Opinião

O que o espaço revela sobre as marcas que realmente importam

Do “pale blue dot” de Carl Sagan à era Artemis, como anunciantes que deslocam perspectiva estão redefinindo valor na economia da atenção

Renato Winnig

head de comunicação integrada & ecossistema de marca, PR e trade marketing na Vivo 20 de abril de 2026 - 16h00

Em um mundo saturado de conteúdo, o problema das marcas não é falta de criatividade. É falta de significado. A gente vive a era da abundância criativa, campanhas com narrativas mais elaboradas, estética com alto impacto e produção em escala. Nunca se criou tanto. Nunca se publicou tanto. E, ainda assim, poucas coisas realmente ficam. Talvez porque a maior escassez hoje não seja mídia. Seja perspectiva. Ou, mais precisamente, a capacidade de deslocá-la.

Em 1990, uma imagem resolveu isso de forma brutal. A Terra, registrada pela sonda Voyager 1 a bilhões de quilômetros de distância, aparecia como um ponto quase invisível, um pixel suspenso no vazio. Foi quando Carl Sagan escreveu: “Look again at that dot. That’s here. That’s home. That’s us.”

A força daquela imagem não estava na tecnologia que a produziu, mas na forma como ela deslocava o nosso olhar. De repente, tudo, guerras, fronteiras, disputas, parecia menor. E, ao mesmo tempo, mais conectado. Foi uma ruptura imagética antes de ser científica. Uma imagem que não informava, reposicionava.

Ao longo da história, poucos momentos tiveram esse poder, o “Earthrise”, visto pela primeira vez na missão Apollo 8, ou o próprio “Blue Marble”, na missão de Apollo 17. Imagens que não apenas mostraram o mundo, mudaram a forma como nós percebemos dentro dele.

Décadas depois, o programa Artemis recoloca a humanidade diante desse mesmo gesto. Mas com uma diferença fundamental. Se antes essas imagens eram raras e quase inacessíveis, hoje, elas emergem em um contexto radicalmente oposto, um mundo saturado de imagens, feeds infinitos e atenção fragmentada. E, ainda assim, algumas delas continuam tendo o poder de parar tudo.

Porque não é sobre quantidade. É sobre mudança de perspectiva. O que explica por que, mesmo em um ambiente de hiperestímulo, alguns poucos movimentos ainda conseguem atravessar o ruído. Não são necessariamente os mais produzidos. Nem os mais caros. São aqueles que deslocam o olhar.

É o que vemos quando tecnologias deixam de ser apenas ferramentas e passam a reconfigurar a forma como pensamos. A OpenAI, por exemplo, não apenas introduziu novas capacidades, tornou conversacional algo que antes era distante, mudando a forma como interagimos com conhecimento, linguagem e criação.

Em outra camada, mais silenciosa, transformações igualmente profundas acontecem no mundo físico. A Waymo não comunica uma inovação, ela elimina um comportamento inteiro. Dirigir deixa de ser uma necessidade e passa a ser uma escolha, reorganizando a experiência cotidiana sem precisar anunciá-la.

Nem sempre são as marcas mais conhecidas que melhor explicam o que está mudando. Às vezes, são aquelas ainda à margem, mais livres, mais experimentais, que revelam para onde o sistema começa a se deslocar. É nesse território que essa mudança de perspectiva se torna ainda mais visível. Algumas que estão provocando categorias lá fora.

A Graza, marca de azeites de oliva extravirgem, é um bom exemplo disso. Ao deslocar o azeite do lugar de objeto gourmet para um utensílio cotidiano, quase intuitivo, ela altera não apenas o uso, mas o significado da categoria. A embalagem em squeeze, a linguagem direta, a ausência de ritual, tudo aponta para uma estética de simplicidade operacional. Não se trata de sofisticar o produto, mas de remover fricção. E, ao fazer isso, a marca transforma um ingrediente em comportamento.

Algo semelhante acontece com a Fishwife (que reposiciona a forma como o peixe enlatado é percebido), mas em outra dimensão. Aqui, o movimento não é de simplificação, mas de ressignificação estética. Cores, ilustrações e colaborações transformam conservas, historicamente associadas ao básico ou ao esquecido, em objetos de desejo cultural. Não é apenas embalagem, é uma reconstrução simbólica que reposiciona o produto no imaginário contemporâneo. O que era utilitário passa a ser expressivo.

O que conecta todos esses exemplos não é estética, nem categoria. É algo mais estrutural. Essas marcas não estão apenas competindo por atenção. Elas estão reorganizando sistemas. Como pensamos, como nos movemos e como consumimos. E como projetamos o futuro.

Existe um dado recorrente em estudos recentes de atenção que ajuda a explicar esse fenômeno: conteúdos que geram resposta emocional e conexão cultural sustentam níveis muito mais altos de retenção do que mensagens puramente funcionais. Mas talvez isso seja só parte da história. Porque o que realmente permanece não é o que chama atenção, é o que muda referência. Foi exatamente isso que Carl Sagan entendeu.

Em Cosmos: A Personal Voyage, ele não simplificou a ciência, ele reorganizou o lugar do ser humano dentro dela. O que o espaço ensina sobre marcas é menos sobre tecnologia e mais sobre significado. As marcas mais relevantes do nosso tempo não são aquelas que aparecem mais. São aquelas que conseguem fazer algo mais raro. Mudar a forma como vemos, e, a partir disso, a forma como vivemos.

Talvez seja por isso que o “pale blue dot” ainda ressoe com tanta força. Não pela imagem em si, mas pelo que ela desloca. Ela nos lembra que perspectiva não é um detalhe, é o que redefine tudo. E, agora, com o programa Artemis, uma nova geração de imagens começa a ser construída.

Imagens que não apenas mostram onde estamos, mas que têm o potencial de, mais uma vez, reposicionar o nosso lugar no mundo. Porque, no fim, não é sobre espaço. É sobre perspectiva. E sobre o que consegue permanecer em um mundo onde quase tudo