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JONO e a capacidade de rever ideias

Andrea Dietrich, CEO da Altheia, fala sobre o conceito de Joy of Knowing Nothing e seus impactos

i 27 de maio de 2026 - 15h24

Andrea Dietrich tem mais de 20 anos de experiência em negócios nos quais liderou processos de transformação digital, rebranding e mudança cultural em organizações como GPA, Netshoes e BRF.

Além de CEO e fundadora da Altheia, é professora na Fundação Dom Cabral e na HSM, coautora dos livros Mulheres do Varejo e Ensemble, investidora em startups de tecnologia e cofundadora dos podcasts Ambidestra e Digital Backstage.

“Revi meus conceitos como mãe, profissional, empreendi dentro das organizações. Percebi que era maior do que o meu crachá. Somos o que fazemos, não preciso ser uma coisa só”, afirma, ao avaliar sua evolução pessoal e profissional.

Ao pensar nas múltiplas perspectivas, pessoais e as da humanidade, Andrea estabeleceu o conceito JONO, ou Joy of Knowing Nothing, o prazer de não saber.

Dessa forma, no artigo sobre isso, escreveu: “Durante muito tempo, a capacidade de mudar de perspectiva foi vista — inclusive por mim — como fragilidade. Em ambientes que premiam convicções firmes e posições bem demarcadas, rever ideias costuma ser confundido com falta de consistência. Hoje, enxergo diferente. Talvez essa seja uma das competências mais subestimadas do nosso tempo. Ao longo do último ano, transitando por estudos diversos — da filosofia à neurociência, passando por espiritualidade e comportamento humano — para mim ficou evidente: quanto mais se amplia o repertório, mais frágeis se tornam certas certezas.”

Somos os mais evoluídos?

Ao ampliar o território, como disse, Andrea tem mais questionamentos como: “Somos os seres mais evoluídos?” A executiva recorda que, ainda hoje, existem questionamentos sobre tecnologias ancestrais que ninguém consegue explicar, como a arquitetura inca, a construção das pirâmides do Egito ou os princípios da agricultura regenerativa. Ou “somos seres lineares?”, questiona. O progresso, afirma, foi passado como a concepção de um passo acima do outro, como crescer na carreira, nas organizações, sempre pra cima, expandindo. Se fizermos analogia com a natureza, nada é linear. A semente de uma árvore cresce para cima e para baixo, com as raízes. É um crescimento para o interior e o exterior”, compara.

Para ela, o ciclo vital não é somente processo de evolução ou expansão, mas também de involução e introspecção. “Nunca tivemos acesso a tantas interpretações possíveis sobre a realidade. Nunca circulou tanto conhecimento. E, paradoxalmente, nunca estivemos tão dispostos a defender apenas uma única narrativa”, afirma.

Assim, a questão é se evoluímos e involuímos na mesma proporção, aponta.

Por séculos, tivemos a concepção de que a capacidade cognitiva era uma superioridade do ser humano ante qualquer outro ser, diz Andrea.

Portanto, as hierarquias profissionais eram baseadas no fato de que somos inteligentes.

Agora, contudo, somos ameaçados porque a capacidade cognitiva não é apenas humana porque, segundo o autor Ray Kurzweil, até 2029 a inteligência artificial ultrapassará todas as inteligências humanas.

Isso provoca uma crise de identidade, afirma Andrea: “Quem somos nós já que a base estrutural não vale mais?” E responde: “A crise pode trazer oportunidade de expandir ou, ao contrário, para comportamentos de fuga, de dependência social, isolamento, ou seja, tentativas de silenciar a angústia e aliviar a tensão psíquica.”

Terceirização das emoções

A executiva, portanto, cita a futuróloga Amy Webb, que fala em terceirização das emoções: parte dessa função cognitiva migra para os sistemas digitais onde um dos maiores líderes religiosos é uma IA ou o terapeuta é uma IA. “Nosso cérebro é programado para resistir às mudanças. Prefere as informações que valorizam, reconhecem e protegem nossas crenças, dá aconchego do apego e do pertencimento. Gostamos de comunidades, não queremos o confronto”, diz Andrea.

Por isso mesmo, os grandes modelos de linguagem (LLM) têm sido usados nas organizações para mediar conflitos.

Ou seja, é a terceirização das comunicações pela qual um e-mail é avaliado por LLM para avaliar se o tom é o correto. “No fim, vemos o mundo com base no que acreditamos que o mundo seja.” Em seu artigo sobre o JONO, Andrea disse: “Quando abrimos mão da necessidade de estar certos o tempo todo, essas fronteiras começam a perder rigidez.”

O JONO, de fato, para ela, é o oposto de passividade, é a disposição de sustentar perguntas, adiar conclusões, reconhecer que a realidade é maior do que qualquer explicação individual.

Dessa forma, é preciso aprender a criar atritos produtivos. O líder tem que passar da era industrial (acumulador de informações) para a era da complexidade (conector de pontos).

“É a neuroplasticidade organizacional que consiste em abandonar e desconstruir e criar redes neurais que aprendem e desaprendem regularmente. “No mundo complexo, mente aberta é sinal de maturidade, de evolução”, diz.