Tecnologia

Por dentro do case “Fair Play”, premiado em Cannes

Plataforma, criada pela Ogilvy Health, usa IA para analisar postagens racistas e apoiar denúncias

i 6 de julho de 2026 - 6h05

Reduzir a distância entre vítimas de racismo online e o sistema de Justiça. Essa foi a ideia – e o desafio – por trás de “Fair Play”, plataforma de inteligência artificial desenvolvida pela Ogilvy Health Nova York, em parceria com o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), que transformou uma discussão recorrente nas redes sociais e no esporte em ferramenta prática de denúncia.

Contra o racismo, "Fair Play", da Ogilvy Heath Nova York para o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, ganhou 2 Loões em Cannes

“Fair Play”, da Ogilvy Heath Nova York para o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, foi premiado em Cannes (Crédito: Reprodução)

O projeto conquistou 2 Leões no Cannes Lions, sendo uma Prata em Health & Wellness e um Bronze em Entertainment for Sport, embora a premiação não tenha sido contabilizada no resultado brasileiro do festival. O case de inscrição foi produzido pela Bumblebeat, Lado e Studio Mol, de São Paulo, além da Famous Wo Los Angeles. A pós-produção foi da paulistana Big Studio.

A ideia nasceu na agência, a partir de uma investigação sobre os impactos do racismo digital na saúde mental, especialmente em ataques contra jogadores brasileiros, explica Renata Maia, CCO da Ogilvy Health. Em vez de uma campanha tradicional de conscientização, a criação optou por uma solução capaz de analisar conteúdos discriminatórios, orientar o cidadão e encaminhar possíveis casos às autoridades.

Lançada em abril, a tecnologia foi construída pela Widelabs, empresa gaúcha de desenvolvimento de infraestrutura de IA, e treinada com legislação penal, normas sobre discurso de ódio e referências éticas de diferentes países. O MPDFT ajudou a construir as bases jurídicas do projeto.

“Todo esse processo contou com a revisão de profissionais de direito, para que a ferramenta fosse capaz de analisar até contextos mais complexos, como sarcasmo, linguagem codificada e expressões culturais, gerando uma análise jurídica preliminar que auxilia no encaminhamento das denúncias”, explica Renata.

Nelson Leoni, CEO da Widelabs, acrescenta que, ao detectar um conteúdo potencialmente criminoso, o sistema solicita formalmente às autoridades competentes que intervenham junto à plataforma de mídia social para revisão ou remoção do post e registra uma denúncia, a partir da criação de um relatório.

“Depois que a denúncia é registrada, o assistente encaminha automaticamente o caso ao Ministério Público, que pode redistribuir conforme as regras de competência jurídica”, complementa Leoni.

Os resultados, conforme a CCO da Ogilvy Health, refletem a demanda existente ao redor do assunto. Somente no primeiro mês de operação, a página oficial do projeto contou com mais de 263,5 mil pesquisas sobre infrações penais e legislação antirracista. Além disso, 64% do tráfego foi de mecanismos de busca, o que comprova o interesse espontâneo por soluções que facilitem o acesso à Justiça sem burocracia.

“Acredito que esse é apenas o começo. O Fair Play foi concebido como uma plataforma que pode evoluir continuamente, incorporando novas funcionalidades, tecnologias e até novas formas de combater crimes de ódio no ambiente digital”, ressalta a executiva.