Lourival Sant’Anna e sua guerra contra o medo
Experiente na cobertura de conflitos armados, jornalista elencou fatores que ajudaram a contornar esse sentimento durante seu trabalho e como as situações vividas o ensinaram a valorizar o tempo presente

O jornalista Lourival Sant’Anna participa do MNB 2026 (Crédito: Eduardo Lopes/ Maquinadafoto
Hoje analista internacional da CNN, o jornalista Lourival Sant’Anna tem uma carreira longa na cobertura de guerras – já foram 15 grandes conflitos – e contou aos participantes do Marketing Network Brasil 2026 que sempre ouvia das pessoas uma pergunta: “Você não tem medo?”.
Sua resposta era “sim, e detesto sentir medo”, mas associava esse trabalho arriscado nos fronts a uma forma de esquecer de si mesmo, pois nas guerras há coisas muito mais importantes e reais da vida das pessoas em jogo.
Quando começou a investigar o próprio medo, contou o correspondente, percebeu que o sentimento era maior em dois momentos: no avião, quando ainda estava a caminho de uma guerra, porque era a imaginação funcionando e isso costuma escalar aquilo que ainda não existe, de fato; e à noite, quando ficava sozinho.
Tendo a vida ameaçada mais de uma vez nessas coberturas, o jornalista disse que sempre se arrependia ao refletir que estava ali por vontade própria e poderia não ter a chance de voltar para casa e rever os filhos – fez a plateia rir ao contar que em uma dessas ocasiões enquanto o exército israelense bombardeava uma rota que ele percorria o sheik que o acompanhava no mesmo carro ria dizendo “vamos para o paraíso hoje”, o que, felizmente, não aconteceu naquela ocasião.
Mas sempre percebeu que o medo cresce quando se está centrado em si mesmo e diminui quando focado no trabalho. E isso, de certa forma, sempre o motivava a uma próxima “aventura”.
Para Sant’Anna, o primeiro passo para lidar com o medo é ter “um objetivo claro” – o que não significa exatamente um objetivo fixo, pois este pode mudar. Outro aspecto que destaca é a “sinceridade no propósito”. Após os ataques do 11 de setembro às Torres Gêmeas, nos EUA, ele viajou ao Oriente Médio para saber como os Talibãs justificavam aquele ato e por que protegeram Bin Laden. Entrevistou teólogos e sheiks sobre isso, conseguiu ouvir membros do próprio Talibã e, em seguida, foi expulso. Depois, soube que a pessoa que o ajudou a chegar até aqueles membros arriscou a própria vida ao fazer isso, porque viu sinceridade em seu propósito de entender e não julgar. A história virou seu primeiro livro: Viagem ao mundo dos Taleban, de 2002.
Sant’Anna conta que tinha aprendido que quando se fala a verdade se economiza energia interna e isso ajuda a conseguir aliados externos. Mas ele também já teve de mentir em determinados contextos, como quando fingiu ser turista para conseguir retratar a situação da população da Coreia do Norte, oprimida pelo exército daquele país. Fazendo coisas altamente proibidas, como fotografar militares, conta que baixava as imagens no escuro do hotel, por medo da vigilância do regime.
Entre seus mecanismos para lidar com o medo, aprendeu também a considerar que é preciso “descansar na incerteza”, no sentido que é preciso aceitar o acaso. Por mais que se planeje uma ação, isso deve ser feito sem a ilusão de controle. “Se você dobra a aposta, isso só aumenta a ansiedade, já quando aceita o acaso, tira um peso dos ombros e te confere até mais coragem”, argumentou.
Confiar na experiência como algo que se repete de uma mesma forma já prejudicou – ou ameaçou prejudicar – seu trabalho mais de uma vez, revelou também. Cada experiência é única, logo, algo que deu certo antes pode não se repetir, já que tudo muda o tempo todo. Assim, ele destaca a importância de não se esquecer que experiência é repertório e não regra.
Em situações altamente arriscadas, o instinto foi o que determinou sua sobrevivência, indicando em que situações era melhor agir ou não. E insistir ou desistir é algo que sempre será determinado pela razão, pontuou ainda o jornalista. Em todos os casos, percebeu que a empatia, ou seja, dar menos importância a si mesmo e se concentrar mais no outro ser humano ajudava a minimizar as dores dos dois lados – nesse aspecto, contou sempre se comover ao rever, em um dos vídeos que gravou, uma cidadã de uma região de conflito no Oriente Médio desejando que ele “voltasse em segurança para seu país”, sendo que era ela vivendo em meio a uma guerra.
As guerras, por fim, trouxeram ao jornalista a consciência da importância de “viver o momento presente”, já que nas situações extremas, não se tem tempo de racionalizar sobre passado ou futuro.