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“Quanto mais desenvolvida uma civilização, mais apurada ela é”

O designer Guto Indio da Costa, que será jurado de Product Design Lions, cria objetos e móveis que habitam a rotina das pessoas e diz que é do lixo que se extrairá a matéria-prima para o desenvolvimento sustentável

i 14 de abril de 2014 - 8h03

A sedução pela forma subtraiu da área de engenharia aeronáutica ao menos uma pessoa. É o que afirma o designer Luis Augusto Indio da Costa, ou simplesmente Guto Indio da Costa. “Percebi que era muito mais atraído pela forma do que pela engenharia em si”, define. Ao assistir algumas aulas de desenho industrial, se deu conta da enorme abrangência da profissão e “da sedutora combinação de arte e ciência, forma e função, com a possibilidade efetiva de ser criativo e inventivo em campos tão diferentes”, recorda. Na edição deste ano do Festival Internacional de Criatividade de Cannes, Costa será um dos jurados da nova categoria Product Design Lions.

A formação acadêmica começou no Rio de Janeiro. Dois anos depois, retomou os estudos, fora do Brasil, no Art Center College of Design, conceituada faculdade norte-americana que, na ocasião, tinha um campus na Califórnia e outro na Suíça. “Fiz o curso na Suíça, onde me graduei, mas fiz também dois períodos de estudos na Califórnia. Estagiei na França e na Dinamarca e, recém-formado, trabalhei na Alemanha”, detalha.

A combinação do background acadêmico com a atração pela forma deu origem a um dos maiores designers brasileiros. Costa é diretor do escritório Indio da Costa A.U.D.T (Arquitetura, Urbanismo, Design e Transporte). No portfólio, traz um dos emblemas do seu trabalho, o ventilador de teto IC/Air, criado a pedido de uma empresa que fabricava fitas de videocassete e desejava diversificar a linha de produtos até os quatro modelos de pontos de ônibus de São Paulo. O escritório do designer venceu a concorrência da Otima, que administra os pontos na cidade. Atualmente, seu trabalho tem escala industrial: abrange fabricantes de fogões, geladeiras, lavadoras, torneiras, equipamentos de ginástica, ventiladores, canetas, barcos…

O designer afirma que, na maioria das vezes, é contratado pela indústria. “Criamos fortes vínculos com algumas empresas e hoje somos responsáveis por todo seu portfólio. São grandes parcerias, de longo prazo. Outras vezes, criamos produtos e oferecemos à indústria. Nesse caso, temos uma maior liberdade criativa, mas também uma maior responsabilidade pelo sucesso comercial do produto”, explica. É amplo o leque de produtos rotineiros que levam a assinatura do profissional: a cadeira de polipropileno ICZERO1, os misturadores Lucca, o ventilador IC/Air (da Plajet), a garrafa térmica Futura (da Alladin), a banheira Smarthydro, a prateleira Carrapixxxo Lyptus.

Mais do que estética
“Design é muito mais do que estética. Design combina estética, funcionalidade, um forte conhecimento das formas de fabricação, materiais etc. Estética se apura: quanto mais desenvolvida uma civilização, mais apurada esteticamente ela é. E isso se expressa nas artes, na arquitetura, no design etc. No Brasil, a estética do luxo é mais minimalista, mais pura, mais arrojada; a estética de massa é mais barroca, mais complexa visualmente. O bom design é aquele que transmite a mensagem correta por meio da forma e, quando se pode categorizar um produto pela sua forma, a mensagem foi claramente transmitida”, discorre Costa ao conceituar a questão do gosto e da estética.

Para o designer, definir uma tendência em design global é coisa do passado. Mais do que isso, o comprador do produto final que envolve a estética terá de, inclusive, modificar, em última instância, o próprio gosto. “Existe uma multiplicidade enorme de tendências e um grande número de designers de altíssima qualidade que atua em toda parte do mundo. Não se pode simplificar. Mas o mundo tem uma demanda objetiva e urgente por um novo modelo de produção e consumo. A produção precisa se tornar responsável pela perpetuidade da exploração das matérias-primas, assim como o consumo precisa se modificar e adotar novos modelos onde compartilhar e usufruir serão mais importantes do que ter. Reciclagem será uma regra: nosso futuro é o nosso próprio lixo! É dele que extrairemos no futuro a matéria-prima para o desenvolvimento sustentável”, defende.

Novas tecnologias, novos hábitos
E a tecnologia pode ajudar nesse processo? “Novas tecnologias criam novas necessidades, novos hábitos, novas interações e novas formas de interagir com máquinas e produtos. Normalmente, isso gera a necessidade de novo design. Veja o iPhone (Apple), veja o Google Glass, por exemplo. São novas tecnologias que abrem portas para um novo design e para uma revolução completa na forma como vivemos e nos comunicamos”, exemplifica.

Sobre o efeito que os objetos causam na vida das pessoas, Costa diz que a marca é fruto do produto e do serviço que presta à sociedade e só é realmente forte quando entrega com qualidade o que promete. “O design da experiência tem de ser completo e coerente porque cria e reforça a própria identidade da marca. Esse conceito se comprova facilmente no caso de produtos sem marca nem design, como o café brasileiro, vendido ao mundo todo em sacas de 50 kg. Sem design nem marca. Agora, pense na Nespresso: no design da cafeteira, no design da cápsula, nas lojas, na publicidade etc. Quem oferece uma experiência completa? Quem consegue maior valor agregado e maior margem no produto? Quem usa ou quem não usa design? Imagine, por curiosidade, se a França vendesse perfume francês em sacas de 50 litros… Sem design nem marca, todos os produtos viram commodities”, afirma.

Para ilustrar essa definição, Costa opina sobre dois ícones que povoarão os sonhos e também a realidade dos brasileiros até 2016: a Copa do Mundo e a Olimpíada. Questionado sobre ambas as marcas, o profissional foi taxativo: o Comitê Olímpico Brasileiro foi muito hábil na contratação da marca da Olimpíada — estabeleceu uma concorrência muito benfeita entre as mais importantes empresas de design do Brasil e seu processo gerou um resultado da maior qualidade: a marca olímpica Rio 2016 é um belo case de design, diz. “Infelizmente, para a Copa do Mundo, não se pode dizer o mesmo. O resultado é uma tragédia. Sem conceito relevante, sem expressão, com difícil legibilidade, uma vergonha em termos de design”, indigna-se.

Diretor: Jean Luc Besson
Hobby: desenho
Música: jazz
Viagem: a qualquer destino inusitado

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