Opinião MWC

Da cobertura à experiência

Novos desafios para as redes móveis

Carlos Alberto Luz Roseiro

ICT Marketing Director, Huawei Brasil 27 de fevereiro de 2026 - 16h28

Durante muito tempo, as redes móveis foram planejadas e dimensionadas para a comunicação entre pessoas e, depois, para o consumo de conteúdo. Os usuários acessavam aplicativos, assistiam a vídeos e navegavam em redes sociais. Esse modelo continua relevante, mas vem cada vez mais sendo ultrapassado por um movimento mais profundo: o smartphone está deixando de ser apenas uma tela de entretenimento e de acesso a serviços para ser, para milhões de pessoas, um instrumento de trabalho, de pagamento e de renda. A vida digital hoje acontece com o usuário em movimento e, cada vez mais, em tempo real.

Essa mudança acompanha o próprio peso crescente da conectividade na economia. Segundo a GSMA , associação responsável pelo Mobile World Congress (MWC) Barcelona, as tecnologias móveis já respondem por US$ 6,5 trilhões em valor econômico global, o equivalente a 5,8% do PIB mundial, refletindo sua função como base de uma economia cada vez mais digital e conectada. Isso significa que a mobilidade tornou-se a infraestrutura principal das atividades produtivas em praticamente todos os setores.

Ao mesmo tempo, a base instalada continua crescendo. Segundo a consultoria IDC, no ano passado, foram comercializados cerca de 1,25 bilhão de smartphones no mundo todo, consolidando o dispositivo como o principal ponto de conexão digital das pessoas. Mais importante do que o volume é a mudança no perfil de uso.

Essa realidade é visível em diversas atividades do cotidiano. Criadores de conteúdo produzem, editam e transmitem vídeos diretamente do celular, em alta definição e em tempo real. Motoristas e entregadores dependem de múltiplas plataformas simultaneamente, com navegação, comunicação e registro de atividades ocorrendo continuamente. Técnicos de campo utilizam videochamadas para diagnóstico remoto, reduzindo deslocamentos e aumentando a eficiência operacional. Esse conjunto altera o padrão do tráfego de dados: não se trata apenas de baixar dados (downlink), mas também de enviar conteúdo (uplink) o tempo todo e com qualidade consistente.

O avanço da inteligência artificial acelera ainda mais esse processo. De acordo com a consultoria Gartner, até 2027, 25% dos aplicativos móveis serão substituídos por assistentes baseados em IA, alterando a forma como os usuários interagem com seus dispositivos e ampliando a necessidade de conectividade permanente e responsiva. O celular funciona como um ponto de interação contínua com sistemas digitais mais amplos, que processam, analisam e respondem a dados em tempo real.

Esse cenário explica o investimento constante em infraestrutura. Os gastos globais em tecnologia da informação atingiram US$ 5,43 trilhões em 2025, impulsionados principalmente pela expansão da infraestrutura digital e pela adoção de inteligência artificial, segundo estimativas da Gartner. Parte relevante desse investimento está diretamente ligada à necessidade de preparar as redes para suportar novos padrões de uso, mais dinâmicos, exigentes e inteligentes.

Naturalmente, esse movimento tem implicações diretas para as operadoras. O planejamento de rede, usualmente orientado por cobertura geográfica e capacidade média, deve também considerar a qualidade da experiência em diferentes contextos de uso. A conectividade precisa acompanhar o usuário em movimento, responder a picos imprevisíveis de tráfego e sustentar aplicações que dependem de baixa latência e alta confiabilidade. Ao mesmo tempo, abre-se espaço para novos modelos de negócio baseados em experiência, em que fatores como estabilidade, consistência e capacidade de resposta têm tanto peso quanto a velocidade nominal. E isso aplica-se tanto ao tráfego de downlink como ao tráfego de uplink.

Na prática, isso significa que as redes móveis precisam lidar com um tráfego mais complexo. Não se trata apenas de fornecer velocidade, mas de garantir consistência, estabilidade e capacidade de resposta em diferentes cenários, de forma cada vez mais simétrica (DL/UL). O usuário deixa de ser um consumidor passivo para se tornar um agente ativo na geração e circulação de dados.

Estamos entrando em uma fase em que a conectividade móvel permite não apenas a comunicação, mas o funcionamento de uma economia baseada em mobilidade, dados e interação contínua. Antecipar essa transformação é fundamental para construir sistemas capazes de acompanhar a evolução do comportamento digital e os próximos ciclos de inovação e crescimento.

O MWC Barcelona, que acontece na próxima semana, deve aprofundar essa discussão, evidenciando como a infraestrutura avança em uma nova fase da economia, marcada pela inteligência industrial, pela produção de dados em mobilidade e pela conectividade como base de praticamente todas as atividades produtivas.