SXSW

Spielberg: “Todos os meus filmes vêm dos meus piores pesadelos”

Diretor fala da importância da experiência proporcionada pelo cinema e da criação movida pela intuição

i 13 de março de 2026 - 22h16

Steven Spielberg

Steven Spielberg

Quem foi ao cinema assistir o último filme dirigido por Steven Spielberg, lançado em 2022, se deparou com o rosto em close up do cineasta, logo antes da exibição do longa.

Ele aparecia na tela agradecendo a quem teve a disposição de sair de casa, comprar um ingresso e se sentar na poltrona de uma sala de exibição para conferir aquela que considera a produção mais pessoal de sua vida.

The Fabelmans fala de um menino apaixonado por filmes que descobre uma fuga da vida real quando aprende a contar as próprias histórias através das câmeras.

“Todos os meus filmes vêm dos meus piores pesadelos”, disse Spielberg a um atento público do South by Southwest nesta sexta-feira, 13. Ainda na infância, os medos que eram fruto de sua imaginação eram alimentados pelos filmes que via.

Fantasia, animação experimental da Disney embalada pela música clássica, tirou seu sono por um ano. Ele então começou a encontrar mecanismos para exorcizar seus medos ou, ao menos, colocá-los em outro lugar.

Nascia ali o diretor de alguns dos títulos mais aclamados da história do cinema, como E.T.: O Extraterrestre, Indiana Jones e o Templo da Perdição e Tubarão.

Ao longo de sua carreira, sua filmografia – marcada também pela atuação como produtor e roteirista (ele produziu e escreveu Goonies e Poltergeist, por exemplo, mas não os dirigiu) – passou dos enredos com apelo ao público infanto-juvenil a temáticas mais sisudas, como guerra (A Lista de Schindler, O Resgate do Soldado Ryan) e ascensão de máquinas inteligentes (Minority Report).

Questionado pelo seu interlocutor Sean Fennessey, apresentador do podcast The Big Picture, se essa transição representaria uma mudança no modo com que o diretor encara o mundo, Spielberg respondeu que as escolhas de qualquer cineasta são regidas pelo subconsciente.

“Conforme fiquei mais velho, tornei-me mais ciente do mundo como ele era, como ele é e como espero que seja um dia. Isso sempre vai reverberar no trabalho”, refletiu.

E.T. phone home

Anos depois, no entanto, ele regressa à ficção científica com Disclosure Day, com estreia marcada para maio. Depois de Obama ter dito em um podcast de que ETs existem, Spielberg comemorou: “Isso é ótimo para Disclosure Day”. Pouco depois, porém, o ex-presidente voltou atrás e dizer que não há evidências que comprovem a existência de alienígenas. “Ninguém deveria pensar que somos a única civilização inteligente em todo o universo”, disse.

Boa parte das produções realizadas pelo diretor são ambientadas em cenários do passado. Ele admitiu a Fennessey que sempre foi atraído pela história pregressa, como biografias sobre o Holocausto e a Guerra Civil, mas isso não quer dizer que ele não se interesse por produções contemporâneas. Ao contrário: viu todos os filmes, documentários e curtas indicados ao Oscar e enalteceu, durante a entrevista, Hamnet, de Chloe Zhao, e Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson, ambos indicados pela Academia.

Inspiração a partir do inesperado

A depender do filme que irá fazer, Spielberg prefere dispensar storyboards. Foi o caso em Lista de Schindler e O Resgate do Soldado Ryan: “São as situações mais divertidas para mim, porque me surpreendo. Acordo de manhã e sei quantas páginas preciso preencher, mesmo que ainda não saiba ao certo como preenchê-las. É empolgante”, contou. “Nosso melhor traço é a intuição. Se você realmente ouvi-la, se deixá-la te conduzir ao longo do dia, será muito melhor do que ficar intelectualizando tudo”, acrescentou.

Prestes a completar 80 anos, Spielberg continua sendo um defensor apaixonado da experiência proporcionada pela tela do cinema. Embora considere a Netflix uma “empresa ótima para se trabalhar”, reforçou a importância de as pessoas se reunirem em ambientes grandes, como o SXSW, para ver e ouvir a alguma coisa ao mesmo tempo.

“Existe um impulso coletivo de uma boa história que nos atinge ao mesmo tempo, exatamente do mesmo jeito. Isso é comunidade, comunicação e se relacionar com o outro. A experiência real acontece quando conseguimos influenciar uma comunidade a congregar num espaço estranho e escuro e, ao final de uma experiência cinematográfica muito boa, estamos todos reunidos. Caminhamos para a luz do dia e não há nada como isso. Acontece nos cinemas, nos shows e acontece no balé e na ópera”, disse, alfinetando Timothée Chalamet, que, em entrevista recente, disse que ninguém mais liga para cinema e ópera.