Tecnologia e audiovisual

Google e A24 exploram o futuro da criação com IA

Demis Hassabis, CEO da Google DeepMind, defende que tecnologia será parte do arsenal criativo, assim como o CGI

i 24 de junho de 2026 - 14h58

Enquanto parte da indústria debate os riscos da inteligência artificial para a criação, o Google aposta na aproximação da tecnologia dos criadores. Em parceria com a A24, estúdio de cinema independente responsável por produções premiadas, como Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, a companhia vem explorando como a IA pode ampliar possibilidades narrativas sem retirar o controle das mãos de cineastas e artistas.

Demis Hassabis, cofundador e CEO da Google DeepMind, e Scott Belsky, sócio da A24 - Cannes Lions

Demis Hassabis, cofundador e CEO da Google DeepMind, e Scott Belsky, sócio da A24, projetaram o futuro da IA no cinema (Crédito: Divulgação/Cannes Lions)

O tema foi abordado na estreia de Demis Hassabis, cofundador e CEO da Google DeepMind, unidade do Google especializada em IA, no palco do Cannes Lions, nesta quarta-feira, 24. A participação ocorreu um dia após a big tech conquistar o Grand Prix de Digital Craft com case de apresentação do Project Genie, desenvolvido por time interno. Entre os mais avançados da empresa, o projeto usa IA para criar e explorar ambientes virtuais 3D interativos e jogáveis em tempo real a partir de comandos de texto, esboços ou imagens.

Embora pareça uma ferramenta de criação de jogos, o grande objetivo da iniciativa é servir como uma espécie de simulador universal para treinar agentes de IA e robôs a entenderem as leis físicas e a navegarem no mundo real. Para o executivo, a IA vive um momento de “progresso implacável”, mas ainda distante da chamada inteligência artificial geral (AGI), conceito que se refere à inteligência hipotética de uma máquina, com capacidade equivalente à de um humano para entender ou aprender qualquer tarefa intelectual.

Hassabis aponta que os próximos saltos da tecnologia dependerão menos da capacidade de remixar referências existentes e mais do desenvolvimento de sistemas capazes de raciocinar, planejar no longo prazo e produzir ideias verdadeiramente originais. Essa evolução, segundo ele, também deve ajudar a iluminar o que ainda diferencia a mente humana das máquinas.

Parte dessa visão de futuro passa pelo cinema, uma das áreas em que o Google deposita altas expectativas. A lógica, conforme o executivo, não é simplesmente oferecer ferramentas prontas, mas trabalhar junto para identificar quais desafios são relevantes, quais já podem ser resolvidos pela tecnologia e quais exigem desenvolvimento em conjunto.

Scott Belsky, sócio da A24, explica o trabalho conjunto: “O estúdio foca em seus talentos e cineastas. Alguns deles têm curiosidade em contar histórias de formas novas, enquanto outros preferem não usar a tecnologia por acharem que perdem o controle e a precisão. Nossa parceria de pesquisa busca aprofundar essas curiosidades”.

Impacto na criatividade

A discussão passa pelo papel que a IA deve ocupar dentro do processo criativo. O CEO da Google DeepMind evita a ideia de que ela esteja prestes a criar ideias de forma autônoma, sem participação humana. A tecnologia deve se tornar parte do conjunto de ferramentas padrão de criadores, em um movimento comparável ao impacto do CGI, mas isso ainda depende de pesquisa, experimentação e colaboração entre criadores e tecnólogos.

“Nos próximos anos, haverá uma combinação. Teremos modelos especializados em voz ou vídeo, mas eles convergirão para modelos maiores que possuem compreensão do mundo, o que permitirá edições contextuais como ‘mova esse objeto para atrás daquele’”, comenta Hassabis.

Belsky segue raciocínio semelhante ao apontar que a IA pode abrir espaço para novas formas de narrativa, inclusive para pequenas produções e criadores que antes não tinham acesso a determinados recursos. A possibilidade de testar ideias com mais rapidez, diz ele, pode estimular mais risco criativo.

O desafio, porém, está no controle. Enquanto alguns usos publicitários podem trocar precisão por velocidade, artistas e cineastas tendem a exigir fluxos de trabalho que preservem intenção, autoria e refinamento. “Novos fluxos de trabalho surgirão para preservar esse nível de controle”, considera o sócio da A24.

Questionado sobre a possibilidade de a IA originar novos movimentos artísticos, Belsky ressalta que as histórias que mais ressoam ainda partem de humanos. No entanto, a tecnologia amplia o que chama de “área de superfície” da criação ao permitir que melhores caminhos sejam encontrados com mais velocidade.

Sobre a proteção dos postos de trabalho, ambos defendem que os empregos mudarão e novas possibilidades vão surgir. “Acredito muito na engenhosidade humana. Somos uma espécie incrivelmente adaptável e a próxima geração saberá usar essas tecnologias para expressar ainda mais humanidade”, arremata Hassabis.