Opinião

Como lidar com a repetição

Produção intensa cria a sensação de que novidades são constantes, mas lançamentos diários criam homogeneização de propostas e linguagens

Maria Angela de Jesus

Presidente da Fundação Padre Anchieta/TV Cultura 24 de abril de 2026 - 13h39

A originalidade sempre ocupou um lugar central na produção audiovisual. No cenário contemporâneo, ela deixou de ser apenas um valor criativo para se tornar também uma escolha estratégica.

Nunca se produziu tanto conteúdo. Plataformas de streaming e redes sociais democratizaram a criação e ampliaram o acesso dos consumidores ao conteúdo. Mas a abundância de produção provocou um efeito colateral: a repetição. Os algoritmos tendem a privilegiar aquilo que que já teve bom desempenho junto ao público, engessando a busca por criatividade e inovação.

Quando analisamos a história do audiovisual, constatamos que os projetos de sucesso funcionam porque são originais e autênticos, agregando novas vozes e perspectivas diferentes. O grande desafio é entender o que a audiência realmente deseja. Será que ela quer apenas conteúdos derivativos e copiados de sucessos anteriores? Ou prefere conteúdos inovadores?

Embora a produção intensa crie a sensação de que as novidades são constantes, com lançamentos diários de novos conteúdos, há uma homogeneização de propostas e linguagens.

Algoritmos não são definidores de tendências. Eles apenas fornecem dados que podem servir como guia para orientar novos projetos e não como um obstáculo à criatividade. Dados e pesquisas são sempre um retrato do ontem e não determinam o que o público buscará amanhã.

Ao longo da minha trajetória de quase 30 anos no audiovisual, com passagens por HBO, Netflix e Paramount, tive a oportunidade de acompanhar momentos desafiadores e de grandes transformações na indústria. Mas uma constante se manteve: o valor de boas histórias contadas a partir de um olhar próprio.

Não se trata de fazer apenas mais um produto para consumo imediato, mas, sim, de evidenciar uma cultura e um estilo de vida. Esse é o soft power do Brasil, como pudemos constatar, recentemente, no sucesso de filmes como Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho.

Hoje, no entanto, a originalidade disputa espaço com a previsibilidade. Muitas vezes, empresas — e, infelizmente, até alguns criadores — renunciam à inovação para seguir formatos já validados e que oferecem maior segurança na decisão. A pressão por resultados imediatos reduz o espaço para experimentação.

A inteligência artificial (IA) amplia a discussão, por ser uma ferramenta capaz de gerar roteiros, imagens e até vídeos completos. No entanto, assim como o algoritmo, ela reorganiza o que já foi feito antes. A IA não “cria”, ela “combina” elementos que já existem. A tecnologia melhora processos, mas não substitui repertório e sensibilidade.

Originalidade também é decidir como contar uma história que o criador acredita que precisa existir.

A televisão aberta precisa ser cada vez mais flexível, multiplataforma e conectada com seu público. É necessário adotar diferentes linguagens e meios, porém, sem renunciar à identidade. É buscar o sucesso global a partir das características específicas da nossa “aldeia”, como nos ensinou Tolstói.

Outra questão fundamental é a diversidade de vozes. Ampliar o espaço para quem cria não é uma questão de representatividade, mas de inovação. Novos olhares geram novas narrativas e novas formas de conexão com o público.

A originalidade não é apenas um diferencial mercadológico, mas um ativo de valor. É preciso gerar um “engajamento emocional”, aquele sentimento que nos faz assistir a uma série do início ao fim ou ter a memória afetiva de um grande filme.

Ser original é um exercício de posicionamento. É ter clareza sobre o que se quer dizer e coragem para sustentar essa visão, mesmo quando ela não segue o caminho mais óbvio.

Nós, como seres humanos, contamos histórias desde os tempos das cavernas. Vamos continuar fazendo isso com ousadia, inovação e criatividade.