Impacto social

Sonita Alizadeh: música e publicidade unidas por uma causa

Projeto da Publicis e AXA transforma pedido de Sonita Alizadeh em mobilização global por meninas afegãs

i 26 de junho de 2026 - 13h02

O apelo vulnerável feito pela rapper e ativista afegã há um ano, quando recebeu o LionHeart, no Cannes Lions, se tornou a semente de um movimento global que ganhou escala e relevância nas plataformas digitais. Importante voz pelos direitos das meninas e pelo fim dos casamentos infantis, a compositora disse, à época, no palco, algo que inspirou a indústria criativa: “Estou sozinha e preciso da ajuda de vocês”.

Sonita Alizadeh no palco do Cannes Lions - publicidade e música

Há um ano, ativista e rapper afegã Sonita Alizadeh recebeu o LionHeart e fez um apelo (Crédito: Divulgação/Cannes Lions)

Assim surgiu o projeto “Donate Your Voice” (Doe sua voz, em português), desenvolvido pela Publicis França, em parceria com a seguradora AXA. A iniciativa transformou o pedido de socorro de Sonita em uma verdadeira ferramenta de resistência contra o apartheid de gênero no Afeganistão, onde leis restringem a vida pública das mulheres.

“Nunca pensei que isso pudesse se transformar em um apelo global pelos direitos humanos. Eu estava no palco, diante da maior comunidade criativa do mundo, e pensei: ‘se há um lugar onde posso pedir ajuda, deve ser aqui’. Realmente, eu não sabia o que esperar”, lembra a artista.

Por sorte ou destino, na plateia do teatro estavam Ulrike Decoene, chief communications, brand & sustainability officer da AXA, e Agathe Bousquet, presidente do Publicis Groupe França, que decidiram responder ao chamado. O interesse da seguradora, segundo a executiva, se alinhava à plataforma proprietária focada no público feminino.

“A ideia de tomar uma posição pública sobre as mulheres no Afeganistão não era exatamente o que nossas equipes chamariam de ‘território explorado’. Foi uma parceria que nunca havíamos feito antes e realmente mudou a forma como trabalhamos. E, com a Publicis, tomamos a medida real da situação que, às vezes, na Europa, só conhecemos através da mídia”, diz Ulrike.

Motivos e ações

Em 2021, quando o Talibã retornou ao poder, deu-se início a um apagamento institucionalizado das mulheres afegãs da vida pública. Houve a proibição de meninas frequentarem a escola após os 12 anos; de mulheres circularem livremente sem um tut0r; e até mesmo de falar, cantar e rir em público. Mais recentemente, em 2024, novas leis aumentaram o nível de violência contra mulheres e crianças, ressalta Agathe.

“Separadamente, cada uma dessas leis é horrível e aterrorizante, mas, juntas, formam um código que priva metodicamente as mulheres de seus direitos. A estratégia do projeto foi transformar o sentimento de impotência em um motor de mobilização e criamos uma chamada à ação coletiva acessível: doar a própria voz”, conta.

Sonita Alizadeh no palco do Cannes Lions

Sonita Alizadeh gravou música e clipe em defesa das mulheres afegãs (Crédito: Divulgação/Cannes Lions)

Conforme a presidente da Publicis, o plano foi baixar a barreira de entrada ao máximo para tornar a adesão à causa mais fácil possível. Dessa forma, a agência criou uma espécie de coro, construído por meio de um filtro no TikTok, em que as pessoas cantavam o refrão da canção de Sonita. “A música não salva o mundo, mas chega a lugares onde argumentos simples não chegam: no coração. É aí que a mudança começa”, reflete.

No entanto, antes mesmo da criatividade, os desafios foram de ordem prática. Agência e cliente precisaram garantir um visto na Europa, mais precisamente em Oxford, no Reino Unido, local onde Sonita desejava estudar. Além disso, houve a viabilização de “status de trabalho legal para que a artista pudesse se envolver no projeto”, acrescenta Agathe.

A produção da música é do premiado John Foyle, que trabalhou com bandas como Kasabian e Maroon 5. “Quando ouvi as faixas que John me enviou, me apaixonei por elas, porque representavam a emoção e a mensagem que eu queria entregar. Então, fui a Londres gravar”, diz Sonita. “Quando ouvimos a gravação pela primeira vez, soubemos que tínhamos algo especial”, completa Agathe.

As vozes colhidas no TikTok foram, então, coletadas e mixadas em um único coro e os vídeos foram mantidos no videoclipe, propositalmente gravado em uma sala de aula (construída especialmente para o set). Além da parte musical, a iniciativa deu origem a uma campanha de arrecadação por meio da Unicef, que já desempenha sólido trabalho na região.

“As meninas estão proibidas de imaginar o futuro. Decidimos, então, recriar as imagens que eu tinha da sala de aula no Irã e no Afeganistão. O clipe foi em torno dessas memórias de infância”, ressalta a cantora. Lançado há dois meses, o vídeo de acumula até o momento mais de 2,4 milhões de visualizações no YouTube.