SXSW

Jamie Lee Curtis: de rainha do grito à rainha da manifestação

Atriz divide sua trajetória para se tornar produtora aos 67 anos e reflete mudanças do gênero terror

i 14 de março de 2026 - 19h56

Uma conversa sobre como eu agora sou um chefe aos 67 anos. A descrição do painel de Jamie Lee Curtis no SXSW 2026 foi de autoria da própria atriz. Estrela da trilogia Halloween, Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo e O Urso, Jamie adicionou uma nova carreira ao seu currículo aos 67 anos como produtora executiva.

Em 2019, a atriz lançou a Comet Pictures, responsável pelo filme de terror Mother Nature (2023), o drama O Autocarro Perdido (2025) e as séries Melou (2024) e Scarpetta (2026). No South by Southwest 2026, Jamie estreia o thriller Sender.

Jamie Lee Curtis

Jamie Lee Curtis: “Estamos em uma sociedade que está nos dizendo que não precisamos uns dos outros, que podemos confiar na tecnologia. Eles [IA] não são reais” (Crédito: Thaís Monteiro)

A entrevista cedida a H. Alan Scott, editor sênior da Newsweek, durante o festival, foi composta de uma sequência de histórias sobre a realização dos diversos filmes da carreira de Jamie, seus encontros inusitados e cômicos.

Diante das várias situações narradas pela atriz, um tema em comum prevaleceu: filosofia pessoal de manifestar seus objetivos de vida e a importância que dá para a conexão humana.

De atriz à produtora

A transição para a produção começou há muitos anos, quando Jamie filmava True Lies (1994). À época, folheando um catálogo de leilão de Arnold Schwarzenegger, a atriz se deparou com uma escultura de art deco de uma mulher em cima de um cometa e decidiu que teria uma produtora chamada Comet Pictures com a escultura como logotipo.

A materialização desse plano aconteceu mais de 15 anos depois. No entanto, uma foto de sua filha mais nova apontando para a lua se tornou o logotipo.

A atriz atribui à manifestação parte de seu sucesso em realizar desejos e sonhos. “Me chamar de produtora ou de chefe é besteira. Eu sou exatamente como vocês. Sou cheia de ideias, conflitos e contradições. Eu me amo e me odeio, provavelmente em doses iguais. Sou desafiadora. Provavelmente minto às vezes. Posso dizer uma coisa para você e querer dizer algo diferente para outra pessoa. Tento, porque estou sóbria, não falar mal das pessoas com frequência. Meu ponto é: nós somos humanos. Tudo é só sobre manifestar o próprio destino. Cada um de vocês tem dentro de si a capacidade de manifestar o próprio destino. Estou dizendo isso por experiência própria, porque lembrem-se: eu era apenas uma jovem atriz que tinha sido demitida de um contrato com a Universal Studios e achava que teria que voltar para a faculdade”, afirmou.

Desde então, a produtora fez trabalhos inspirados em ideias da atriz a partir de fatos reais – como o filme O Autocarro Perdido, que se baseia na história de um motorista de ônibus e uma professora que salvaram crianças durante um incêndio na Califórnia – ou adaptadas de livros dos quais a atriz adquiriu os direitos de exploração para a TV.

Um dos projetos mais recentes, a série da Amazon Prime Video, Scarpetta, é fruto dos livros de Patricia Cornwell. Nicole Kidman é protagonista da série. Ela interpreta Kay Scarpetta e Jamie interpreta sua irmã, Dorothy Farinelli.

No entanto, Jamie atribui à trilogia Halloween  a função de catalisadora para sua carreira de produtora. Ela usou o que ganhou com o projeto para garantir acordos de desenvolvimento para novas histórias.

Através da produtora, a atriz também visa apoiar diretores iniciantes.

Conexões humanas

Em sua vida pessoal, Jamie busca viver de forma intencional, respondendo, todos os dias, duas perguntas que aprendeu de um livro de meditação: Eu aprendi a viver com sabedoria? Eu amei bem?

Ela expressou ceticismo em relação à inteligência artificial, enfatizando que as máquinas não possuem sentimentos reais e que a conexão humana é o que realmente importa.

“Estamos em uma sociedade que está nos dizendo que não precisamos uns dos outros. Estamos em uma sociedade que está nos dizendo que podemos confiar na tecnologia. Eles [IA] não são reais. Eles não se importam com você. Eles nunca vão se importar com você. Eles não vão chorar quando você morrer”, afirmou.

Rainha do terror pelo fim do binarismo

Apesar de ser reconhecida como uma “scream queen” (rainha do grito, em tradução livre), Curtis admite que não é uma fã pessoal do gênero de terror, mas valoriza o aspecto de filmagem independente que o gênero permite e o cronograma mais curto de filmagem.

Além disso, ela celebra como o gênero trouxe mais destaque para mulheres e diversidade na frente das câmeras. “Estou feliz que mais mulheres estejam recebendo reconhecimento. Mais pessoas de cor estão recebendo reconhecimento. Mais gêneros estão sendo apreciados. Diversidade, inclusividade, as palavras que Donald Trump está tentando apagar de nossa linguagem, o que é uma abominação”, afirmou.

A produtora também comemorou o fato da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas estar abraçando filmes de terror, como Sinners, que foi indicado ao Oscar este ano. Ela relacionou essa evolução com a necessidade da sociedade abandonar binarismos.

“É fantástico o fato de a Academia estar acompanhando isso, mudando e crescendo como qualquer boa instituição deveria, como a nossa Constituição deveria. Ela foi projetada para ser emendada. Não foi projetada para ser uma ideia rígida e binária. Foi projetada para crescer e fluir à medida que as pessoas crescem e fluem. Mas nós nos tornamos binários em nossas ideias, e a interpretação desse binarismo é o que nos levou a mais uma guerra. Quer dizer, é simplesmente terrível”, disse.