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Lela Brandão: comunidade exige conversa, conexão e presença

Creator e empresária falou sobre moda, conteúdo e os desafios de construir uma comunidade para além da audiência

i 27 de maio de 2026 - 14h52

Lela Brandão fala sobre como a comunidade estrutura seus negócios (Crédito: Eduardo Lopes/Máquina da Foto)

Lela Brandão fala sobre como a comunidade estrutura seus negócios (Crédito: Eduardo Lopes/Máquina da Foto)

O que começou como uma inquietação deu origem à Lela Brandão Co., uma marca de moda, ao podcast Gostosas Também Choram, um dos mais ouvidos do País, e a uma comunidade que acompanha os projetos da criadora de conteúdo e empresária Lela Brandão.

A trajetória dos seus negócios começou a ganhar forma durante a pandemia da Covid-19. Lela, que já trabalhava com arte e influência digital, percebeu que o incômodo causado pelas roupas femininas não era acaso, mas uma característica recorrente da indústria, que, em sua avaliação, não respeitava o corpo feminino.

“Por que as roupas das mulheres precisam ser desconfortáveis? Elas não te deixam se movimentar ou respirar. Isso começou a aparecer para mim como um padrão, não como exceção. Quando os homens compram roupa, pensam na funcionalidade. As mulheres também deveriam poder fazer isso”, disse.

A marca mantém uma grade de seis tamanhos e produz integralmente no Brasil. Segundo a empresária, esse modelo também está associado à defesa de uma cadeia produtiva local e de condições de produção que considera mais justas, embora reconheça o desafio de competir com os preços praticados pelo fast fashion. “Através do discurso, a gente tenta mostrar por que elas estão pagando aquele preço”, apontou.

O crescimento acelerado do negócio também exigiu adaptações na gestão. Lela afirma que recorreu a consultorias especializadas para estruturar processos e lidar com desafios que não faziam parte de sua experiência.

“Nunca tinha sido chefe de ninguém, nunca tinha feito nada do que tenho hoje. A gente errou muito, mas a chave virou mais rápido quando fui falar com outras mulheres que empreendem.”

Comunidade como estratégia

No varejo físico, a operação prioriza a experiência, com uma flagship em formato de casa na Vila Madalena, em São Paulo, escolhida para reforçar a sensação de acolhimento. A decisão foi tomada após uma experiência que, segundo a empresária, teve menor aderência ao posicionamento da marca em um shopping.

Embora considere a abertura de uma unidade no Rio de Janeiro, ela afirma que a expansão física precisa acontecer de forma gradual e alinhada ao momento do negócio.

Já no e-commerce, a estratégia se apoia na recorrência entre 70% e 80% das clientes. Segundo a empresária, esse retorno frequente acompanha a construção da comunidade formada em torno da marca e dos demais projetos que desenvolve.

“Quando a gente vê muitas pessoas seguindo uma pessoa ou uma marca, elas dificilmente estão trocando algo. Comunidade é o oposto de uma audiência. É um trabalho que exige conversa, conexão e presença”, destacou.

A expansão dessa base também passa por colaborações com diferentes parceiros, incluindo o podcast Não Inviabilize, a italiana Kappa e coleções inspiradas em Frida Kahlo e Tarsila do Amaral.

Gostosas Também Choram

Com mais de 140 episódios, o Gostosas Também Choram se consolidou como um dos principais pontos de contato entre Lela e sua audiência. Gravado no próprio quarto e sem uma estrutura complexa de produção, o programa aposta em conversas mais longas e intimistas.

“O podcast nasceu de uma sensação de desnutrição como influenciadora. Precisava de um espaço para falar devagar e sobre meus interesses reais, sem a pressão de entreter o tempo todo ou a repetição acelerada das redes sociais”, afirma.

O desempenho do podcast acabou abrindo caminho para mais um projeto, seu livro, Vertigem, publicado pela editora Sextante após cerca de dois anos e meio de desenvolvimento.

“Sempre fui uma leitora muito voraz, desde a época dos gibis da Turma da Mônica, mas nunca tinha pensado em escrever um livro. Foi um dos projetos mais desafiadores que já fiz porque exige um tempo e uma profundidade muito diferentes da produção de conteúdo digital”, disse.

Para o futuro, a ambição da empresária é que os valores defendidos em todos seus projetos provoquem uma mudança estrutural, fazendo com que o conforto deixe de ser um nicho e passe a ser um padrão.

“Quero que a marca seja enorme, mas meu objetivo maior é que o conforto se torne inegociável, para que todas as outras marcas também tenham que adotar essa postura”, concluiu.