Marketing

Por menos automatismo e mais dopamina

Carla Tieppo, neurocientista, avalia que a IA liberará um novo “superciclo” humano, pautado pela intencionalidade

i 15 de maio de 2026 - 16h26

Carla Tieppo, neurocientista, participa do MNB 2026

Carla Tieppo, neurocientista, participa do MNB 2026 (Crédito: Eduardo Lopes/Maquinadafoto)

Neurocientista na ativa há mais de 30 anos, a Dra. Carla Tieppo afirmou ter percebido, ao longo de sua trajetória, a importância da disciplina para além dos ambientes médicos, e passou a aplicar alguns de seus conceitos em atividades nas empresas e escolas.

Uma das palestrantes em destaque na programação do Marketing Network Brasil 2026, ela mostrou como o entendimento do funcionamento do cérebro levou a avanços como a aplicação da linguagem natural para as interfaces de voz, na interação entre homens e máquinas. Mas também ressaltou que muitas vezes o sistema nervoso do cérebro, que existe para gerar respostas rápidas, apesar de ter também desenvolvido um sistema lento, pode levar as pessoas a erros de interpretação ou “ilusões de ótica” (brincou com testes do tipo envolvendo a plateia, inclusive).

Em nada menos que 85% do tempo usamos o sistema rápido, afirmou ela lembrando estudo de Daniel Kahneman que resultou no bestseller Rápido e devagar. Por outro lado, o cérebro preditivo, confrontado com as incertezas sobre o futuro leva 25% da população a viver com ansiedade, uma vez que os sistemas automáticos (flow) também não estão mais sendo suficientes para dar conta da insegurança da vida atual.

Pregações sobre o controle das emoções e de uma disciplina excessiva, aponta Carla, nos levaram a negligenciar de certa forma o sistema emocional (também ligado ao cérebro, a despeito da fama da racionalidade atrelada a esse órgão). “Emoções são base da tomada de decisões. E os que dizem que não são emocionais são os piores, porque são e não sabem”, brincou.

Atualmente, sua aposta é a de que a inteligência artificial (IA) fará “sobrar o filé para a gente”, ou seja, a força dos desejos, que era negligenciada para as pessoas ficarem 100% focadas e atentas, fazendo síntese de dados, agora, poderá ser mais livre pois haverá “um escravinho de IA que faça tarefas automáticas por 30 dólares a assinatura”.

Para a especialista, desejo gera vulnerabilidade quando não está a favor da intencionalidade mais genuína de alguém, ou seja, quando ligado a interesses que não são os da pessoa. E isso tem levado a uma onda de vícios contemporâneos como que vão do fear of missing out (fomo) e síndrome do always on, passando por compulsão alimentar, pornografia, jogos eletrônicos e procrastinação, por exemplo.

Em seus estudos, ela liga o sistema dopaminérgico à motivação. “Esse é um dos nossos sistemas mais complexos, porque a dopamina escolhe comportamentos o tempo todo”, pontuou. E esse fator varia em função da nossa expectativa de recompensa imediata pela ação e da nossa expectativa do esforço necessário para a ação. Onde está a nossa dopamina está a nossa intenção profunda, que nem sempre coincide com a declarada.

Assim, para a neurocientista, o futuro requer um “superciclo” humano, em que criatividade seja mais ligada a inovação/valor; curiosidade não seja recriminada, mas faça parte do lifelong learning; agilidade pressuponha tolerância ao risco; adaptabilidade esteja ligada ao conceito de antifragilidade de Nassim Tabeb, ou seja, aprender com o caos; pensamento ultra-sistêmico leve à flexibilidade cognitiva; e a colaboração tenha mais influência social.

Essa curva da exponencialidade humana, avalia Carla, será pautada, então, pela intencionalidade.