Pode deixar seu biscoito? Segue o link
Para quem não está familiarizado com o termo, “pedir biscoito” virou o jeito informal de pedir engajamento, como curtidas, comentários ou qualquer sinal público de validação
– Pessoal, podem deixar seu biscoito nesse post, please.
– Galera, nos ajudem com biscoitos no primeiro post do cliente novo.
– Agora sim, pessoal, preciso de muitos biscoitos, por favor.
Se você trabalha com comunicação, marketing ou criação, é bem provável que já tenha recebido, ou até enviado, alguma dessas mensagens. Para quem não está familiarizado com o termo, “pedir biscoito” virou o jeito informal de pedir engajamento, como curtidas, comentários ou qualquer sinal público de validação.
As mensagens acima são a versão atualizada de uma prática que já virou rotina: o famoso “me dá uma forcinha lá no LinkedIn?”. Uma modalidade de networking que não consta nos manuais de etiqueta corporativa, mas que se espalhou com uma velocidade impressionante.
Ela começa inocente. Um link no grupo de WhatsApp. Depois evolui para o inbox:
– Amiga, consegue comentar no meu post? Preciso dar uma aquecida no algoritmo.
Jura?
Imagino o Porta dos Fundos fazendo uma esquete sobre isso. Gregório Duvivier aparecendo como o Algoritmo, um personagem meio entidade, meio signo astrológico do mercado, com uma fala bem bizarra:
– Não, esse seu carrossel mequetrefe sobre como tirar cinco aprendizados da rebimboca da parafuseta não é relevante. Não vou entregar para ninguém… Onnnnnn.
Por semana, sim, eu fiz a conta, chegam em média 50 pedidos de forcinha no meu WhatsApp. Eu entendo. Já fiz isso no passado, talvez duas ou três vezes, quando comecei a usar o LinkedIn. Meu telhado é de vidro. Mas parei logo. Porque comecei a perceber que isso me afastava mais das pessoas do que me aproximava delas.
Nós queremos relevância. Mas relevância não se constrói no atalho.
A gente quer ser validado. Quer dividir com o mundão que somos os fodões, as fodonas. Quem não quer um selo de Top Voice? Ah, para, vai…
Quem manja do LinkedIn diz que a plataforma prioriza conversas. E daí segue a máxima: engajamento gera distribuição, que gera visibilidade, que gera oportunidade.
E assim, grupos de WhatsApp e conversas privadas são inundados de “me dá uma forcinha” ou “recebi uma lição de casa para escrever no LinkedIn. Pode comentar lá?”.
Minha sugestão? Quer mesmo engajar? Estude. Há muitas aulas na própria plataforma e perfis, como Richard van der Blom e Justin Welsh, que compartilham análises e dicas sobre crescimento orgânico e construção de audiência.
Na psicologia social, o pesquisador Robert Cialdini descreve o princípio da reciprocidade: quando alguém nos pede algo diretamente, sentimos uma pressão quase automática de retribuir. Em ambientes de grupo, esse efeito se mistura à pressão social. Não comentamos porque lemos. Comentamos porque fomos convocados e não sabemos dizer “não”.
O problema não é só o lugar. É o pedido também. Muitas vezes, há falta de vínculo real com a pessoa. Tem pedido de forcinha de gente com quem não falo há mais de cinco anos.
As redes têm seus próprios códigos. No Instagram, pedir “curte e compartilha” virou linguagem nativa. No TikTok, implorar por comentário é quase performance. No LinkedIn, a parada se sofisticou: “comenta ‘ebook’ que eu te envio no direct.”
Mas no WhatsApp? No grupo que nasceu para troca de insights, jobs, indicação de fornecedor ou desabafo sobre briefing impossível? Quando o pedido vira rotina, o grupo deixa de ser espaço de troca e passa a ser:
– Alô, é da central de impulsionamento gratuito? Poderia comentar com mais de dez palavras?
Eu, que sou jornalista e trabalho com relações públicas, parei com essa prática assim que percebi a armadilha em que me enfiava. Porque essa conduta enfraquece aquilo que mais sustenta nossa reputação profissional: autenticidade.
Dados do estudo Edelman Trust Barometer mostram que confiança é construída principalmente pela percepção de competência e integridade. Não por volume de likes.
Comunicação estratégica sempre foi sobre três pilares: mensagem, consistência e relação. Nenhum deles se sustenta com convocação em massa.
Dá para não comentar e ser educada, educado numa hora dessas? Sugiro a máxima:
– Opa, pode deixar. Se eu cruzar com o seu post no LinkedIn, comento com o maior prazer.
E siga em frente, com reputação, não com culpa.