Academias miram experiência para ir além do “projeto verão”
Além de promoções, marcas apostam em promover pertencimento para fidelizar alunos no começo do ano

Marketing do Grupo Smart Fit diz que inicia campanhas para novos clientes ainda no final do ano (Crédito: Divulgação)
Com a virada do ano, resoluções pessoais e promessas de verão voltam a impulsionar a procura por academias. O período, historicamente marcado por um pico de interesse e matrículas, se tornou um dos momentos mais estratégicos para o marketing do setor. Para além de promoções, as marcas buscam transformar essa intenção inicial em frequência, retenção e relacionamento de longo prazo.
Cristina Duclos, CMO global do Grupo Smart Fit, diz que ações e campanhas começam a ser ativadas ainda em novembro, a fim de capturar o primeiro interesse. A conversão em matrícula acontece, principalmente, entre o fim de dezembro e o início de janeiro. “O contato antecipado ajuda a transformar a intenção em ação. Após esse período, o foco passa a ser retenção e engajamento dos novos alunos”, explica.
O plano de ação, segundo a executiva, precisa ir muito além de preço. As estratégias mais eficazes para capturar o pico sazonal passam por estimular a experiência e o engajamento com a marca, ressalta. Por isso, a Smart Fit aposta em uma comunicação que convide novos públicos a viverem a experiência da academia, usando “linguagem de lifestyle, bem-estar e pertencimento”.
Mais do que discurso
Além de campanhas sobre metas reais, consistência e mudança de hábito, entram na estratégia o uso intensivo de canais digitais, influenciadores e mensagens alinhadas ao momento cultural do início do ano. Na ordem prática, outro ponto indispensável é reduzir barreiras de entrada, ao facilitar acesso e adesão.
Exemplo citado por Cristina é o “Rolê na Smart”, iniciativa que oferece gratuidade para adolescentes de 14 a 18 anos durante as férias, em horários específicos. O que está por trás da ação é, justamente, o reforço da academia como espaço de convivência, música e comunidade.
“Quando estimulamos a experimentação em um público mais jovem, com potencial de criar o hábito e permanecer conosco por um período mais longo, pegamos esse consumidor no ‘início’ da jornada, o que aumenta o lifetime value, e o engajamento com a marca”, afirma.
A Smart Fit terminou o ano passado com 2.084 academias em oração em 16 países, com 5,2 milhões de alunos. Do total de academias, 984 no Brasil, 465 no México e 635 em outros países. Pouco mais de 1,6 mil são unidades próprias e 401 são franquias. Em termos de faturamento, a rede registrou receita líquida de R$ 5,29 bilhões, conforme resultado do 3º trimestre de 2025.
Gap a ser vencido
A CMO e sócia da rede Ultra, Ivete Gama, pontua que o mercado fitness no Brasil ainda tem penetração relativamente baixa, em torno de 7% a 8% da população. No entanto, um dado ainda mais relevante é que, dentro dos outros 92%, a maior parte declara intenção de se matricular em uma academia. O cenário evidencia o tamanho das oportunidades para as marcas do segmento.
“O desejo existe, mas algo sempre impede a decisão e o início do ano funciona como esse gatilho. Em regiões litorâneas, por exemplo, esse movimento se intensifica ainda mais por conta do verão, do tipo de vestimenta e da questão estética”, salienta.

A maioria das pessoas que não fazem academia declaram desejo de começar a praticar exercícios físicos (Crédito: Divulgação)
Conhecer esse gap entre vontade e ação é, para Ivete, o ponto de partida para estabelecer estratégias mais eficientes. O desconto funciona, mas atinge principalmente quem está disposto a começar. No entanto, quando mais de 90% da população ainda não treina, torna-se evidente que o maior desafio é comportamento, e não de preço.
O esforço da Ultra nesse período é tentar gerar identificação e reduzir a barreira de entrada com uma comunicação que a CMO chama de “próxima e real”. Mostrar bastidores da academia, usar funcionários como criadores de conteúdo e trazer depoimentos de alunos fazem parte do plano.
Ações de live marketing e grandes aulões em espaços públicos também entram na agenda, assim como o trabalho com embaixadores da marca, como Reynaldo Gianecchini e Fernanda Souza: “São pessoas reais, com histórias, fases e relações honestas com o treino. Isso a ajuda a comunicar que a academia não é um espaço de julgamento, mas é um lugar possível para diferentes perfis e momentos de vida.”
Jornada completa
O processo de fidelização do novo aluno, na Velocity, envolve uma jornada construída desde a primeira experiência, explica Raíssa Bittar, CMO dos Studios Smart Fit, vertical do grupo focada em experiências especializadas. Acolhimento e orientação norteiam o primeiro contato, por meio de aulas construídas para gerar confiança. O acompanhamento inclui, em seguida, “estímulos contínuos de comunidade, com brindes a cada conquista”.
“O que mais funciona para a Velocity é trabalhar comportamento e pertencimento. Do ponto de vista de estratégia, priorizamos a experiência como principal gatilho de conversão. Em vez de competir por preço, a porta de entrada é uma primeira aula muito bem desenhada, que reduz a insegurança, entrega energia e mostra o método na prática”, reforça.
Raíssa acrescenta que a construção de comunidade também se torna um diferencial. A marca investe em narrativas e ativações que reforçam conexão, desafios, ações de relacionamento e conteúdos que valorizam histórias reais de alunos, porque “isso transforma o início em algo social, não só pessoal”.

Narrativas da Spin’n Soul no período abordam renovação (Crédito: Divulgação)
Daniel Nasser, CEO da Spin’n Soul, também especializada em bike indoor, diz que, ao contrário do que pode parecer, o início do ano não é focado em descontos. A empresa, inclusive, entra em janeiro com reajustes de preços. O período está mais associado a comprometimento e valorização da experiência.
Assim como nas demais marcas, o marketing da Spin’n Soul se apoia em narrativas de renovação: “Trabalhamos conceitos como ‘dia um’, novos hábitos e a construção de uma rotina saudável ao longo do ano, reforçando a ideia de que janeiro pode ser o início de uma transformação duradoura, e não apenas um impulso momentâneo.”
Nesse contexto, há uma intensificação da comunicação em torno de planos e pacotes de médio e longo prazos, alinhados à ideia de comprometimento contínuo. Também ganha destaque a divulgação de novidades, como reformas de unidades, novos formatos de aulas, eventos especiais, parcerias estratégicas e lançamentos previstos para o ano.
“Essa combinação de experiências e planos estruturadores ajudam a manter o engajamento além do primeiro impulso do ano. Transformam a alta intenção de janeiro em um relacionamento mais duradouro com a marca”, conclui Nasser.