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O fascínio pela bolsa Birkin entre luxo, moda e futebol

Estratégia da Hermès e fascínio das WAGs solidificam o item como ativo cultural e financeiro no imaginário

i 5 de junho de 2026 - 17h39

Birkin Bag

Bolsas de luxo usadas por esposas e namoradas de jogadores chamaram atenção nos jogos da Seleção Brasileira (Crédito: Reprodução/Instagram)

No amistoso entre Brasil e Panamá, realizado no último domingo, 31, no Maracanã, a goleada da Seleção Brasileira não foi o único assunto a circular nas redes sociais. Nas arquibancadas, esposas e namoradas de jogadores também chamaram atenção pelos looks em verde e amarelo e, principalmente, pelas bolsas de luxo usadas para acompanhar a partida. Entre os modelos que mais geraram comentários estavam peças da Hermès, como as tradicionais Birkin e Kelly.

Segundo levantamentos publicados por veículos como CNN Brasil e gshow, algumas das bolsas exibidas no estádio ultrapassavam a casa dos R$ 100 mil. Entre os exemplos citados estão modelos Birkin e Kelly usados por companheiras de jogadores como Lucas Paquetá, Endrick, Bruno Guimarães e Rayan. O episódio reacendeu uma discussão que vai além da moda: por que uma bolsa, originalmente criada para ser funcional, tornou-se um dos símbolos mais reconhecíveis de status, exclusividade e pertencimento no mundo?

A trajetória da Birkin: de funcional a símbolo de status

Criada pela Hermès nos anos 1980, a Birkin nasceu a partir de um encontro entre Jane Birkin e Jean-Louis Dumas, então executivo da maison francesa. A própria Hermès relata que a atriz britânica reclamava da dificuldade de encontrar uma bolsa adequada às necessidades de uma jovem mãe quando surgiu a ideia do modelo. Décadas depois, a peça se tornou um dos itens mais cobiçados do mercado de luxo, com edições raras disputadas em leilões e no mercado de revenda.

Para Iza Dezon, CEO da DEZON e especialista em tendências e comportamento, parte do fascínio atual passa justamente pela distância entre a origem prática da peça e a forma como ela passou a ser exibida. “O que eu acho muito fascinante da Birkin é como ela foi subvertida, porque ela é usada de uma forma completamente oposta. Na maioria das vezes, ela está impecável, quase ilustrada, com um lencinho”, afirma.

Segundo Iza, a bolsa deixou de ser apenas um acessório e passou a integrar o que ela chama de “espetáculo do luxo”. Na leitura da especialista, a Birkin se tornou um objeto que comunica não apenas poder de compra, mas acesso. “Não é só ‘eu posso comprar’. Tem muita gente que pode comprar, no sentido do dinheiro. Com o limite certo no cartão de crédito, pode comprar. Eu acho que tem um lugar do ‘eu consigo estar na lista’, ‘eu consigo ter acesso'”, diz.

Esse ponto ajuda a explicar por que a Birkin desperta interesse tanto entre consumidores especializados em moda quanto entre o público mais leigo. Mesmo quem não acompanha o mercado de luxo em detalhes costuma reconhecer que aquele objeto representa algo. A bolsa funciona como um código visual de riqueza, raridade e prestígio.

Birkin Bag

A Birkin Bag da Hermès (Crédito: Divulgação)

Escassez e o mito da Birkin no mercado de luxo

Andréia Meneguete, pesquisadora na área de Cultura e Consumo de Luxo, coordenadora acadêmica e docente na ESPM, avalia que a Birkin ultrapassa a dimensão mercadológica porque se organiza social e culturalmente como um marcador simbólico. “Não é mais sobre uma bolsa, é sobre o universo que ela representa”, afirma.

Para a pesquisadora, o modelo reúne diferentes códigos de valor: produção artesanal, matéria-prima exclusiva, preço elevado e dificuldade de acesso. “Como a Birkin sempre esteve literalmente nas mãos de mulheres da elite e circulando em espaços onde poucos circulavam, ela tangibilizou no imaginário coletivo tudo o que o luxo significa: exclusividade, inacessibilidade, escassez e status”, explica Andréia.

A escassez é uma das engrenagens centrais dessa construção. Embora a Hermès não divulgue oficialmente uma lista de espera pública nos moldes popularizados pelo imaginário coletivo, o processo de compra de uma Birkin é frequentemente associado à disponibilidade limitada, ao relacionamento com a marca e ao histórico de consumo. Isso ajuda a sustentar a percepção de que não basta ter dinheiro para adquirir o produto diretamente em uma boutique.

Na visão de Iza, essa lógica aproxima a marca de uma mitologia contemporânea. “A definição de luxo é a exclusividade e, por exclusividade, a raridade”, afirma. Para ela, a Hermès poderia produzir mais unidades, mas preservar o limite faz parte da manutenção do desejo. “Para poder preservar a ideia de exclusividade, ela teve que inventar uma lista que é quase mitológica. A forma como a gente trata marcas é quase mitológica”, diz.

Esse imaginário também impulsiona o mercado second hand. Diante da dificuldade de acesso nas lojas, plataformas especializadas, revendedores e casas de leilão se tornam caminhos alternativos para quem busca modelos específicos. Em alguns casos, a revenda não reduz o valor simbólico da peça, mas o reforça.

Andréia observa que muitas Birkins são revendidas por valores superiores ao preço original de boutique. “Algumas Birkins combinam escassez, desejo global e produção limitada. Elas passam a operar quase como ativos culturais e financeiros”, afirma. Segundo ela, o mercado de revenda “não enfraquece a exclusividade da Hermès, ao contrário, contribui para reforçar sua aura de raridade e valorização”.

Em 2025, a Birkin original de Jane Birkin foi vendida pela Sotheby’s em Paris por cerca de US$ 10,1 milhões, estabelecendo um recorde para bolsas em leilão. A venda reforçou a leitura da peça não apenas como produto de moda, mas como item colecionável, associado à história, à celebridade e à cultura material do luxo.

Birkin e o imaginário das “WAGs” como vitrine do luxo

Birkin Bag

Virginia Fonseca utilizando uma bolsa Birkin, da Hermès (Crédito: Reprodução/Instagram)

A presença das Birkins entre esposas e namoradas de jogadores de futebol amplia ainda mais essa camada simbólica. O termo WAGs, usado internacionalmente para se referir às esposas e namoradas de atletas (wives and girlfriends, em inglês), ganhou força no futebol inglês nos anos 2000 e passou a designar também um estilo de vida acompanhado de perto por tabloides, revistas e, mais recentemente, pelas redes sociais.

Hoje, esse universo se conecta diretamente à cultura de influência. As parceiras de atletas não aparecem apenas como acompanhantes nos eventos esportivos. Muitas são influenciadoras, empreendedoras ou figuras públicas que constroem audiência própria a partir de moda, beleza, maternidade, viagens e bastidores da vida com jogadores. Em grandes eventos, o que vestem também vira pauta.

Para Andréia, quando esposas e namoradas de jogadores aparecem usando Birkins, elas não estão apenas exibindo um acessório. “Elas estão comunicando uma trajetória de ascensão, sucesso e pertencimento a uma elite globalizada”, afirma. Segundo a pesquisadora, o futebol ocupa um lugar importante no imaginário brasileiro como mecanismo de mobilidade social. Por isso, a associação entre atletas, luxo e consumo aspiracional tende a gerar forte repercussão.

Iza faz leitura semelhante ao apontar que, nesse contexto, a bolsa se torna uma comunicação de estilo de vida. “É mais do que dinheiro. Dinheiro é mais fácil”, afirma. Para a especialista, o que está em jogo é a demonstração de acesso a determinados círculos, eventos, marcas e ambientes. “A escassez gera mais curiosidade, gera mais burburinho. Não tem jeito”, diz.

A força das redes sociais intensifica esse fenômeno. Se antes a imagem das “WAGs” era filtrada sobretudo por paparazzi e revistas de celebridades, agora muitas dessas mulheres controlam a própria narrativa visual, publicando looks, bastidores e objetos de desejo diretamente em seus perfis. O estádio, nesse sentido, deixa de ser apenas cenário esportivo e se transforma também em vitrine de moda, influência e consumo.

Ao mesmo tempo, a circulação dessas imagens faz com que a Birkin seja reconhecida por públicos que talvez não acompanhem a Hermès ou o mercado de luxo de perto. A bolsa vira assunto não apenas porque custa caro, mas porque sintetiza uma narrativa de conquista. Como resume Andréia, “a Birkin aparece nesse contexto como um símbolo material de uma narrativa de sucesso”.

É justamente essa combinação entre raridade, reconhecimento imediato e exposição pública que mantém a Birkin no centro das conversas. Para o público especializado, ela representa um case de construção de valor, gestão de escassez e força de marca. Para o consumidor mais leigo, aparece como sinal visível de riqueza, pertencimento e ascensão.