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Mídia tradicional perde espaço para notícias online

Digital News Report: 47% dos brasileiros evitam notícias e, no digital, somente 15% pagam pelo conteúdo

i 23 de junho de 2026 - 6h03

A relação do brasileiro (e do mundo) com a notícia (ou com a mídia), de forma geral, está tão polarizada quanto a ideologia política. Audiência, imprensa e público mudaram e isso se reflete no consumo de conteúdo de informação.

No século 18, foi cunhado o termo “Quarto Poder” ou “Quarto Estado” para designar o poder de influência de alguns jornalistas ingleses. Essa definição se consolidou nos séculos seguintes e a imprensa se tornou, no mundo democrático, o principal canal de formação da opinião pública, o qual canalizava queixas sociais e, eventualmente, protegia a população contra os abusos de poder.

O ápice do Quarto Poder foi na década de 1960, sobretudo nos EUA, com coberturas históricas. Talvez, a mais famos foi a denúncia do caso Watergate nos Estados Unidos, cuja apuração começou em 1972 e, em 1974, levou à do presidente dos EUA, Richard Nixon.

Apesar disso tudo, agora, o cenário é completamente diferente. Na opinião de grande parte dos usuários em fóruns de debate, a imprensa tradicional perdeu parte da credibilidade e hegemonia com o passar dos anos. Com a ascensão da internet, a descentralização das notícias e a influência das redes sociais, o “Quarto Poder”, agora, e é difuso e frequentemente contestado.

Isso está explícito na nova edição do Digital News Report 2026, elaborado pelo Reuters Institute for the Study of Journalism, ligado à Universidade de Oxford.

O Digital News Report 2026 é um estudo anual elaborado para entender como as notícias são consumidas pelo público em 48 mercados globais, a partir de pesquisa online com quase 100 mil entrevistados. O levantamento analisa a relação da audiência com a mídia em cenário marcado por intensa volatilidade política, econômica e tecnológica.

Como se dá o consumo da mídia off-line, ou tradicional, no Brasil (Crédito: Digital News Report)

Como se dá o consumo da mídia off-line, ou tradicional, no Brasil (Crédito: Digital News Report)

Mídia tradicional X online

Pelos dados, 36% dos brasileiros acreditam sempre nas notícias, 41% acreditam apenas nos noticiários que usam frequentemente, 47% simplesmente evitam notícias e 43% estão abertos a obter informações de novas fontes.

Ainda entres os consumidores de conteúdo exclusivamente online do Brasil, apenas 15% pagam por notícias no ambiente digital, 20% fazem comentários nas notícias, 64% estão preocupados com a desinformação e 51% estão interessados em notícias.

Como se dá o consumo da mídia online no Brasil (Crédito: Digital News Report)

Como se dá o consumo da mídia online no Brasil (Crédito: Digital News Report)

Perda de terreno

No recorte do País, a mídia tradicional continua a perder terreno como fonte de notícias no Brasil, enquanto os chatbots de IA (como ChatGPT e Gemini) ganham popularidade e o consumo de informações nas redes sociais permanece alto, segundo a análise feita pelo jornalista econômico e ex-bolsista de jornalismo do Instituto Reuters, Rodrigo Carro.

Contudo, o número de veículos de mídia online cresceu durante o ano passado, apesar do ambiente adverso caracterizado pela queda na confiança nas notícias e pela redução da base de assinantes pagos.

TV multiplataforma

Historicamente poderosa, a TV expande suas redes de distribuição com o lançamento de canais multiplataforma.

O SBT News, por exemplo, estreou programação 24 horas em dezembro de 2025 com um modelo de negócios que envolve streaming gratuito e receita publicitária baseada em canal Fast. Seu conteúdo está disponível na TV paga, em plataformas de streaming e em smart TVs.

É o mesmo modelo de outros dois canais de notícias lançados em 2024: CNN Money e The Times Brasil (licenciado pela CNBC).

TV paga

O crescimento da publicidade na TV paga impulsiona esse tipo de investimento. Em termos nominais, os investimentos publicitários quase dobraram nos últimos três anos, o que mostra tendência em direção a públicos-alvo em uma tentativa de diversificar as fontes de receita. Em comparação, os investimentos com publicidade na TV aberta cresceram modestos 4,6% durante o mesmo período.

Essa mudança em direção à segmentação ocorre em um momento em que o domínio da TV está ameaçado: em 2025, a mídia digital representava 40,6% do mercado publicitário, quase igual a participação da TV (41,3%).

Publicidade em jornais

A receita com publicidade em jornais permaneceu estável (1,4% em relação ao ano anterior), o que reflete circulação média diária constante para as dez publicações mais vendidas: pouco mais de um milhão de exemplares, segundo o Instituto de Verificação de Comunicação (IVC).

No entanto, esse número exclui dois dos principais jornais do país, Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, que não são auditados pelo IVC.

Uma análise mais ampla do setor editorial feita pelo Atlas da Notícia indica que 122 jornais fecharam desde 2023 e muitos municípios não têm veículo de comunicação local.

O cenário digital continua vibrante: o número de startups cresceu no ano passado, apesar de a proporção de usuários que pagam por notícias online ter caído cinco pontos percentuais nos últimos três anos, chegando a 15%.

Informações das redes sociais

Num País onde mais da metade da população consome informações semanalmente nas redes sociais e os influenciadores desempenham um papel desproporcional, lei federal promulgada em janeiro deste ano estabeleceu a figura do “profissional multimídia” e formalizou funções no setor de criação de conteúdo digital.

A lei provocou reações diversas: a Associação Brasileira de Radiodifusão e Televisão (Abert) aprovou o reconhecimento de uma realidade de mercado, mas a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) e diversos sindicatos manifestaram o receio de que as condições de trabalho dos repórteres se tornem ainda mais precárias.

Durante o último ano, também foram registradas mudanças na regulamentação das plataformas, controladas pelas big techs.

Desde junho do ano passado, por decisão do Supremo Tribunal Federal, as plataformas podem ser responsabilizadas civilmente por conteúdo ilegal de terceiros, mesmo sem ordem judicial prévia, caso não removam imediatamente materiais vinculados a crimes graves como atos antidemocráticos, terrorismo e racismo.

Além disso, em março deste ano, entrou em vigor uma lei para proteger crianças e adolescentes online (o ECA Digital), que exige verificação rigorosa de idade e moderação de conteúdo.

Uso de IA

O uso de ferramentas de IA gerou debates sobre o uso de material protegido por direitos autorais por desenvolvedores, enquanto 13% da população já utiliza chatbots semanalmente para consumir notícias.

Em declaração conjunta publicada em fevereiro deste ano, 12 organizações da indústria criativa brasileira, entre as quais associações de rádio, TV e mídia impressa, anunciaram que o setor está “aberto a negociar modelos de autorização e licenciamento, bem como alianças que garantam segurança jurídica e benefícios mútuos”.

Isso ocorreu após uma ação judicial movida pela Folha de S. Paulo que acusava a OpenAI, proprietária do ChatGPT, de concorrência desleal e violação de direitos autorais.

No final de maio, no entanto, o jornal retirou a ação após firmar acordo comercial para licenciar seu conteúdo jornalístico para a ChatGPT.

O que explica o declínio da mídia tradicional?

Na análise do jornalista Rodrigo Carro para o Digital News Report, embora o alcance de jornais, TV e rádio tenha diminuído desde 2013, a dinâmica de cada fonte é diferente.

Isso é particularmente relevante para aqueles que dedicam tempo e energia ao desenvolvimento de sua “estratégia para o público jovem”, pois podem encontrar uma tensão em seu foco: retenção ou adoção.

Os jornais passam por profundo declínio estrutural, impulsionado por baixas taxas de adoção e retenção.

Já para o rádio, o fator-chave é a baixa adoção, enquanto para a TV é um problema de retenção. Embora a maioria das pessoas tenha consumido notícias na TV semanalmente em algum momento de suas vidas, um grande número parou, e o colapso se deve em grande parte à incapacidade de reter o público jovem.

Para muitos, as notícias na TV não são mais uma opção, enquanto jornais e rádio podem nunca ter sido.

Hábitos de consumo

Os jovens adultos atuais envelhecerão, mas os dados indicam que é improvável que adotem os hábitos de consumo de notícias das gerações anteriores.

Por outro lado, os adultos mais velhos não consomem mais mídia tradicional simplesmente por causa de sua idade.

Ainda, relativamente poucos jovens cresceram com o hábito de ler jornais e ouvir rádio. É possível que a reprodução social do público de jornais e rádio tenha entrado em colapso total.

Embora muitos jovens tenham adquirido o hábito de consumir notícias na TV, há claros indícios de que essa conexão é menos duradoura em comparação com as gerações anteriores.

No entanto, aponta a análise, vale a pena enfatizar que uma opção não é necessariamente substituída por outra.

Ainda que as mídias sociais e as plataformas de vídeo se tornem a fonte de informação mais utilizada em várias partes do mundo, isso se deve menos ao seu crescimento e mais ao declínio de outros formatos. As pessoas podem se contentar com um repertório menor e algumas podem até abandonar as notícias por completo.

Nenhuma mídia

No grupo que costumava depender da TV para se informar semanalmente, mas parou de fazê-lo, 9% não usam mais nenhuma das alternativas apresentadas (mídia impressa, rádio, podcasts, mídias sociais, chatbots de IA e sites ou aplicativos de diversos veículos de comunicação).

Esse cenário faz parte de uma tendência apontada pelo News Report em estudos anteriores, em que uma minoria pequena, porém significativa, em todos os mercados, não utiliza mais nenhuma fonte de notícias.

Isso representa um declínio estrutural e geral no consumo de notícias, e não apenas a ascensão e queda de veículos de comunicação específicos. O fato de 80% do público poder contar com a TV para se informar é, de certa forma, notável, e, em seu auge, esse número provavelmente era ainda maior.

Embora atualmente apenas uma pequena minoria utilize chatbots de IA para se informar, seu rápido crescimento sugere que, com o tempo, essas ferramentas podem desempenhar um papel mais significativo no consumo de notícias.

Assim como acontece com outras tecnologias emergentes, a adoção inicial se concentra entre o público mais engajado, o que significa que os efeitos iniciais provavelmente serão sentidos com mais intensidade por aqueles que já estão profundamente conectados às notícias e pelos jovens.

A IA não é simplesmente outra forma de acessar manchetes. Embora alguns obtenham as últimas notícias dessa maneira, muitos também usam chatbots para pesquisar, resumir e avaliar informações, o que implica um papel mais amplo que combina acesso com interpretação. Certos usos coincidem com áreas em que a mídia pode responder diretamente. A demanda por notícias mais simples e fáceis de assimilar reforça o valor da IA.