Academias-clube: como o setor busca a rotina do consumidor
Novos formatos de fitness focam em bem-estar, comunidade e serviços para além do exercício físico

O avanço das academias-clube no mercado fitness (Créditos: Divulgação/Caio Faz)
As academias deixaram de ser apenas espaços para a prática de exercícios físicos e passaram a disputar uma fatia maior da rotina dos consumidores. Em um mercado historicamente marcado por modelos de grande escala, cresce a oferta de operações que combinam treino, cuidados com a saúde, bem-estar, conveniência, convivência e serviços de hospitalidade.
É nesse movimento que avançam as chamadas academias-clube, conceito que assume formatos diferentes conforme a marca. Enquanto algumas ampliam a experiência com recovery, alimentação, coworking e serviços de hospitalidade, outras apostam em controle de lotação, acompanhamento próximo e construção de comunidade como forma de aumentar a frequência e a permanência dos alunos.
Six Wowness Club, Les Cinq Gym, Silva Gym e Aura Gym representam diferentes caminhos dentro dessa transformação. Apesar das propostas distintas, as quatro partem de uma percepção semelhante: para uma parcela do público, equipamento e acesso já não são o suficiente, a experiência passou a ocupar um papel central na escolha da academia.
Academias querem fazer parte da rotina, não só do treino
A Les Cinq Gym, fundada por Rodrigo Sangion em 2014, opera atualmente uma unidade de 2,5 mil m² nos Jardins, em São Paulo. A mensalidade é de R$ 3,5 mil, segundo reportagem da Exame publicada em abril de 2026. Além de musculação e aulas coletivas, a academia oferece pista de corrida, fisioterapia, nutrição, saunas, acompanhamento individualizado e um espaço de recovery com luz infravermelha e botas pneumáticas. A experiência inclui ainda água, frutas, oleaginosas e toalhas geladas à disposição dos alunos, vestiários com produtos premium e equipamentos conectados da Technogym.
Para Sangion, CEO da Les Cinq, a ampliação desse cardápio acompanha uma mudança na relação do consumidor com as academias: se antes a estética prevalecia, hoje “a preocupação com o bem-estar fala mais alto”. A marca passou, inclusive, a desenvolver protocolos específicos de treinamento para alunos que utilizam medicamentos para emagrecimento sob recomendação médica e considera aspectos como qualidade do sono, estresse e rotina de trabalho na construção dos treinos. “O conceito de uma academia moderna e sofisticada é o wellness (bem-estar geral) e não apenas o fitness (aptidão física)”, afirma. Apesar da demanda, a expansão é tratada com cautela: segundo o executivo, o índice de renovação é alto e boa parte dos novos clientes chega por indicação, mas “a replicação de modelos acaba impactando nesse conceito de ser algo único”.

A Les Cinq oferece uma proposta de hospitalidade e bem-estar (Créditos: Divulgação)
A Six Wowness Club tem hoje cinco unidades em operação — Vila Nova Conceição e Itaim Bibi, em São Paulo; Campinas; e Lago Sul e Noroeste, em Brasília — além de Alphaville e Belvedere, em Belo Horizonte, anunciadas como próximas aberturas. Na Vila Nova, a mensalidade foi divulgada em R$ 4,5 mil, com day use de R$ 800. A estrutura reúne musculação e aulas, sauna, crioterapia, bar all inclusive, concierge, valet, brinquedoteca, coworking, serviços de beleza e quadra de beach tennis; a marca também inclui recovery, spa, alimentação funcional e áreas de convivência em sua proposta.
Para Eilson Studart, sócio-fundador da Six, essa combinação responde a um consumidor que já não procura apenas um espaço para se exercitar. “Não vendemos acesso a equipamentos, vendemos tempo de qualidade, pertencimento e estilo de vida”, afirma. A intenção é fazer com que o associado possa treinar, se recuperar, trabalhar, comer e encontrar outras pessoas no mesmo local. “Nosso objetivo é disputar o tempo das pessoas, não apenas o tempo que elas destinam à academia”, diz.

A Six busca investir em estilo de vida, para além do exercício (Créditos: Caio Faz)
Essa lógica também explica o controle de lotação adotado pela rede. Segundo Studart, aumentar excessivamente a base de membros colocaria em risco atributos como conforto, disponibilidade e exclusividade; por isso, o limite de associados é tratado como “uma decisão de posicionamento de marca”. A Six planeja abrir, em média, cinco unidades por ano e prevê, depois de Alphaville e Belvedere, chegar ao Jardim Paulista, Curitiba, Ribeirão Preto, Fortaleza e Recife. “Nossa ambição não é ser a maior rede em número de academias. Queremos construir a marca de wellness premium mais desejada do Brasil”, afirma.
Mais acompanhamento, menos dispersão: musculação volta ao centro
A Silva Gym, por outro lado, se define como um “clube de musculação” e estrutura a operação em torno de vagas limitadas, treinos com horário marcado e acompanhamento próximo: no modelo 3×1, cada professor atende simultaneamente até três alunos. Em junho, a rede somava 28 unidades entre abertas e em implantação, e os planos variavam de cerca de R$ 839 a R$ 1 mil, conforme a unidade. Para Rafael Silva, sócio-fundador, o diferencial está menos na infraestrutura e mais na capacidade de fazer o aluno permanecer. “As pessoas continuam querendo acesso, mas começaram a valorizar cada vez mais experiência, acompanhamento, organização e pertencimento”, afirma.
A estratégia, segundo ele, se reflete nos indicadores: mais de 90% dos matriculados frequentam efetivamente a academia e a taxa de renovação gira em torno de 80%. A marca também decidiu não incorporar recovery ou aulas coletivas às novas unidades para preservar a especialização na musculação. “O futuro, na minha visão, será menos sobre vender acesso e mais sobre construir relacionamento”, diz Silva.
Esse vínculo também aparece nos eventos e encontros promovidos pela Silva, que, segundo o fundador, funcionam mais como uma consequência da comunidade do que como ferramenta para criá-la. “Os eventos e outras ações são apenas uma celebração da nossa comunidade, não foi nada disso que a formou e a tornou tão apaixonada pela marca”, explica. Para o executivo, a sensação de grupo não nasce de ações pontuais: “Comunidade forte se forma a partir de sentimento. Sentimento se forma com propósito de marca e muita verdade”.

A Silva Gym foca em musculação e comunidade (Créditos: Divulgação)
A Aura Gym, fundada por Lívia Ferreira, opera atualmente uma unidade na Vila Nova Conceição, em São Paulo, e aposta em atendimento individualizado: cada professor acompanha no máximo dois alunos, sem necessidade de agendamento prévio. A estrutura reúne musculação, Pilates Reformer, yoga, dança e HIIT Fight, além de sauna, banheira de gelo, botas de compressão, estacionamento, café, frutas, toalhas padrão hotel, produtos Dyson e steamer. A academia oferece planos mensal, trimestral, semestral e anual, além de day use e opção de 15 dias, mas não divulga os valores publicamente.
Para sustentar o modelo mesmo nos horários de pico, a Aura utiliza tecnologia e inteligência artificial para prever a ocupação e ajustar a equipe, além de limitar a capacidade de alunos. “Nunca vamos abrir mão da qualidade, do atendimento individualizado e do conforto para aumentar a receita de forma não sustentável”, afirma Lívia. Com pouco mais de seis meses de operação e ainda em metade da capacidade máxima, a empresa não prevê expansão imediata. Segundo a fundadora, o objetivo é fazer com que a academia se incorpore à rotina dos membros: “É comum ouvirmos que a Aura se tornou uma extensão da casa deles”. Para ela, mais do que uma academia-clube, a marca busca construir “um novo modelo de relacionamento entre as pessoas e o exercício físico, baseado em qualidade, comunidade e cuidado contínuo”.

A Aura Gym tem 6 meses de funcionamento e tem como objetivo o foco em saúde e comunidade (Créditos: Divulgação)