por vários caminhos, desde que alguém o leve adiante. Para a autora, é no debate público que o interesse ganha forma, quando as mulheres afetadas falam da própria experiência em comunidades, na imprensa e em entidades de saúde, e quem decide passa a reconhecer o assunto.
Eleger mais mulheres foi um passo, mas a pauta do climatério só avança se houver quem a acompanhe. Vale saber se a candidata em quem você votou foi eleita e se ela, ou quem quer que tenha recebido o seu voto, vai assumir o compromisso de levar esses projetos adiante, incluindo o trabalho e a previdência.