COMPORTAMENTO

O futuro da criação de conteúdo e a ameaça sintética

Paulo Aguiar, criador e cofundador do CR_IA, analisa o impacto da IA no pensamento criativo

i 27 de maio de 2026 - 6h10

A evolução acelerada da inteligência artificial trouxe uma dose extra de incerteza sobre o futuro de uma série de setores e comportamentos. A criação de conteúdo não ficou de fora. À medida que um volume cada vez maior de conteúdo sintético invade as redes, é possível se perguntar qual o real impacto da inteligência artificial na forma como criamos e consumimos conteúdo?

Paulo Aguiar, no ProXXIma 2026 (Crédito: Máquina da Foto)

Paulo Aguiar, no ProXXIma 2026 (Crédito: Máquina da Foto)

Para Paulo Aguiar, criador e cofundador do CR_IA, todo profissional de alta performance vai se tornar um especialista em inteligência artificial em algum momento. Ele defende, inclusive, que o termo “especialista em IA” deixará de fazer sentido uma vez que essa habilidade se popularizará.

Mas, para que isso aconteça, será preciso reaprender a criar. Hoje, parte da dificuldade em entender e aplicar IA no dia a dia estaria na ideia de que é preciso se atualizar, quando, na verdade, esse processo depende de uma nova forma de pensar. “É tão literal que você não precisa aprender uma ferramenta, mas como utilizar o vocabulário como ferramenta”, explica Aguiar.

No ano passado, um relatório do Fórum Econômico Mundial projetou que 44% das competências exigidas no trabalho devem mudar até 2027. O cofundador do CR_IA defende um binômio de repensar o processo e as práticas criativas, enquanto testa as melhores ferramentas.

“Para transformar uma ideia em realidade, é preciso passar por vários obstáculos. As ferramentas, muitas vezes, são obstáculos. O que a IA consegue, hoje, é diminuir muito esses obstáculos”, descreve.

Como copiloto, a tecnologia consegue tanto acelerar o processo de criação quanto permitir que o criador materialize o que antes era impossível ou muito caro.

A internet está morta

O cenário, no entanto, também traz alertas. “Não tem como falar do futuro do conteúdo sem questionar se a internet não está morta”, provoca Aguiar. A ideia de uma internet morta parte da ideia de que a internet como conhecemos, com interações orgânicas, estaria prestes a acabar. Isso porque ela seria substituída por interações artificiais, geradas por bots.

O relatório Bad Bot Report 2026, da Imperva, apontou que 53% do tráfego da internet já é conduzido por robôs. Esse fenômeno tem desdobramentos, por exemplo, na política.

Na última semana, um levantamento do Observatório das Eleições concluiu que 61% dos perfis criados artificialmente nas redes sociais para comentar política não têm qualquer indicação de que sejam sintéticos.

“Os robôs já dominam o tráfego. Não tem volta. Mas, daqui a pouco, eles vão dominar a criação”, alerta o cofundador do CR_IA. Hoje, 25% dos conteúdos no topo das buscas do TikTok foram gerados artificialmente, segundo dados da AI Forensics. Já o monge Yang Mung, um influenciador virtual 100% fictício, faturou mais de US$ 500 mil em seis meses vendendo e-books.

“De onde esses views estão vindo? De quem está deixando de consumir conteúdo de marcas, de criadores, porque não dá para passar mais tempo nas redes”, pondera Aguiar.