O “Think Different” que levou à criação da Apple TV
Focar em pessoas e apostar nas boas histórias foi o que fez streaming dar certo, contou Eddy Cue, Entertainment Person of the Year

Eddy Cue, vice-presidente sênior de serviços da Apple: criar Apple TV foi uma ideia de louco, pois ele e o time não tinham o menor conhecimento sobre a área (Crédito: Celina Filgueiras)
A ode aos loucos, rebeldes e encrenqueiros no texto de “Think Different”, uma das campanhas mais emblemáticas da Apple e, por que não, da história da publicidade, foi resgatada por Eddy Cue, vice-presidente sênior de serviços da companhia, ao falar dos primórdios da Apple TV.
Ter inventado de criar o serviço de streaming foi uma ideia de louco, relembrou o executivo, porque ele e seu time não tinham nenhum conhecimento a respeito do negócio. “Na época, certamente haviam muitas outras companhias fazendo o mesmo”. A crença que levou o projeto adiante foi a de que a maioria dos players estavam focando em quantidade, não qualidade.
“Sempre tentamos ser os melhores, não os maiores. Então quisemos construir televisão, filmes, um lugar onde os melhores storytellers, leitores, escritores e diretores quisessem trabalhar conosco para fazerem seus melhores trabalhos. E que pudéssemos criar um lugar para que eles pudessem fazer isso e se sentirem especiais”, compartilhou. Para ele, o segredo do sucesso da companhia como um todo se resume às pessoas que lá trabalham.
Estão sob a gestão de Cue, eleito Entertainment Person of the Year desta edição do Cannes Lions, não apenas a Apple TV, mas as divisões de música, filmes, estúdios e health. Nesses seis anos e meio, o serviço colecionou alguns hits, como Ted Lasso, Morning Show, Pluribus e Ruptura.
Ao longo da conversa que teve com Jerry Bruckheimer, produtor de TV e filmes, que revelou que F1, longa que produziu para a Apple, terá uma sequência, Cue frisou a importância das pessoas para qualquer projeto profissional. Ele levou dois anos para encontrar as pessoas certas para fazer a Apple TV acontecer da forma que vislumbrou: um streaming associado à qualidade das produções.
Sempre a história
Cue uma vez questionou Steve Jobs, à época CEO da Apple e da Pixar, sobre por que o estúdio de animação podia sempre criar um hit depois do outro, algo que ninguém mais replicava. Jobs respondeu que sempre se trata da história: sem uma, não existe uma boa série.
“Quando eu e Jerry nos encontramos pela primeira vez e ouvi a história da F1 pensei que tínhamos uma história incrível para ser contada”, disse Cue. O filme estrelado por Brad Pitt é, para ele, um exemplo sobre como a Apple consegue unir tecnologia ao storytelling, porque câmeras da marca foram instaladas dentro dos carros de corrida. E o software desenvolvido para isso acabou se tornando a versão mais recente do iOS.
“Quando você assiste a F1, está vendo tecnologia da Apple, o que torna o filme ainda mais empolgante porque esse tipo de inovação não poderia ter ocorrido em nenhum outro lugar. Há uma história em cada corrida”, comentou.
Existe, ainda, um segundo projeto no qual Cue e Bruckheimer estão trabalhando, numa toada meio Todos os Homens do Presidente, mas inspirada em todas as informações que o governo norte-americano tem escondido sobre UAPs (unindentified anomalous phenomena).
Apostar nas ideias
Cue afirma que ele se obriga a ter fé nas ideias dos times criativos, mesmo quando as considera arriscadas. Foi o caso de Ruptura, em que o pitch foi: “são pessoas que são uma coisa quando vão para o trabalho, mas são totalmente outras quando saem de lá”. E o de Ted Lasso, uma série sobre futebol que se passa no Reino Unido. Cue relembrou sua primeira reação à ideia: “As pessoas na Europa são muito fãs de futebol, mas nos EUA não sabemos muito sobre o tema. Além disso, seria uma comédia, que nem sempre viaja bem”. Hoje, ele anseia pela próxima temporada da produção, que focará no futebol feminino.
Mas o executivo reconhece que também precisa que acreditem nele. Graças ao voto de confiança de Reese Witherspoon e Jeff Brant a série Morning Show saiu do papel. “Tivemos que convencê-los. Percebi que alguém sempre ofereceria mais dinheiro, mas pedi uma reunião com ambos e perguntei se fariam um dos melhores shows na TV. ‘E o motivo que vocês tem que fazer isso conosco é porque não temos nenhuma outra série’”.
Hoje, com mais robustez no catálogo de séries e filmes, Cue deseja agradar tanto aos fãs de sci-fi e comédia quanto os aficionados por esportes. “Eu era um cara da ciência da computação e, estar aqui e ter feito o que fiz nessa área é algo que nunca imaginei”, celebrou Cue sobre o fato de ter recebido o reconhecimento de Entertainment Person of the Year.