Opinião

Hoje eu não vou performar

Estamos ficando exaustos de fazer tudo o que precisa ser feito para não ficarmos exaustos e esse talvez seja um dos paradoxos do nosso tempo

Chiara Martini

Diretora sênior de estratégia criativa na The Coca-Cola Company 16 de março de 2026 - 14h00

Começo a escrever este artigo cansada. Há dias pensando sobre o que falar, mas com um daqueles bloqueios criativos que não deixam você ver nada além do óbvio. Fazia tempo que eu não tinha um desses. Mas, pensando bem, dá para entender por quê. Se não é a intensidade da vida no trabalho, são notícias de crianças morrendo bombardeadas dentro da escola. Não há quase nenhuma trégua. A não ser que eu desligue a TV, desligue o celular. E, mesmo assim, ainda preciso me esforçar para não pensar em tudo o que sei que está acontecendo.

Só que não dá para simplesmente parar. Há uma sensação de que, se eu parar, as coisas não vão se resolver e eu fico para trás. E é justamente esse medo que alimenta uma pequena indústria de soluções para a vida.

Veja só. Tenho um aplicativo aqui para te ajudar a dormir melhor. Ele acompanha sua noite e entrega um dashboard completo para você monitorar sua evolução. Se estiver sem tempo para treinar, tem outro que monta um treino rápido para encaixar no horário do almoço. Se a cabeça não te dá trégua, existe, ainda, um aplicativo de meditação guiada que promete que com 30 minutos por dia tudo começa a melhorar.

Há sempre mais uma ferramenta. Mais um método. Mais um sistema. Estamos ficando exaustos de fazer tudo o que precisa ser feito para não ficarmos exaustos. Esse talvez seja um dos paradoxos do nosso tempo. Passamos os últimos anos tentando otimizar tudo. O trabalho, a alimentação, o sono, o treino, a produtividade, o descanso, a atenção. Cada parte da vida ganhou um aplicativo, um método ou uma métrica prometendo torná-la melhor.

A lógica parecia simples: se algo pode ser melhorado, então deve ser. O problema é que essa lógica escapou do escritório e invadiu o resto da vida. Até o lazer virou projeto. Correr deixou de ser apenas correr e virou performance. Viajar virou produção de conteúdo. Descansar virou técnica de recuperação. Ler virou meta anual acompanhada, também, por aplicativo. Tudo passou a ser acompanhado, registrado, medido. Passos. Calorias. Minutos. Páginas. Resultados. E quando tudo vira métrica, até descansar começa a parecer tarefa.

Essa lógica também atravessa o trabalho de quem vive de ideias. Não basta fazer bem feito. É preciso performar. Nas reuniões, nos eventos, nas redes, nos prêmios, nas conversas de corredor. Existe uma expectativa permanente de construção de imagem, de energia, de presença. Como se estivéssemos todos sempre um pouco no palco. Acontece que por trás desse palco existe outra coisa: gente tentando dar conta da própria vida; gente fazendo o melhor que consegue com o que tem naquele dia.

Começa a surgir, então, uma sensação difusa de cansaço coletivo. Não apenas um cansaço físico ou mental, mas um cansaço de viver dentro de uma lógica permanente de melhoria. Porque melhorar exige esforço constante. Exige disciplina, atenção, acompanhamento. E nem tudo na vida precisa funcionar assim.

Curiosamente, os momentos em que surgem as melhores ideias raramente acontecem dentro dessa lógica de otimização. Eles aparecem quando a mente se desloca. Em uma caminhada sem objetivo claro. Em uma aula de dança. Em uma conversa despretensiosa. Em um livro lido sem pressa, sem meta, sem aplicativo registrando o progresso. Essas não são apenas válvulas de escape. São válvulas de inspiração.

A criatividade raramente nasce de um sistema perfeitamente otimizado. Aparece quando o pensamento ganha espaço para vagar, quando o ritmo desacelera o suficiente para que novas conexões apareçam. Foi exatamente por isso que decidi começar este texto assim, admitindo que, desta vez, as ideias não estavam fluindo. E recusando a tentação de transformar esse bloqueio em mais uma tarefa a ser resolvida com método, planilha ou técnica. Em vez disso, resolvi fazer uma pausa. Fui dançar. E só depois voltei para escrever. Talvez nem tudo precise melhorar o tempo todo. Algumas coisas não existem para serem otimizadas. Existem para nos lembrar que ainda somos humanos. Para abrir espaço onde antes só havia performance. Para devolver um pouco de ar a uma vida que passou tempo demais tentando funcionar como sistema.

Talvez seja justamente aí que esteja o que estamos procurando. Não na próxima técnica de produtividade. Nem no próximo aplicativo que promete melhorar a vida. Mas no raro momento em que a gente simplesmente para.