Humor

Fábio Porchat: “A IA ainda não vive a história”

Comediante conta o segredo por trás do sucesso de seus projetos e reforça como o humor continua sendo humano

i 26 de maio de 2026 - 20h31

Porchat

Fábio Porchat encerrou o primeiro dia do ProXXIma 2026 (Crédito: Máquina da Foto)

Ao longo de 45 minutos, Fábio Porchat fez o que faz de melhor: arrancou boas risadas da plateia do ProXXIma 2026 ao contar um pouco sobre sua trajetória profissional e compartilhar sua visão a respeito do humor no cenário atual.

O ator, comediante, comunicador e contador de histórias contou que o seu programa Que História É Essa, Porchat?, nasceu de uma insistência diante de uma resistência inicial. “Foi um programa que quando vendi ninguém queria muito, ninguém confiava muito”.

Mas, Porchat, confiou na sua ideia de um programa para contar histórias, fez um piloto, a GNT comprou. E o formato se provou um sucesso de audiência, tanto que, posteriormente foi para a TV Globo e Globoplay.

Atualmente, a oitava temporada do programa tem exibição semanal no GNT e no Globoplay. Na TV Globo, a partir de abril deste ano, começou a ser exibida a sexta temporada. O Que História É Essa, Porchat?, inclusive, transcendeu às telas e foi para o teatro, no stand-up Histórias do Porchat, apresentado pelo comediante.

O comediante atribui o sucesso do programa a todo o contexto do ano em que ele foi criado, 2019. “É um programa que não tem polêmica, discussão política”, ressaltou. Além disso, é um formato pensado para toda a família. “Esse é um programa que todo mundo ri da mesma coisa, do mesmo jeito. O programa aproximou as pessoas, aproximou as vidas”.

A boa recepção desse projeto também deve à sua essência: o ato de contar, e ouvir, histórias. “As pessoas adoram ouvir histórias”, afirmou Porchat. E não importa se são histórias de famosos ou anônimos, o importante é que a história seja boa. “ A Cláudia Raia tem uma história boa para contar e a moça que me deu oi no elevador também tem história boa para contar”.

Para Porchat, a arte de contar histórias tem um papel ainda mais relevante diante da era dos algoritmos e da inteligência artificial, justamente por ser uma atividade da essência humana. “Isso a IA não faz. Viver a história, a IA ainda não vive”, alertou. Ele ainda destacou que a IA não consegue construir piada, porque não tem a ironia e o senso de humor, habilidade 100% humanas. “IA não sabe qual é essa sensação do desespero de o banheiro estar longe e o intestino falando que tem que ser agora, se não for agora, acabou”, brincou.

Apesar disso, o comediante não condena o uso da IA, pelo contrário, a usa para fazer revisão de seus textos e até mesmo para ajudá-lo a ter ideias. “Mas a construção de como faço outra pessoa rir ainda é um feeling meu, da minha cabeça”, complementou.

A Porta para uma produtora de conteúdo

Ao longo do papo, Porchat ainda refletiu sobre o Porta dos Fundos, que completa 14 anos em agosto deste ano e que passou por uma série de mudanças durante esse período. A empresa fez parte da Paramount por seis anos, até o ano passado, quando voltou a ser produtora independente. Na ocasião, Antonio Tabet e Ian SBF deixaram a operação.

Atualmente, o Porta conta com mais de 2.500 vídeos. “Realmente viramos uma produtora de conteúdo de todos os formatos, inclusive para as marcas”, destacou o executivo, reforçando que seu sonho é que o Porta se torne destino par ao projeto de comédia de qualquer pessoa que queira produzir um.

Na visão de Porchat, o sucesso do Porta dos Fundos ao longo desses anos se deve a sua forma de fazer humor sem apelar para a agressão e a humilhação. “É por isso que sobrevivemos, porque mesmo a pessoa de quem estamos rindo ri um pouco também da situação”.

Passar a arrebentação

No campo da publicidade, do qual tem bastante experiência tanto no Porta dos Fundos quanto no seu perfil pessoal das redes sociais, Porchat notou que, apesar de o humor ser um dos caminhos mais eficazes para o engajamento, as marcas ainda operam sob um forte medo do cancelamento. “Uma coisa que não mudou de 2012 para 2026 é o medo que as empresas têm de fazer comédia”, alertou.

O ponto para ele, é as marcas precisam vencer a barreira dos hater. “O negócio é não ligar para hater de internet. Esse é o perigo. O perigo é você ficar preocupado com quem comenta. Quem comenta é robô”, pontuou, enfatizando que o Porta dificilmente vai errar a ponto de uma empresa acabar.

No entanto, para ele, o maior obstáculo é o medo individual do profissional de ser demitido, o que acaba tornando as campanhas mais “médias” e menos ousadas. Ele ressalta que vídeos feitos com total liberdade criativa, como os do DNA do Porta, são os que apresentam os melhores resultados.

Criação coletiva e renovação constante

Quando o assunto se vira para a criatividade, Porchat defendeu o modelo de criação coletiva, contrastando-o com a solidão que muitos influenciadores digitais vivem atualmente, no qual tem que atuar como uma empresa inteira. Para ele, passar um roteiro por diversas mãos evita erros grosseiros e enriquece o conteúdo.

“Se você for pensar como era o humor, era a Escolinha do Professor Raimundo, toda aquela gente, tínhamos a TV Pirata, era um grupo, Casseta & Planeta era um grupo. De repente agora você não tem mais grupo, você tem uma pessoa que faz um negócio que é muito legal, mas a pessoa vai minguando um pouco. Quando você tem gente para se apoiar é muito melhor”, completou.

Além disso, o comediante revelou seu critério para encerrar ciclos de sucesso, como sua peça de teatro atual e o talk show na Record. “Eu tenho que saber que estou com febre antes da minha mãe vir falar”, explicou, ressaltando que prefere parar um projeto enquanto ele ainda é bom, evitando a repetição e o desgaste com o público.

Olhando para o futuro, Porchat planeja novos formatos, incluindo um programa de viagem, incursões no rádio brasileiro, assim como tem feito em Portugal, e a escrita de um livro. Ele contou que tem duas ideias boas na cabeça para o livro, mas que ainda não pode revelar. “Tenho que ficar caladinho aqui. Mas tem duas ideias boas que quero tempo para sentar e escrever”.

Por fim, fazendo uma referência ao seu programa, Porchat foi convidado a contar uma história inusitada sua no mundo da publicidade. E ele contou a história da primeira publicidade que gravou na vida, para a Fanta Citrus, que envolveu consumir uma quantidade absurda da bebida quente e sem gás.

Após gravar mais de 30 takes até conseguir o “bom”, ele comentou que passou mal e vomitou verde no set de gravação. “Vomitar verde é diferente, é o exorcista em seu grau máximo”, disse, arrancando gargalhadas dos presentes.