Originalidade na veia
Aplicado à realidade atual da indústria criativa, o termo original ganhou novos contornos que podem abarcar a recombinação de referências e repertórios, a adoção de perspectiva única ou a busca de diferenciação
A busca por originalidade é um dos movimentos que sustenta a criatividade em diversas áreas da expressão humana. Ao longo da história, o termo foi associado à conquista de um estilo próprio, à capacidade de gerar encantamento diante do novo e à surpresa frente ao inusitado. Entretanto, o conceito que a indústria criativa tem em relação à originalidade ganhou novos contornos nos últimos anos, devido à pressão gerada pelas ferramentas tecnológicas, especialmente as de inteligência artificial (IA), que impactam diretamente a comunicação das marcas e a produção de jornalismo e entretenimento.
Esta edição especial, que comemora 48 anos de Meio & Mensagem, debate a originalidade influenciada por questões como a homogeneização de conteúdos e formatos nas redes sociais, as vantagens e obstáculos de ser diferente ou de inovar buscando fórmulas fora do comum e o risco de padronização enfrentado pela publicidade, inundada por excesso de referências e pela corrida por performance. Reportagens, artigos e entrevistas buscam apontar caminhos que possam ajudar no entendimento de como o ambiente de maior comoditização afeta a autenticidade das ideias que moldam o mundo, da arte à ciência, da publicidade ao marketing de influência, do entretenimento ao sucesso nos negócios.
Aplicada à realidade atual da indústria de comunicação, marketing e mídia, originalidade não é mais vista, necessariamente, como algo inédito, inventado do zero. A reinvenção do conceito abarca a ideia de que original pode ser a recombinação de referências e repertórios, a adoção de uma perspectiva única ou a busca de diferenciação com identidade capaz de acompanhar o espírito do tempo e a evolução da cultura para gerar conexão real com as pessoas.
Para debater o tema, a reportagem especial inclui entrevistas com os publicitários Marcello Serpa e Deh Bastos, o cantor e compositor Seu Jorge, o escritor e professor Simran Jeet Singh, a diretora de cena Asaph Luccas e as influenciadoras Mari Kruger e Beatriz Reis, a Bia do Brás. Na seção Entrevista Coletiva, Xuxa Meneghel responde perguntas feitas por outras personalidades das artes, do entretenimento e do mundo corporativo, como o cartunista Mauricio de Sousa, a apresentadora Patrícia Abravanel e o publicitário Sergio Gordilho.
O conteúdo é complementado por artigos de quatro autores convidados a compartilharem seus pontos de vista em relação ao tema, entre eles, dois publicitários brasileiros que atuam nos Estados Unidos: Bianca Guimarães, sócia e diretora executiva de criação da Mischief, agência constantemente listada entre as mais criativas do mundo, e PJ Pereira, creative chairman da Pereira O’Dell e fundador da Silverside AI, empresa cujo ponto de partida é a reinvenção do marketing e da criatividade por meio da IA. A visão de quem atua no desenvolvimento de conteúdo e na produção audiovisual é expressa pelos textos de Maria Angela de Jesus, presidente da Fundação Padre Anchieta, e Roma Joana, diretora de cena na MyMama.
A pedido da redação, 16 diretores de arte deram suas interpretações pessoais sobre originalidade, por meio de 13 ilustrações publicadas ao longo desta edição: Lucas Cabrini, Pedro Silva e Rafael Gil, da Artplan (pág. 62); Eric Benitez, da AlmapBBDO (pág. 68); Carlos Passos, da Droga5 (pág. 76); Dudu Ferraz, da Galeria (pág. 78); Beatriz Santos e Iedo Gualberto, da Gut Design (pág. 82); Giovanna Trivellato, da VML (pág. 92); Gabriel Grossi, da AKQA (pág. 94); Marcelo Ribeiro, da BETC Havas (pág. 98); Nayla Alana, da LePub (pág. 106); Gio Valentini, da DPZ (pág. 108); Azul Marinha, da W+K (pág. 112); Cleber Pereira, da Africa Creative (pág. 116); e Gustavo Guives, da Crispin, cujo trabalho estampa a capa desta edição.
Cada um deles tem sua técnica. Guives optou por uma pintura digital feita à mão, no iPad, e finalizada no Photoshop, sem uso de IA. A imagem do par de rins é a sua tentativa de representar a humanidade mais crua: “Ser original é sobre ser humano, é sobre ter um coração batendo, um pulmão recebendo ar, um cérebro pensando e um rim filtrando sangue”.