Ana Maria Gonçalves: “A narrativa é fundamental para a sobrevivência da espécie”
Autora de "Um defeito de cor" aborda seu percurso da publicidade à literatura, o poder transformador das histórias e o peso que as palavras carregam

Ana Maria Gonçalves, contou no MNB 2026 que aprendeu de Millôr Fernandes a diferença entre ter uma história e ter um livro (Crédito: Eduardo Lopes/ Maquinadafoto)
Primeira mulher negra a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras (ABL), o que ocorreu ano passado, quando a instituição tinha 128 anos de história, a roteirista, dramaturga e escritora Ana Maria Gonçalves repassou sua trajetória de vida no palco do Marketing Network Brasil, ressaltando o que a levou ao time de imortais da entidade e como a projeção conferida por esse fato tem reverberado em seus projetos atuais.
Formada em Publicidade e Propaganda pela Faap, em São Paulo, chegou a estagiar em grandes agências, no início dos anos 1990, como DPZ, Thompson e Norton. Mas já sentindo o machismo desses ambientes, criou a sua própria agência na área de merchandising – que manteve aberta de 1991 a 2000.
O cansaço de conciliar a função de redatora e de liderança do negócio, ao lado da sócia que também era criativa, a fez começar a pensar em mudar de área. Movida por sinais, Ana Maria estava na recepção de um cliente quando leu uma reportagem numa revista sobre uma CEO que tinha largado tudo para viajar o mundo, tendo feito antes um obituário/balanço do que tinha sido sua vida até ali.
Com 29 anos, decidiu fazer o mesmo. “Cheguei em casa e escrevi meu obituário também. Percebi que não era aquilo que eu queria deixar para o mundo, queria mais”, contou. Na mesma época, começou a ajudar uma amiga a fazer um roteiro sobre outros povos latinos vivendo em São Paulo. Ao visitar uma livraria Fnac para fazer pesquisa para a criação desse roteiro, cai em cima dela – literalmente – um livro de Jorge Amado (Bahia de Todos-os-Santos: Guia de ruas e mistérios), cujo prólogo era um convite para visitar o estado, o que Ana Maria sentiu como uma mensagem direcionada a ela. No meio desse texto, Amado dizia que era preciso ainda “um jovem historiador baiano contar a história da rebelião Malê”.
Não sendo baiana (é nascida em Ibiá, Minas Gerais) nem historiadora, ainda assim ficou curiosa sobre a história desses escravizados islâmicos cultos na Bahia de 1835 que ambicionaram estabelecer um califado baiano: um estado muçulmano independente do Brasil, onde não haveria escravidão. Uma figura em especial – Luísa Mahin – chamou sua atenção, por ser uma mulher envolvida num movimento rebelde.
Foi a partir daí que veio a inspiração para a personagem Kehinde, de Um defeito de cor, bestseller de Ana Maria que aborda a escravidão e o contexto da Revolta dos Malês. Ela larga a vida em São Paulo e muda para a Ilha de Itaparica, que já conhecia por causa de outra referência literária: João Ubaldo Ribeiro, autor de Viva o Povo Brasileiro.
As pesquisas a fizeram acreditar na literatura como substituta da publicidade. Foram cinco anos escrevendo e reescrevendo o texto, que foi publicado pela Record sob recomendação direta de Millôr Fernandes, que Ana Maria conheceu por intermédio de um amigo jornalista d’O Globo. Não sem antes ter ouvido de Millôr, que virou amigo e editor das inicialmente 1,4 mil páginas: “Você tem uma história, mas não tem um livro”. Somente na versão reescrita é que houve a recomendação aceita por Luciana Villas-Boas, na editora Record.
A força das palavras
Desde então, o livro – que tem quase mil páginas – nunca deixou de ser bem vendido, mas teve picos, como em 2017 (por conta da Flip), 2022 (base para uma exposição que passou por Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo) e 2024 (quando foi tema da Portela, saindo da bolha da literatura). Hoje, a obra está na 49ª edição, tem perto de 450 mil exemplares vendidos e trouxe a visibilidade que a levou à ABL.
Essa projeção passou a ser utilizada por Ana Maria em seus projetos da Terreiro Produções (livros, roteiros, peças) e do Instituto Terreiro (que trabalha em resgates imagéticos do período de escravidão do Brasil).
“É muito instigante entender o quão transformadora e potente é a literatura, a contação de histórias. Sou muito estudiosa dos conceitos e efeitos da escrita”, ressaltou, citando o dramaturgo mexicano Guillermo Arriaga, para quem um artista é alguém que vai mais fundo numa floresta, alcançando um lugar onde ninguém nunca esteve, encontra lá uma pessoa que ninguém nunca viu, ouve dela uma história que nunca foi contada e volta para recontar.
Para a escritora essa é a melhor metáfora da criança interior que guarda o imaginário que a vida adulta nos faz ir perdendo, sendo que a narrativa é tão fundamental para a sobrevivência da espécie quanto dormir, se reproduzir e respirar. Antes da constituição de cidades, lembrou, os primeiros humanos já registravam histórias nas paredes das cavernas.
Ela lembrou, ainda, que o conflito é o que costuma ser a estrutura básica de todas as histórias. Lê-las deixa marcas: choramos por pessoas que sabemos que não existem, no caso da ficção. Mas essas histórias tornam as pessoas mais abertas a outras histórias e culturas. “Pessoas que leem ficção têm um nível mais alto de empatia”, disse a escritora, enfatizando também a importância de se perguntar sempre “quem está contando uma história” e se faz sentido em nossa vida real.
Nesse ponto, resgatou a polêmica que envolveu a campanha de 150 anos da Caixa Econômica Federal, que representava Machado de Assis, fundador da ABL e cliente da instituição financeira, como um homem branco. Após críticas, o filme foi refeito tendo como protagonista um ator negro, como era Machado. Usou o exemplo para refletir sobre a estrutura que levou a isso: ninguém no cliente, produtora ou agência questionou o “black face”, provavelmente, pela falta de diversidade nesses lugares, que contribui com o racismo na sociedade.
Ana Maria abordou, então, conceitos como “imagem de controle”, aquelas usadas como “automáticas”, mas que têm a intenção de um grupo por trás, e o de epistemicídio, presente na obra de Sueli Carneiro, alusivo à anulação ou desqualificação do conhecimento e capacidade intelectual produzidos por grupos racializados, em especial a população negra, como estratégia de dominação.
“Se o racismo é estrutural, a estrutura é feita de pessoas”, disse, emendando uma crítica à neurocientista Carla Tieppo pelo uso do termo “escravinhos” para se referir a agentes de IA, em sua palestra no mesmo evento, no dia anterior, já que “a associação entre trabalho barato e negros não é neutra no Brasil”. Apesar do pedido de desculpa de Carla, Ana Maria classificou o episódio como “racismo recreativo”, em que o uso de certos termos, piadas e memes muitas vezes faz o ofendido ser acusado de falta de humor e torna o racismo “aceitável”.
Se o ser negro era visto como “um defeito de cor”, são muitos os episódios cotidianos que evidenciam que ainda se vive, no Brasil, “um defeito de sociedade”, que obras como a dela e as discussões que suscitam vão, devagar, ajudando a mudar.