Tecnologia

IA modifica a produção audiovisual e eleva o valor do craft

Executivos de produtoras defendem que repertório, autoria e craft ganham valor à medida que a IA se populariza

i 13 de julho de 2026 - 6h05

À medida que a inteligência artificial avança sobre a produção audiovisual, tarefas antes complexas passam a ser executadas com mais rapidez e por um número maior de empresas. A questão, nesse contexto, deixa de ser apenas incorporar novas ferramentas e passa a discutir o que torna uma produtora realmente diferente quando a tecnologia está ao alcance de todos.

Spritz.AI dirigiu “Queridinha da Vovó”, campanha criada pela David para Heinz, com direção de Bio Machine - IA

Spritz.AI produziu “Queridinha da Vovó”, campanha criada pela David para Heinz (Crédito: Reprodução)

Para Krysse Mello, sócia e produtora executiva da Barry Company, a IA e a produção virtual alteram a operação de forma concreta, porque encurtam caminho entre ideia e imagem, permitem mais versões e democratizam ambição. “Uma marca de budget médio hoje consegue sonhar grande”, diz.

Em outubro de 2024, Krysse e os diretores de cena Vinicius Terranova (da dupla Kill the Buddha) e René Sampaio, também da Barry, fundaram a Spritz.AI, estúdio criativo de produção com inteligência artificial e filmes híbridos. A estrutura, segundo a executiva, ajuda a exemplificar a complementaridade necessária para atender às demandas dos clientes, cada vez mais complexas.

“O maior diferencial humano é o que a máquina não tem: repertório, ponto de vista e critério. A IA entrega mil resultados. Saber pedir, saber qual presta, segurar dois frames a mais em uma piada, escolher o take que emociona, tudo isso é craft, é autoria e é humano. E o consumidor sente”, defende.

Nesse sentido, a régua não é “inteligência artificial para gastar menos”, e sim “IA a serviço do craft”, com transparência, ressalta, ao reforçar que tecnologia é ferramenta, como são o stop motion, o CGI ou o drone. “Quem dá alma é o diretor; o que dá qualidade é o processo coordenado”. Entre os cases recentes, a Spritz.AI dirigiu “Queridinha da Vovó”, campanha criada pela David para Heinz, com direção de Bio Machine.

Além do impacto na publicidade, Francesco Civita, sócio e CEO da Pródigo e da Iconoclast, acredita que a IA tende a aumentar as garantias para os anunciantes, inclusive em janelas comerciais do entretenimento. O product placement, por exemplo, é um formato que costuma ter dificuldades por conta do tempo de produção. “Com a tecnologia, podemos trocar uma embalagem ou marca na pós-produção, o que traz segurança”, ressalta.

O executivo acrescenta que existe outro salto no horizonte, como no caso da dublagem por meio de inteligência artificial. Independentemente dos debates do segmento de dubladores, a promessa é de que filmes brasileiros, por exemplo, sejam vistos com as vozes originais dos atores, em qualquer idioma.

O que a IA não substitui

Conforme a diretora de operações da Surreal Hotel Arts, Cris Chacon, o segredo está, de fato, na capacidade de conduzir a ferramenta com intenção. “É como uma grande orquestra. A tecnologia amplia as possibilidades, mas ainda é necessário um maestro para definir o caminho, interpretar o contexto e transformar possibilidades em algo relevante”, compara.

Krysse segue em direção semelhante e projeta um cenário radical ao dizer que, com “a produção acessível e abundante por conta da IA”, o valor deve migrar da execução para “gosto, autoria e confiança”. A produtora, então, deixa de vender só o filme “como peça avulsa” e amplia para universos, personagens, propriedade intelectual e curadoria de gosto, aptos para desdobramentos em muitos formatos.

O mercado, conforme a produtora executiva, vai se partir em dois. De um lado, haverá um oceano de conteúdo sintético e sem alma e, do outro, um punhado de casas que valem justamente pelo que o resto não tem. O meio deixa de existir, e é aí que o Brasil pode encontrar uma vantagem em escala global.

“Quanto mais o mundo fica pasteurizado e genérico, mais valem a especificidade cultural e o calor humano, que é o que o Brasil tem de sobra. Em um futuro em que qualquer um faz tudo, ganhará quem tem algo a dizer e quem ajuda os outros a dizerem melhor. Relevância, então, não será sobre tamanho, será sobre significado. E significado, ainda bem, é a coisa mais brasileira que existe”, finaliza.