Jade Picon: “Audiência ajuda, mas faturamento exige consistência”
Influenciadora divide estratégias de negócio e faz balanço de como saiu do digital para o empreendedorismo
Jade Picon compartilha detalhes de sua trajetória como empreendedora (Crédito: Divulgação)
A maturação da creator economy no Brasil tem levado nomes que nasceram no digital a buscarem modelos de negócio que transcendam a publicidade tradicional. O caso de Jade Picon ilustra bem esse movimento de criadores que assumem o papel de fundadores, convertendo o alcance das redes sociais em operações de varejo com presença física e metas de faturamento na casa dos nove dígitos. Com marcas como Aura Beauty e JadeJade, o desafio deixa de ser apenas a retenção de atenção e passa a ser a gestão de logística, portfólio e capilaridade em grandes redes de distribuição.
Essa transição para o papel de empresária, no entanto, não ocorre de forma isolada, mas em uma intersecção constante com o entretenimento e a moda. O trânsito entre a teledramaturgia — explorando inclusive novos formatos de consumo vertical — e a gestão de marcas próprias, desenha um perfil híbrido que busca se sustentar em diversas frentes de receita. Na entrevista abaixo, ela explica a estratégia por trás da expansão para o varejo físico, a lógica de construção de ecossistema de marca pessoal e como a relação entre influenciadores e empresas tem se tornado mais estrutural e menos pontual.
Meio & Mensagem — Você começou muito cedo nas redes sociais e construiu uma audiência extremamente fiel. Em que momento percebeu que sua presença digital poderia se transformar em um negócio estruturado e não apenas em influência?
Jade Picon — Eu comecei muito nova. No início, era tudo muito espontâneo, até porque a internet ainda era vista como algo muito incerto. Não existiam ainda grandes exemplos para que eu soubesse que um caminho poderia ser trilhado, mas eu sentia que sim. Seguindo meu feeling e construindo, eu comecei a enxergar consistência, tanto no meu crescimento quanto no impacto que eu gerava, e, principalmente, quando as marcas começaram a buscar comigo relações mais estratégicas e de longo prazo. Eu sempre tive uma alma criativa e empreendedora, e a internet me deu as ferramentas e oportunidades necessárias para aprender e colocar tudo em prática.
Jade Picon estreia marca de beleza no varejo
M&M — Hoje você transita entre atuação, empreendedorismo e influência digital. Como enxerga a construção da sua marca pessoal dentro dessa interseção entre entretenimento e negócios?
Jade — Eu vejo minha marca pessoal como o elo entre tudo o que eu faço. As três frentes — empresária, influenciadora e atriz — se complementam. Cada uma fortalece a outra em momentos diferentes, seja na construção de imagem, na conexão com o público ou na criação de novos negócios. A atuação me traz um outro lugar, mais profundo, e me desafia de um jeito diferente; a influência é onde eu tenho essa troca direta com o público e onde tudo começa, de certa forma. Já o empreendedorismo eu considero a materialização da minha marca pessoal, onde consigo transformar tudo isso em produto, em negócio, em algo que vai além do digital. É quando a ideia deixa de ser só percepção e vira algo concreto, que as pessoas podem consumir e se conectar comigo de outra forma. No final, para mim faz muito sentido pensar em tudo de forma integrada. Eu não enxergo como três caminhos diferentes, mas como partes de uma mesma construção, que vão evoluindo juntas e fortalecendo minha marca.
M&M — A JadeJade e a Aura Beauty nasceram a partir da sua audiência digital. Em termos de negócio, qual foi o maior desafio em transformar influência em uma operação de marca que precisa crescer, faturar e escalar?
Jade: Foi aprender a equilibrar os dois lados: não perder a essência e a verdade que fizeram tudo nascer, mas, ao mesmo tempo, tomar decisões mais racionais, pensando em longo prazo, estrutura e crescimento. Outra coisa muito importante é também entender que atenção não é a mesma coisa que conversão. Ter uma audiência forte ajuda muito, mas construir uma marca que fatura, que cresce e que se mantém exige consistência, produto bom de verdade e uma operação muito bem alinhada por trás.
Jade Picon já fatura na casa dos oito dígitos com a Aura Beauty (Crédito: Divulgação)
M&M — Você já mencionou projeções de R$ 100 milhões em vendas para a Aura Beauty. Quais são hoje os principais motores de crescimento da marca e que estratégias de distribuição ou portfólio devem sustentar essa meta?
Jade — Acho que, quando a gente fala de uma meta como essa, não é uma coisa só que faz acontecer, mas a soma de vários movimentos bem alinhados. Hoje, o principal motor de crescimento da Aura é o produto. A gente sempre esteve muito focado em desenvolver itens que realmente tenham qualidade e criem um momento especial na rotina das pessoas. Estamos mais do que vendendo produto, estamos construindo relação, criando hábitos e fidelizando clientes. Nesse mesmo raciocínio, estamos trabalhando expansão de portfólio, mas de forma estratégica. Não é sobre lançar muito, é sobre lançar certo, com categorias que façam sentido dentro do universo da marca. Distribuição também tem um papel muito importante para a gente. Nós começamos muito forte no digital, que continua sendo essencial, mas, para crescer, precisamos aumentar os pontos de contato com a marca. Hoje, a Aura já está presente em mais de 6 mil pontos de venda e em grandes marketplaces e lojas de beleza. Um outro fator essencial e um super diferencial é a comunidade. A Aura não cresce só por mídia, mas pela relação real com quem consome e constrói a marca junto da gente. Com certeza, esses são alguns dos movimentos que estamos adotando para um crescimento sólido e que sustenta uma meta desse tamanho.
M&M — O marketing de influência evoluiu muito nos últimos anos. Como você percebe a mudança na relação entre influenciadores e marcas hoje em comparação com quando começou?
Jade — Mudou muito. Antes era tudo mais pontual, focado em alcance. Hoje, é muito mais sobre construção de marca e relação de longo prazo. Acho que um ponto importante é que muitos criadores também viraram empreendedores, construindo os próprios negócios. No fim, tudo ficou mais consciente: não é só sobre postar, é sobre fazer sentido, ter verdade e construir algo que realmente conecte.
Jade Picon tem a marca de moda JadeJade (Crédito: Divulgação)
M&M — Em 2025 você protagonizou o primeiro microdrama produzido pela Globo em formato vertical. Como foi participar de um projeto pensado desde o início para consumo no celular e que conversa diretamente com a lógica das redes sociais?
Jade — Foi muito especial e, ao mesmo tempo, um grande desafio. É um formato que já faz parte do meu dia a dia como criadora, mas, quando você traz isso para a atuação, tudo muda! Ritmo, enquadramento, a forma de contar a história e de prender a atenção. No fim, acho que esse tipo de projeto aproxima ainda mais o entretenimento da forma como as pessoas consomem conteúdo hoje, e, para mim, fez muito sentido estar nesse lugar, conectando esses dois universos.
M&M — Olhando para o futuro da creator economy no Brasil, você se vê mais como uma artista que empreende ou como uma empresária que também atua no entretenimento?
Jade — Para mim, não é sobre ser uma coisa ou outra, é sobre construir uma trajetória que faça sentido com quem eu sou em cada momento e com o que estou sentindo. Independentemente da nomeação, o mais importante para mim é continuar criando, evoluindo e explorando novas formas de me expressar e construir coisas alinhadas com propósito e sonhos. Tenho 24 anos e sinto que não há limites ou definições para o que eu possa vir a realizar, e me sinto muito feliz com isso.