Opinião MWC

O ponto de virada da IA nas indústrias

Vou para Barcelona com uma convicção: 2026 tende a ser lembrado como o ano em que a IA saiu definitivamente da fase experimental e entrou na lógica industrial

Paulo Tavares

Líder da área de 5G da Accenture 27 de fevereiro de 2026 - 16h15

O MWC Barcelona 2026 acontece em um momento de inflexão. Nos últimos dois anos, a inteligência artificial dominou palcos, manchetes e conselhos executivos. Agora, ela enfrenta seu teste mais relevante: deixar de ser promessa e se tornar infraestrutura.

O tema desta edição, “The IQ Era”, sinaliza exatamente isso. O foco central deixa de ser apenas capacidades tecnológicas, mas essencialmente maturidade. A pergunta “o que a IA pode fazer?” perde espaço para outra: “como redesenhar operações, modelos de negócio e cadeias de valor a partir dela?”.

Vou para Barcelona com uma convicção: 2026 tende a ser lembrado como o ano em que a IA saiu definitivamente da fase experimental e entrou na lógica industrial.

Redes que operam com inteligência

No setor de telecomunicações, essa transição é particularmente simbólica. As redes deixaram de ser apenas infraestrutura de conectividade para se tornarem sistemas vivos, capazes de analisar padrões, antecipar falhas e otimizar desempenho em tempo real.

Automação operacional, eficiência energética, gestão dinâmica de capacidade e manutenção preditiva já não são visões futuristas. São imperativos econômicos. Em um ambiente de margens pressionadas e crescimento exponencial de tráfego, inteligência aplicada à infraestrutura não é diferencial competitivo e sim requisito de sustentabilidade.

O que espero encontrar na MWC são evidências concretas dessa transformação: menos apresentações conceituais, empresas com “LLM wrappers” e mais provas de que a IA está reduzindo custos, elevando qualidade de serviço e tornando as redes mais resilientes.

Mas há uma camada ainda mais estratégica: redes “AI-native” exigem governança, segurança e responsabilidade desde o desenho arquitetural. Inteligência sem confiança é risco. E esse equilíbrio será determinante para a próxima década.

Da experimentação ao resultado recorrente

No universo corporativo mais amplo, a narrativa também evoluiu. A era dos pilotos isolados dá lugar à industrialização. Organizações que realmente avançam são aquelas que transformam IA em competência estrutural e integrada à reinvenção dos processos, dados e decisões.

A expectativa é ver discussões menos centradas em modelos e mais focadas em execução: priorização de casos de uso, métricas claras de valor, integração com sistemas legados e gestão de mudança. A verdadeira vantagem competitiva não está no algoritmo mais sofisticado, mas na capacidade de escalar impacto.

IA, nesse contexto, não substitui estratégia. Ela amplifica estratégia. E somente empresas que alinham tecnologia, cultura e governança conseguem capturar seu potencial completo.

Ecossistema: maturidade como diferencial

No 4YFN, sob o tema “Infinite AI”, veremos um ecossistema vibrante. Mas maturidade será o filtro real. Startups que prosperam não são apenas tecnicamente brilhantes. São as que resolvem problemas concretos e conseguem se integrar a ambientes corporativos complexos.

Mais do que identificar tendências, quero observar quais soluções já estão prontas para adoção em escala e quais ainda dependem de amadurecimento tecnológico, regulatório ou de mercado.

A consolidação da reinvenção

Se os últimos anos foram marcados por aceleração, 2026 tende a ser marcado por consolidação. A inteligência artificial deixa o centro do palco como espetáculo e passa a atuar nos bastidores como motor estrutural.

Minha expectativa para esta MWC é clara: testemunhar a consolidação da IA como fundação de negócio, algo tão essencial quanto conectividade, dados e energia. Quando isso acontece, não estamos mais falando de inovação incremental. Estamos falando de reinvenção industrial.

E é exatamente isso que faz desta edição um marco estratégico para quem enxerga tecnologia não como tendência, mas como transformação estrutural.