COMPORTAMENTO

Do Vaticano ao Vale do Silício: as mudanças na narrativa da IA

Ronaldo Lemos e Zeca de Mello analisam as transformações e o limites entre o humano e a tecnologia

i 29 de maio de 2026 - 6h08

Na última segunda-feira, 25, durante um evento no Vaticano, o Papa Leão XIV apresentou sua primeira encíclica. As encíclicas são documentos divulgados há séculos pelos líderes da Igreja Católica e pautam temas considerados relevantes. O assunto escolhido pelo pontífice foi a inteligência artificial.

Ronaldo Lemos e Zeca de Mello no ProXXIma 2026 (Crédito: Máquina da Foto)

Ronaldo Lemos e Zeca de Mello no ProXXIma 2026 (Crédito: Máquina da Foto)

No texto, ele questionou o modelo das big techs e defendeu que os governos desacelerem e regulem o desenvolvimento de sistemas de IA. Na análise do professor, palestrante e consultor da Fundação Dom Cabral, Zeca de Mello, o posicionamento público do Papa acontece justamente quando os limites entre o divino e a tecnologia parecem se cruzar.

“A nossa tecnologia parece onipresente, onisciente e onipotente sem, no entanto, ter a compaixão que um Deus pode ter. Nesse sentido, me parece muito oportuna a encíclica do Papa que se chama Magnífica Humanidade. Ou seja, é exaltar aquilo que está em risco”, explica Mello.

No dia a dia, a percepção sobre a inteligência artificial também vem mudando. Aos poucos, ela deixa de ser encarada como um mecanismo de busca e se torna uma IA agêntica, para quem se pode delegar tarefas. Isso, naturalmente, gera uma preocupação sobre os empregos. Cientista-chefe do ITS Rio, Ronaldo Lemos, cita um fenômeno norte-americano.

No mês passado, durante as cerimônias de graduação em grandes universidades dos Estados Unidos, toda vez que o termo “inteligência artificial” era citado, os estudantes respondiam com uma vaia. O episódio aconteceu, inclusive, com Eric Schmidt, ex-CEO do Google.

“Aos poucos, estamos vendo uma mudança, talvez, do entusiasmo para a desconfiança. E o timing da encíclica do Papa Leão XIV não poderia ser melhor, porque ele pega esse momento em que as pessoas estão se perguntando: ‘Poxa, será que a máquina vai me substituir?’”, analisa Lemos.

Homogeneização do conteúdo gerado por IA

Neste ano, pela primeira vez, o tráfego online de robôs superou o de usuários humanos, segundo o relatório da Imperva. O risco, para o cientista-chefe do ITS Rio, é o de uma homogeneização do conteúdo.

“Muita gente está substituindo as buscas pelo resultado já processado da IA. O problema é que estamos entrando em um lugar em que a IA produz boa parte dos conteúdos e a IA começa a ler os mesmos conteúdos. Então, é a IA produzindo e ela mesma consumindo. E, aí, caímos nesse problema da homogeneização de tudo que já começamos a perceber nas redes sociais”, descreve.

Nesse cenário e expostos à mesmice criada pela IA, tanto o consumidor quanto as marcas devem criar um filtro para identificar o que é, de fato, genuíno. Mas, o consultor da Fundação Dom Cabral defende a construção de espaços de diálogo.

“Vivemos, hoje, em um ambiente que privilegiou o embate. A discussão de que você quer destruir o outro, calar o outro. Vejam que o modelo que triunfou nas redes sociais é o modelo ‘prove-me que eu estou errado’. É sempre essa dinâmica belicosa. Como criar espaços de troca genuína?”, questiona Mello.

As marcas e o AI slop

Os analistas encerraram sua participação no ProXXIma com um apelo para as marcas. “Não sejam uma força de disseminação de slop. O slop está tomando conta do mundo. Já temos slop suficiente. Sejam uma força de contenção ao slop”, defendeu Lemos. Slop ou AI slop é o termo usado para definir conteúdo gerado em massa por IA, com baixa qualidade.

E Mello concluiu: “As crises podem ser nossas professoras, porque nos trazem para realidade nua e crua, mas as crianças também podem ser nossas professoras de desaprendizagem, porque estão vendo o mundo pela primeira vez. A criança, quando não sabe alguma coisa, ela pergunta. Ela é cheia de curiosidade. Nós podemos reaprender, de algum modo, com as crianças”.