MWC

Consolidação da IA impulsiona debate sobre soberania digital

Executivos discutem o que é soberania digital e o equilíbrio ideal entre inovação global e governança local

i 5 de março de 2026 - 7h26

Soberania

Ali Taha Koç, CEO da Turkcell, enfatizou que mundo está dividido entre aqueles que moldam a infraestrutura digital e aqueles que dependem dela (Crédito: Amanda Schnaider)

Em um cenário no qual a inteligência artificial (IA) já não é mais um experimento e, sim, uma realidade, o que entra em jogo, agora, é a soberania digital. Debates durante o Mobile World Congress (MWC) 2026 deixaram claro que sem o controle sobre os dados, infraestrutura e cadeia de suprimentos, nações correm o risco de serem meras passageiras em um ônibus guiado por outras.

Azeem Azhar, fundador da Exponential View, destacou que o mercado global saltou de 7 trilhões de tokens – unidade atômica de inteligência de máquina – por mês, em 2023, para uma estimativa de 9 trilhões em janeiro de 2026, o que representa um crescimento de 1.200 vezes.

Apesar disso, o executivo alertou que os laboratórios de IA não conseguem acompanhar essa expansão. “Para sustentar isso, precisamos de infraestrutura. Toda essa inteligência de máquina é computada, é processada em GPUs e outros tipos de chips, passa por grandes volumes de memória. Tudo isso precisa de energia. Tudo isso precisa de resfriamento”, frisou.

A construção de “fábricas de IA”, como o Campus Stargate, em Abilene, no Texas, com mais de quatro quilômetros de extensão e racks de GPUs consumindo gigawatts de energia, é somente um exemplo do enorme desafio que essa indústria tem pela frente.

“O mundo virou. Há 15 anos dizíamos que o software estava devorando o mundo. Hoje, o que vemos é que o software está exigindo um novo mundo”, pontuou Azhar. Ele ainda enfatizou que, neste ano, as big techs devem investir US$ 650 bilhões para construir essa infraestrutura. “Cerca de 75% disso irá para fábricas de IA. O restante, para infraestrutura computacional tradicional, GPUs, memória, resfriamento, redes, fotônica e energia”.

Dessa forma, a infraestrutura de conectividade tornou-se um pilar fundamental da resiliência econômica e da segurança nacional, segundo Ali Taha Koç, CEO da Turkcell, principal empresa de telefonia móvel da Turquia, uma vez que molda a direção das nações, sua capacidade de tomar decisões e, em última instância, seu futuro.

“O mundo está cada vez mais dividido entre aqueles que moldam a infraestrutura digital e aqueles que dependem dela. As fronteiras de uma nação já não são definidas apenas por mapas. Onde os dados residem, por quais redes trafegam e quais regras os governam também definem essas fronteiras”, disse.

Risco existencial

Mas por que há uma urgência em ter uma IA soberana e uma soberania digital, como um todo? Quais são os riscos de depender da infraestrutura tecnológica de outros países? Björn Weidenmüller, senior vice president AI factory go-to-market da T-Systems International GmbH, elencou quatro riscos nesse sentido.

A primeira ameaça direta é que outra nação/organização tenha o poder de simplesmente desligar a sua infraestrutura. Outro potencial risco é ser obrigado a entregar seus dados, como o Clarifying Lawful Overseas Use of Data Act (Cloud Act), lei federal dos Estados Unidos, sancionada em 2018, que permite às autoridades americanas forçarem empresas de tecnologia baseadas nos EUA a fornecerem dados de clientes armazenados em servidores no exterior.

O terceiro risco, segundo Weidenmüller, é ficar preso em conflitos internacionais. “Se você está na Europa e roda 90% da sua tecnologia em tecnologia baseada nos EUA, pode muito bem acontecer de você ser atingido por tarifas”, alertou. Por fim, o quarto risco é saber os parâmetros dos modelos em que pretende entrar. “Equilibrar esses quatro riscos tem muito a ver com o que soberania realmente significa”, ressaltou.

Para o chefe global de desenvolvimento de negócios para telecomunicações na Nvidia, Chris Penrose, ter soberania significa ter controle no seu país, língua e cultura. A questão para o executivo é que soberania é determinada de país para país, ou seja, pode haver variação de um para o outro.

Geopatriação

Como uma consequência desse cenário, um termo que vem ganhando destaque é o de “geopatriação”, ou seja, a realocação do trabalho, dados e infraestrutura digital de ambientes incertos para domínios soberanos locais, que, segundo Taha Koç, tem o objetivo de reduzir riscos geopolíticos, enfrentar incertezas regulatórias e eliminar vulnerabilidades sistêmicas.

O executivo argumentou, ainda, que os países não precisam escolher entre tecnologias globais e soberania nacional, uma vez que, segundo ele, com as parcerias certas é possível alcançar ambos.

Para exemplificar seu ponto, ele citou a parceria entre a Turkcell e o Google Cloud, que permitirá que organizações possam criptografar seus dados usando suas próprias chaves e armazená-los em infraestrutura com o mais alto nível de segurança e controle. “Essa parceria representa a proporção áurea entre tecnologia global e governo local. Em outras palavras, podemos chamá-la de equilíbrio ideal”, complementou.

Inanc Cakiroglu, Group CIO do Grupo Veon, concordou que a soberania não deve significar isolamento, mas, sim, uma compreensão da fragilidade no ecossistema. Para ele, ao pensar em soberania de IA, um aspecto crucial é a separação de camadas. “Se estamos falando de arquitetura de referência, sou totalmente contra estruturas monolíticas ao implementar soluções de IA”, complementou.

Portanto, para o executivo, nesse contexto, é preciso adotar uma arquitetura de microsserviços, em que diferentes componentes funcionam como peças de Lego, para que possa se combinar e recombinar para construir uma solução. “Com essa separação dos dados, dos componentes de IA, dos fluxos de trabalho existentes e das localizações você ganha a capacidade de ajustar ou modificar sua estrutura com facilidade quando houver mudanças no ambiente regulatório ou em questões geopolíticas”, salientou.