Jarbas Agnelli: do exercício de criatividade ao Leão de Ouro
Veterano em Cannes, diretor comemora prêmio em Audio & Radio, 26 anos após seu primeiro troféu em Cannes, pelo memorável “A Semana”

O diretor de cena e compositor Jarbas Agnelli com o Leão de Ouro conquistado no Cannes Lions 2026
O diretor de cena Jarbas Agnelli está de volta ao palco do Cannes Lions. Na segunda-feira, ele recebeu 1 Leão de Ouro por “Sinfonia da Energia”, da Africa Creative para a Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee). A conquista acontece 26 anos após o seu filme “A Semana”, da W/Brasil para a revista Época, da Editora Globo, ter entusiasmado o júri de Film, que lhe concedeu 1 Leão de Ouro e colocou a peça brasileira na disputa pelo Grand Prix daquele ano, vencida por “Whassup?!”, da DDB Chicago para Budweiser – um dos maiores sucessos da história do festival.
O prêmio em Cannes no ano 2000 mudou a carreira de Agnelli. Então diretor de arte da W/Brasil, ele dirigiu o filme e fez a trilha de “A Semana”, com um estilo autoral que também está presente em “Sinfonia da Energia”. Há 26 anos, a repercussão do Leão de Ouro e de outros prêmios importantes conquistados com o comercial da revista Época, como Grand Clio de Film, em 2001, ele decidiu trocar a carreira em agências e fundar a produtora AD Studio. Desde o ano passado, integra o casting da Hungryman.

Jarbas Agnelli, Aaron Sutton e Juliana Leite (VP de projetos especiais e conteúdo criativo na Africa Creative) recebem o Leão de Ouro por “Sinfonia da Energia” (Crédito: Celina Filgueiras)
“Sinfonia da Energia” nasceu da observação de uma imagem do fotografo Paulo Pinto, publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo, em 2009, que mostrava pássaros pousados em fios de eletricidade. Agnelli enxergou ali uma pauta musical, que o levou a compor “Birds on the Wires”, cujo vídeo viralizou. Quinze anos depois, o diretor de criação Aaron Sutton, da Africa Creative, o convidou para transformar a música em sinfonia, usando imagens de pássaros em fios elétricos coletadas de fotógrafos de todo o Brasil e de banco de imagens, em ação da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee).
Paralelamente, se dedica a projetos pessoais, como o que deu origem a “Sinfonia da Energia” e a outras empreitadas audiovisuais, como a composição da trilha do longa-metragem de ficção científica brasileiro “Biônicos”, para a Netflix – sua primeira para cinema. Nesta entrevista, Jarbas Agnelli relembra a emoção do primeiro Leão em Cannes, fala sobre seu processo criativo não artificial e descreve o prazer de conquistas que misturam arte e publicidade.
Meio & Mensagem – O que há de diferente nas emoções de receber os Leões de Ouro por “A Semana”, em Film, no ano 2000, e, agora, em Audio, por “Sinfonia da Energia”?
Jarbas Agnelli – “A Semana” foi meu primeiro Leão em Cannes. Havia uma aura de novidade no ar. Foi muito emocionante subir naquele palco ao lado de meu patrão e amigo Washinton Olivetto. E o filme continuou ganhando prêmios pelo mundo, como o Grand Prix no Clio, no ano seguinte. O prêmio de agora traz algo muito especial: ver uma brincadeira que fiz há 17 anos reencarnar em uma peça que ganhou um Leão de Ouro. Não é só um filme, ou uma música. Sou eu naquela peça, minha cara, minha história. É uma emoção enorme. Me sinto muito honrado com essa premiação e feliz de poder misturar minha arte com algo que amo fazer, publicidade.
M&M – Quais as principais diferenças do mercado e do festival do primeiro Leão para o deste ano?
Agnelli – São cenários bastante distintos. “A Semana” foi feito em 2000. Veiculado no intervalo do Fantástico, que era a janela mais cara, importante e eficiente da mídia. Um filme de três minutos, veiculado em três domingos consecutivos, dobrou o número de assinaturas da revista Época. A TV reinava e a internet estava na sua infância. Tudo era infinitamente mais simples. A pluralidade de meios e linguagens, hoje, tornou a equação extremamente complexa. O Festival de Cannes acompanhou essa complexidade, na quantidade de categorias e até na maneira de julgar as peças.
M&M – “A Semana” e “Sinfonia da Energia” são dois projetos bastante autorais. Como você encara esse fazer autoral e até meio artesanal, por mais que também se use a tecnologia, em um momento em que um dos principais debates do festival é sobre a inteligência artificial?
Agnelli – Esses projetos talvez possam ser definidos como autorais, pelos meus métodos craft de trabalhar, misturando direção de arte, produção de vídeo e de música, tudo ao mesmo tempo. Mas não deixam de ser publicidade. Com metas claras, propriedade, pertinência, eficiência, objetivos alcançados. Esse ano o festival realmente se preocupou muito com o uso de inteligência artificial. Talvez isso tenha também ajudado a peça, já que “Sinfonia da Energia” é tudo, menos artificial. Fotos de natureza, transformadas em pautas musicais, tocadas por humanos em uma orquestra.
M&M – Como esse projeto surgiu e como foi a adesão de Abradee e Africa Creative?
Agnelli – “Sinfonia da Energia” nasceu de um vídeo que fiz em 2009, musicando uma foto de pássaros que achei no jornal. Uma brincadeira, descompromissada. Um exercício de criatividade e comunicação, como muitos que sempre gostei de fazer. Só que essa brincadeira, Birds on the Wires, explodiu na internet. Dei palestras no TED, ganhei prêmios, toquei dentro do Guggenheim. Foi uma peça que continuou comigo por esses anos todos. Até que o Aaron Sutton e a turma da Africa me jogaram esse desafio: usar o mesmo conceito, mas estendê-lo a uma sinfonia. Uma peça para a Associação dos Distribuidores de Energia Eletrica do Brasil. Eu adorei a proposta. E o projeto funcionou lindamente. De uma maneira bastante pertinente, colocou um pouco de sensibilidade e poesia no negócio da distribuição de energia. A peça foi tocada inúmeras vezes, com várias orquestras em eventos da Abradee, na COP30 e até no exterior.
M&M – Como estão seus projetos pessoais desde o ano passado, quando você entrou para o casting da Hungryman?
Agnelli – A Birds on the Wires é meu pequeno laboratório de experimentações. Tenho feito trilhas sonoras por lá, como para “Biônicos”, da Netflix, dirigi a série “JK, O Reinventor do Brasil” para a TV Cultura, abri o selo musical Birds Music, onde solto minhas músicas no streaming. No final do ano passado, o Alex Mehedff me convidou para ingressar no time da Hungryman. Eu que sempre fui um grande admirador da produtora achei uma honra. Espero fazer grandes trabalhos agora tendo essa locomotiva na minha frente.
M&M – Além desses Leões, que outros momentos em Cannes foram relevantes para a sua carreira?
Agnelli – Sem dúvida, esses foram dois momentos muito marcantes de minha carreira. “A Semana”, por ser um divisor de águas, o filme que me fez mudar de direção de arte para a direção de cena, e abrir minha própria produtora, AD Studio. E agora, a “Sinfonia da Energia”, que tem uma trajetória muito especial, por se misturar com a minha própria história de vida. Mas gosto muito também de outros momentos marcantes de Cannes, como a campanha para a Fnac (Leão de Prata em 2001), que tem uma simplicidade no uso da música. E do filme “Azarado”, para Kleenex, um bem humorado uso de motion design (Leão de Ouro em 2005).
Veja os vídeos dos projetos de Jarbas Agnelli
“Sinfonia da Energia”, da Africa Creative para Abradee (Leão de Ouro em Audio & Radio, em 2026)
“Birds on the Wires”
“A Semana”, da W/Brasil e AD Studio para a revista Época, da Editora Globo (Leão de Ouro em Film, em 2000, e Grand Clio de Film, em 2001)