SXSW

Amy Webb mata Trend Report e inaugura era das convergências

Futurista propõe trocar tendências por convergências diante de um cenário de destruição criativa global

i 14 de março de 2026 - 20h36

Amy Webb mata Trend

Amy Webb no SXSW 2026 (Crédito: Reprodução)

O público acostumado a aguardar por horas, em longas filas no South by Southwest, para ver a CEO do Future Today Strategy Group, Amy Webb, encontrou na manhã deste sábado uma experiência – no mínimo – diferente. A futurista transformou a sala do evento em um velório.

Logo na entrada, a organização distribuiu lenços de papel para os presentes na sala decorada com velas, coroas de flores e música instrumental ao estilo funeral norte-americano. Em tom solene, Webb subiu ao palco e anunciou que aquela era a “morte” do  Emerging Tech Trend Report, relatório de tendências criado pela futurista em 2008 e apresentado no SXSW há 15 anos.

Amy Webb

Sala ganhou ambientação de um funeral (Crédito: Taís Farias)

Para Webb, esse não é só o fim de um de seus produtos mais populares, mas um elogio fúnebre para todo o conceito de relatório de tendências. Na prática, as mudanças na tecnologia, economia, política e sociedade estariam acontecendo de forma tão acelerada que um relatório estático não consegue mais acompanhar a realidade e se torna obsoleto quase imediatamente.

“Em muitas organizações, esses relatórios tornaram-se uma muleta, em vez de um catalisador para a estratégia e alocação de capital. Por isso, não fazia sentido ignorar toda essa mudança e continuar fazendo exatamente a mesma coisa ano após ano. Afinal, não se pode voltar no tempo”, reconheceu a futurista.

Mas, toda despedida é uma oportunidade de celebração, pontuou a executiva. Com a participação da Texas Longhorn Band, banda marcial da Universidade do Texas, ela encerrou o tom de funeral e apresentou sua nova metodologia.

Um dos motivos principais da aceleração das mudanças e, consequentemente da obsolescência das tendências, seria o fato de o mundo estar vivendo um período de destruição criativa, conceito cunhado por Joseph Schumpeter, na década de 1940.

A destruição criativa descreve o capitalismo como uma tempestade constante que vai sempre destruir antigas indústrias e criar novas.

“Destruição criativa significa a criação de novos produtos, tecnologias, modelos de negócio, mercados e organizações. E a destruição de empresas já estabelecidas, empregos antigos, formas obsoletas de produzir e velhas maneiras de vender”, apontou Webb.

Nesse cenário, ao invés de identificar tendências e responder a elas, seria preciso se antecipar às tempestades antes que elas destruam seus negócios. Para isso, Amy e sua equipe do FTSG criaram uma metodologia para identificar essas tempestades não por meio de tendências, mas de convergências.

Enquanto uma tendência mostra o que está mudando, a convergência reúne uma série de sinais individuais para apontar que transformações serão inevitáveis. “E o que você faz com a convergência? Você a usa para a estratégia. Você a usa para definir o que acelerar, o que pausar ou o que reformular completamente à medida que começa a agir”, explicou Webb.

As convergências seriam, ainda, mais difíceis de reverter já que envolvem vários sistemas pressionando por uma mudança. A partir dessa metodologia – e no lugar do Tech Report -, a futurista apresentou o Convergence Outlook, um documento com dez das convergências mapeadas pela equipe do FTSG nos últimos meses.

Entre elas, está a inteligência viva, abordada por Webb no último ano. A inteligência viva é definida pela convergência entre a inteligência artificial, a biotecnologia e sensores avançados. Juntos, eles seriam capazes de criar um superciclo de transformação tecnológica. A futurista também apresentou três convergências inéditas de seu relatório:

Human augmentation

Historicamente, o ser humano sempre usou recursos externos para melhorar sua performance e driblar desafios. Foi assim que a medicina evoluiu, por exemplo. Mas, agora, essa lógica chega a um novo patamar.

“Human augmentation é o uso da tecnologia e da biologia para aprimorar, estender ou otimizar as capacidades físicas e cognitivas humanas além de seus limites naturais”, explicou Webb. Esse pode se dar tanto em ferramentas externas, quanto em mudanças internas.

A futurista citou soluções como um exoesqueleto que permite que o usuário caminhe ou mesmo escalem por mais tempo, colchões inteligentes que otimizam o desempenho do sono com inteligência artificial, mas também o avanço comercial dos óculos inteligentes que acrescentam uma camada sintética de informação à experiência por meio de sensores.

“Seu corpo agora é uma plataforma. Sua mente possui um leitor, um intérprete, um controlador. Muito em breve, optar por ficar de fora significará ficar para trás”, pontuou com algumas provocações como o que aconteceria se as empresas começassem a exigir esse tipo de amplificação como um requisito profissional?

“Pela primeira vez na história, alguns humanos serão objetivamente melhores que outros”, concluiu.

Unlimited Labor

O Unlimited Labor, ou mão de obra ilimitada em tradução livre, será o uso de sistemas automatizados para produzir em escala e sob demanda sem a participação humana. Essa transformação estaria pautada na convergência de três grandes categorias: os sistemas agênticos, a robótica e a automação das fábricas.

Para a futurista, os agentes já traçaram um limiar em que não são mais um recurso alternativo, mas a interface padrão para realizar tarefas. “A próxima internet não está sendo feita para você, mas para os agentes”, descreveu.

É a conexão com esses agentes, por meio da inteligência artificial, que permite que os corpos robóticos avancem em autonomia e acelerem a velocidade do seu aprendizado. Em um efeito cascata, as indústrias passarão a ser desenhadas não para atender funcionários humanos, mas corpos robóticos.

O acesso ilimitado à mão de obra automatizada muda uma lógica centenária em que o crescimento econômico dependia do acesso a grandes contingentes de mão de obra humana.

“Pela primeira vez na história da humanidade, é possível ter escala sem população, rendimento sem salários e produção sem pessoas — o que significa que muita gente está prestes a mergulhar na incerteza econômica”, avaliou a CEO do Future Today Strategy Group.

Emotional Outsourcing

Por fim, em sua última convergência, Webb tratou de um fenômeno não só cultural, mas emocional. Ela explica que, até agora, o ser humano sempre dividiu suas dores, angústias e desejos com outras pessoas. Eles são amigos, médicos, familiares, guias espirituais. Mas, isso está mudando.

“A terceirização emocional é a transferência do conforto, da validação e da companhia das pessoas para as máquinas. E isso criou um mercado multibilionário em rápida expansão, composto por produtos e serviços projetados para substituir e monetizar as conexões humanas reais”, explicou.

A futurista citou exemplos reais de como as pessoas estão usando a inteligência artificial como companhia, parceiro amoroso, terapia e até objeto de fé. Nesse processo, a carga e a regulação emocional migram das pessoas para as máquinas.

“Assim que as máquinas passam a lidar com suas necessidades emocionais básicas, você deixa de esperar isso dos outros e, com o tempo, nos tornamos dependentes. Você simplesmente para de processar situações e sentimentos difíceis por completo. E, finalmente, sua estabilidade emocional torna-se dependente de plataformas”, aponta Webb.