O mito da performance associada à alta pressão no trabalho
Segundo Rejane Romano, diretora de ESG do Publicis Groupe, nova configuração do trabalho passa pela performance sustentável
O cotidiano da indústria da criatividade é feito de prazos cada vez mais curtos, volumes de trabalho maiores e times reduzidos. Lideranças e colaboradores nunca foram tão cobrados pela entrega e performance. Por outro lado, nunca estivemos tão conscientes sobre a necessidade de cuidar da saúde física e mental.
Rejane Romano, diretora de ESG do Publicis Groupe, apontou para uma dissociação do tão perpetuado conceito de que alta performance exige alta pressão, reforçada por fatores como falta de organização e problemas com briefings, exemplifica.
“A eficiência é o que pode nos resguardar e auxiliar para que essa panela de pressão, que imprime um ritmo e custa tão caro, possa não afetar nossas vidas, sobretudo a longo prazo”, disse.

Rejane Romano, diretora de ESG do Publicis Groupe (Crédito: Eduardo Lopes/Máquina da Foto)
Os problemas em torno do impacto do trabalho sobre a saúde mental fez com que a temática, consequentemente, tenha se tornado um tema de gestão. Nesta terça-feira, 26, a NR-1, que faz com que as empresas passem a monitorar e desenvolver programas para reduzir diminuir riscos psicossociais entre os colaboradores, entrou em vigor oficialmente no Brasil. Desde maio do ano passado, as organizações vinham preparando-se para a atualização da normativa, ainda em caráter adaptativo.
A diretora de ESG atentou para o fato de que a diretriz propõe uma atuação preventiva sobre o problema, por meio da criação de protocolos e adoção de medidas para o cuidado da saúde ocupacional, de acordo com a natureza de cada indústria, empresa e área.
“Por vezes, na nossa cultura, é necessário que se crie e tenha algo que impulsione e obrigue, de fato, que ações e medidas sejam adotadas para incentivar o olhar para certos fatores”, declarou. A partir do pontapé inicial, detalhou, a normativa dá margem, ainda, para a mensuração, acompanhamento e otimização das ações.
Rejane também alertou que, mais do que um olhar sobre o indivíduo, é preciso analisar a jornada coletiva, considerando que as pessoas sofrem pressões de maneiras diferentes. “É importante alertar que, em certa medida e certo momento, também será necessário olhar para as pessoas diversas, seja por grupos de afinidade ou a partir da estrutura”, pontuou. Neste sentido, a executiva reforçou a necessidade da reflexão sobre atravessamentos, preconceitos e marcadores de diversidade.
Uma nova lógica de trabalho
Foi a geração Z a responsável pela reflexão sobre jornadas extenuantes, normalização do cansaço e a lógica do heroísmo. O choque dos modelos de trabalho, por sua vez, acontece graças aos ambiente multigeracionais das companhias, incentivando a revisão de práticas que não mais se encaixam nos moldes da sociedade atual.
“Essa forma de trabalho não se justifica. Não é isso o que se espera de uma relação de trabalho”, apontou Rejane. “É muitas vezes do desconforto que surgem novos modelos. Esse choque vem fazendo com que muitas empresas e lideranças venham evoluindo em um modelo de performance mais sustentável”.
A performance sustentável é o que pode garantir a longevidade dos negócios a partir de colaboradores e organizações fortes. O conceito é sustentado em três pilares: organização do trabalho; cultura, algo que não se transforma rapidamente e que demanda envolvimento coletivo e mudança de mentalidade; e lideranças dispostas a reaprender processos.
Isso inclui a coragem para ter conversas conversas difíceis e o envolvimento de todo o ecossistema para que os pactos conjuntos entre toda a indústria sejam cumpridos. “Liderar nos novos tempos para uma performance sustentável é uma mudança de mindset. Nessa nova liderança, inclusive, será necessário entender sobre jornada de trabalho”, detalhou.