Opinião

As agências não perderam relevância. Perderam posição

O que está em curso não é apenas uma transformação tecnológica; é uma disputa de posição

Marcos Amazonas

CEO da Connect Entretenimento e Educação 17 de abril de 2026 - 6h00

Durante décadas, as agências ocuparam um lugar central no sistema de comunicação: eram o ponto de articulação entre marcas, mídia e linguagem — traduziam, organizavam e davam forma ao discurso.

Esse lugar não desapareceu — foi sendo dissolvido.

A tecnologia ampliou as possibilidades e redistribuiu o poder. Plataformas passaram a oferecer segmentação, mensuração e até criação. Dados se multiplicaram em escala quase infinita.

Mas já não se trata de uma fase que exigiria adaptação. Os sinais de esgotamento do modelo se tornaram concretos demais para serem tratados como ruído passageiro. A retração de empregos em agências, registrada em estudos recentes, não é apenas efeito de eficiência tecnológica — é indício de deslocamento estrutural.

A isso se somam duas ameaças institucionais diretas à relevância das agências. De um lado, a internalização crescente por parte dos clientes: o avanço do in-housing, acompanhado de questionamentos mais duros sobre custo, ROI e opacidade operacional, empurra as marcas a rever não apenas o que terceirizam, mas se ainda faz sentido terceirizar. De outro, a entrada das consultorias, que passam a ocupar o território da formulação estratégica.

O que está em curso, portanto, não é apenas uma transformação tecnológica. É uma disputa de posição.

As agências responderam à fragmentação com fragmentação. Criaram unidades, especializações, squads, células. Incorporaram dados, tecnologia, performance.

Mas, ao fazer isso, ao responderem à fragmentação com mais fragmentação, enfraqueceram justamente aquilo que as distinguia: a capacidade de integrar sentido, estratégia e coerência.

O resultado é paradoxal. Nunca se produziu tanta comunicação — e nunca foi tão difícil sustentar uma narrativa coerente.

E, no meio disso tudo, as agências começaram a ser pressionadas por uma pergunta simples e devastadora: qual é, exatamente, o seu papel indispensável?

Na visão maximalista, o mundo não se organiza mais em linhas retas. Ele se apresenta múltiplo, simultâneo, contraditório — como um labirinto.

A agência deixa de ser produtora de campanhas para se tornar estruturadora de sentido. Não organiza mensagens — organiza interpretações e constrói diagnósticos. E diagnóstico não é análise de dados. É leitura de realidade.

Os dados mostram o que acontece. Mas não são suficientes, por si só, para explicar por que aquilo faz sentido — nem o que pode emergir a partir disso.

É nesse intervalo — esse vazio entre o dado e o significado — que as agências podem recuperar o espaço da construção como condição de profundidade.

A agência deixa de ser intermediária para se tornar instância de articulação. Porque o que está em jogo não é a execução da comunicação, mas a coerência do sistema comunicacional de uma marca.

O novo espectador — ou melhor, o novo habitante da comunicação — não recebe mensagens. Ele as confronta, ressignifica, rejeita ou amplifica. Ele não está diante do discurso. Ele está dentro dele.

Porque, se antes a comunicação era um fluxo, hoje ela é um ambiente compartilhado. E ambientes não se controlam apenas com ferramentas. Eles exigem arquitetura.

É exatamente esse o território que as agências precisam ocupar. Não mais como produtoras de peças, mas como arquitetas de ambientes simbólicos.

O que está em disputa agora é quem será capaz de devolver inteligibilidade a um sistema comunicacional saturado, automatizado e fragmentado. Se as agências não ocuparem esse lugar, outros ocuparão.

E, talvez, esse movimento já esteja em curso — ainda que nem sempre seja percebido como tal.