SXSW

Como combater a ansiedade criada pela IA no trabalho

Ambiente de medo e incerteza se torna campo fértil para sobrecarga, microgerenciamento e hipervigilância

i 15 de março de 2026 - 21h16

Na última semana, a Anthropic, companhia de inteligência artificial responsável pelo Claude, publicou um relatório sobre o impacto da IA em diferentes profissões. O estudo reconhece que a tecnologia ainda está distante de alcançar seu potencial teórico.

Como combater a ansiedade

Morra Aarons-Mele no SXSW 2026 (Crédito: Taís Farias)

No entanto, ela já seria capaz de desacelerar o crescimento de pelo menos dez profissões até 2034. Na lista, estão programadores, representantes de atendimento ao cliente e analistas de mercado e especialistas em marketing.

O relatório da Anthropic é só um dos vários dados e análises divulgados sobre a potencial transformação da IA no trabalho. Dentro das companhias, o efeito colateral desse fenômeno seria uma ansiedade generalizada.

Consultora e autora do livro “The Anxious Achiever: Turn Your Biggest Fears Into Your Leadership Superpower”, Morra Aarons-Mele explica que a inteligência artificial mobiliza muitos sentimentos humanos. “É algo tão complexo porque incorpora todas as grandes questões existenciais das nossas vidas: nossa segurança, nossas desilusões amorosas”, aponta.

Além da dimensão das mudanças, Aarons-Mele defende que a narrativa pública da inteligência artificial vem sendo construída a partir da ansiedade. Isso moldaria a maneira como as pessoas encaram a tecnologia e, consequentemente, seu medo e paralisia.

“Pensem nas notícias que consumiram na última semana, no que leram ou ouviram. A mensagem é que não estamos preparados, que metade de nós vai perder o emprego e que um pequeno grupo de pessoas que está construindo a IA detém todo o poder”, explica.

Esse estado de medo e ansiedade teria um impacto na capacidade de ação das pessoas. No ambiente de trabalho, isso se configura em preocupação crônica, distração, microgerenciamento, sobrecarga e hipervigilância.

“Ficamos hipervigilantes porque pensamos que o futuro não é seguro. Queremos garantir que tudo esteja certo, que tudo esteja preparado. Somos muito recompensados por esses comportamentos de ansiedade e controle, mas como é viver sempre focado no futuro dentro do trabalho? É isso que acontece quando operamos movidos pela ansiedade”, aponta.

Nesse sentido, os melhores líderes seriam aqueles que conseguem reconhecer seus próprios desconfortos e inseguranças e encará-los para, então, guiar a equipe. A autora recomenda três passos básicos para superar os comportamentos criados pela ansiedade da IA.

O primeiro ponto seria abrir espaço para conversas francas e seguras com o time sobre inteligência artificial. Como se sentem? O que gostam ou não? Que emoções a IA gera na equipe?. Depois, é preciso definir quais são os valores inegociáveis naquele ambiente e como eles estão sendo atendidos – ou não – pela IA.

“Quais são os valores que estão sendo violados em um mundo que está terceirizando para a IA?”, aponta a autora. E, por fim, seria papel dos líderes em momentos de incerteza e fragilidade tomar medidas pautadas no momento presente. Esse conceito ganhou até um nome próprio: “mindful leader”.

“Os líderes mais poderosos são aqueles que estão no agora. Eu não sei o que vai acontecer daqui a alguns meses. Eu não sei o que será dos nossos empregos, mas, agora, temos este momento e podemos ser conscientes”, reflete.

Segurança e disposição ao erro

Head de produtos de IA da plataforma de soluções para educação e carreira ETS, Tanner Jackson conduziu uma pesquisa global com milhares de profissionais sobre inteligência artificial e suas habilidades. No estudo, 60% dos entrevistados disseram se sentir pressionados para adotar ferramentas de IA mesmo sem se sentirem preparados.

Mais da metade (65%) afirmaram usar as ferramentas apenas para se sentirem competitivos; 69% não têm uma visão clara de como serão os trabalhos no futuro; e 84% acreditam que estratégias de requalificação profissional são uma necessidade.

Para Jackson, nesse momento de incerteza, uma das características mais necessárias em um ambiente de trabalho seria a disposição ao erro. “Isso é a segurança psicológica. Se você pune as pessoas por tentarem algo que não funcionou, elas não vão crescer. Você não vai crescer. É preciso ter essa disposição ao erro”, aponta o executivo.