Indústria se manifesta sobre possíveis novas tarifas dos EUA
Governo dos EUA propõe taxar importações do Brasil em 25%, alegando práticas desleais na relação comercial
Os Estados Unidos poderão voltar a taxar importações brasileiras, impondo uma tarifa adicional de 25% ao País como punição a supostas práticas desleais.

Proposta de nova tarifa ao Brasil: governo dos EUA alega práticas desleais na relação comercial com o Brasil (Crédito: Andrea Izzotti/Shutterstock)
Há cerca de um ano, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) deu início a uma investigação baseada na Lei do Comércio sobre possíveis práticas desleais por parte do Brasil, que dificultavam o acesso de exportações ao Pais há anos. O USTR incluiu serviços de pagamento eletrônicos, como o Pix; tarifas preferenciais; acesso ao mercado de etanol e o desmatamento ilegal como objetos das práticas desleais.
O relatório final da investigação sugere que o governo brasileiro tenha adotado práticas e políticas “irrazoáveis” que “oneram ou restringem” o comércio com os EUA, causando prejuízo ao mercado interno.
A decisão, contudo, não é definitiva. A taxa poderá entrar em vigor no dia 15 de julho, segundo o prazo legal, mas ainda depende da conclusão da investigação e de uma série de consultas públicas no que diz respeito a medidas corretivas, até 1° de julho.
A imposição da tarifa não deverá ser aplicada a carne bovina, frutas, café, terras raras, metais e peças de aeronaves — alguns dos que estiveram no foco da taxação determinada pelos EUA no ano passado. A decisão do governo Trump também poderá isentar itens que possam implicar em “disrupções” para a economia.
A notícia repercutiu de forma negativa entre a indústria brasileira. Em posicionamento, Ricardo Alban, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), apontou que o setor ficou surpreso e expressou preocupação com o nível da nova taxação.
Segundo a Confederação, medidas tarifárias dessa natureza não contribuem para o fortalecimento da relação econômica bilateral e podem provocar impactos negativos em cadeias produtivas. Alban afirma que a CNI seguirá aberta a contribuir com negociações.
Já Abrão Neto, presidente da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), lembra que o relatório não é final, reforçando que ainda há tempo para evitar a adoção de novas tarifas. Mas a Câmara reconhece que, se confirmadas, as medidas aumentarão custos, reduzirão a competitividade e criarão obstáculos ao comércio e aos investimentos bilaterais.
“O setor empresarial espera que os dois governos intensifiquem seus esforços nas próximas semanas e alcancem uma solução que enderece as questões em discussão, preservando as condições necessárias para a evolução do comércio e dos investimentos nos dois países”, afirmou Neto, em comunicado.
Entre o setor calçadista, a medida foi recebida de maneira negativa, uma vez que, historicamente, Estados Unidos são o principal destino das exportações brasileiras de calçados. “A medida é anunciada em um momento de recuperação, após queda do tarifaço de 50%, ocorrida no final de fevereiro. A possibilidade de nova tarifa adicional traz mais insegurança tanto para o exportador brasileiro quanto para o importador norte-americano”, diz presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados).
A Associação ainda aponta que taxação poderá beneficiar outros exportadores, sobretudo os asiáticos, à medida em que pode implicar em desvantagens competitivas para o Brasil.
O que diz o governo brasileiro?
Em postagem publicada no perfil do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no X, antigo Twitter, o Governo Federal manifestou indignação com a conclusão preliminar. A nota aponta que a investigação ocorreu por provocação da família Bolsonaro e está associada à tentativa de ingerência em temas internos do Brasil.
“É lastimável que todo o trabalho de diálogo e articulação que o Governo brasileiro tem feito, inclusive com envolvimento pessoal dos Presidentes Lula e Trump, seja sabotado por interesses meramente eleitorais e familiares”, indica o post. “Não havia e não há justificativa para essas medidas unilaterais contra o nosso país ou contra patrimônios brasileiros como o PIX, mencionado explicitamente nas recomendações preliminares”, acrescenta.
Confira a postagem na íntegra:
📝 Nota do Governo do Brasil
O Governo brasileiro manifesta indignação com a conclusão preliminar anunciada ontem (1/6) pelo USTR relativa à investigação da Seção 301 contra alegadas práticas comerciais desleais do Brasil.
Essa investigação teve início em 15 de julho de 2025…
— Lula (@LulaOficial) June 2, 2026
Negociações e tarifa extra
No relatório da investigação, os EUA reconhecem a relação com o Brasil e afirmam estar abertos ao diálogo. O embaixador John Greer cita as reuniões construtivas com Lula e seu gabinete, que se intensificaram nas últimas semanas.
“Contudo, continuamos a ter divergências substanciais na resolução das questões identificadas nesta investigação. Aguardo com expectativa a continuação do diálogo com o governo brasileiro, antes do prazo legal de 15 de julho de 2026 para a tomada de medidas corretivas”, declarou.
O Brasil ainda pode estar sujeito à aplicação de tarifas adicionais ao lado de outros quase 60 países e União Europeia, fruto de outra investigação conduzida sob a seção 301, sobre a inefetividade na promulgação ou aplicação de leis que proíbem as importações de produtos fabricados com trabalho forçado.
O governo dos EUA propôs uma outra tarifa de 12,5% sobre importações não apenas do Brasil, mas também da China, Brasil, Coreia do Sul, Suíça e Reino Unido, por exemplo. Outros, como os da União Europeia e México, poderão ser taxadas em 10%.