SXSW

Impacto e regeneração: uma nova era para o ESG

Especialistas avaliam recuo da agenda e sugerem novos modelos para garantir a existência e sustentabilidade de negócios voltados à sociedade e ao planeta

i 20 de março de 2026 - 17h52

Em 2015, o ESG passou a ser integrado pelo mercado financeiro, que cravava olhar para empresas com práticas ambientais, sociais e de governança. Nos últimos anos, a retração da sigla em mercados como o norte-americano, e até mesmo o europeu, por motivações políticas e falta de regulamentação, vêm atribuindo novas nuances ao conceito.

A percepção de que o ESG “morreu” foi a discussão central do painel ESG Is Dead. Now what?, em que profissionais da área justificaram o recuo com o greenwashing ou impact washing ou cumprimento de requisitos regulatórios sem que mudanças sistêmicas e de impacto sejam, de fato, efetivas. Dado, ainda, o contexto político, muitas empresas e fundos mantém iniciativas relacionadas à agenda, mas vem apostando menos na divulgação.

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Painel ESG Is Dead. Now what? contou com representantes do Justice Climate Fund, RSF e Boston Impact Initiative (Crédito: Giovana Oréfice)

“Coletivamente, em todo o mundo, estamos criando resultados que, em todo o espectro político e em todos os outros que existem, ninguém deseja. O que isso significa se você é um investidor? Será que podemos direcionar os investimentos de forma a gerar retorno financeiro, o que é importante, mas também construir sistemas mais limpos, ajudar a criar comunidades prósperas e contribuir para fechar as muitas lacunas que existem?”, avaliou Jasper van Brakel, presidente e CEO da RSF.

Alex Amouyel, presidente e CEO da Newman’s Own Foundation, encara o recuo como positivo: “Iniciativas e empresas falsas estão saindo de cena”, afirmou durante a sessão Radical Generosity at Scale: the 100% for Purpose Model. A fundação destina 100% dos lucros gerados a partir da venda de molhos e alimentos que fabrica à organizações que assistem crianças.

Compromisso com a comunidade

Os especialistas defenderam a efetividade das ações por meio do impacto local, partindo de uma visão holística do ecossistema sob a lente da regeneração: o capital passa a ser ferramenta, em vez de objetivo final, para que companhias possam focar na circularidade e resultados sustentáveis a longo prazo.

O CEO do Justice Climate Fund, Amir Kirkwood, endossou a necessidade de abordar questões como eficiência energética aliada à qualidade da educação e saúde, por exemplo. “Esses são fatores que envolvem não apenas aspectos sociais e físicos, mas também econômicos”, defendeu.

Acessibilidade para o impacto

Kirkwood ainda ressaltou desafios como o acesso limitado e o uso ainda incompleto de ferramentas que poderiam ampliar o impacto do trabalho de pequenas e médias instituições. Já o presidente e CEO da RSF, criticou a falta de acesso de capital. O setor bancário vem, segundo van Brakel, evitando conceder linhas de crédito a determinadas empresas dado o seu porte ou o nível de complexidade para o retorno esperado.

“Há um awareness emergente sobre o capital, de que ele precisa ser mais flexível em relação ao tipo de iniciativas em que estão dispostos a ingressar. Caso contrário, não haverá um bom trabalho ao disponibilizá-lo para a próxima geração de empreendedores”, alertou Greg Curtis, diretor executivo do Holdfast Collective, organização sem fins lucrativos da Patagonia.

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Humanitix, Holdfast Collective e Newman’s Own Foundation: lucros 100% dedicados ao impacto (Crédito: Giovana Oréfice)

Em 2022, a família Chouinard, fundadora da Patagonia, anunciou a decisão de transferir todos os lucros da companhia – cerca de US $ 3 bilhões – para entidades que combatem as mudanças do clima. “Os lucros gerados pela empresa não precisam ser rejeitados para que ela continue crescendo e atingindo metas”, disse Curtis. Ao mesmo tempo em que entrega qualidade no vestuário outdoor, também atua na descarbonização, exemplificou.

No ano seguinte, em 2023, o CEO da empresa, Ryan Gellert, foi um dos keynotes do SXSW. “Queremos proteger a integridade da Patagonia, uma empresa que, ao longo desses 50 anos, tentamos modelar uma forma diferente de negócios com fins lucrativos”, comentou em entrevista à jornalista Katie Couric.

Outro obstáculo, citado pela CEO da Newman’s Own Foundation, é a competição com gigantes globais que tem não só mais escala, mas o lucro como prioridade. As grandes corporações muitas vezes operam em mercados com monopólios regionais, dificultando a entrada de marcas menores.

Caminhos comprovados e possíveis

As ações de comunicação e a governança das empresas são efetivas para aumentar visibilidade e credibilidade dos negócios. James Humpherson, general manager global da Humanitix, plataforma de venda de ingressos que destina lucros das taxas de reserva a parceiros beneficentes, citou a “transparência verdadeira e radical”, o que inclui a divulgação pública dos recibos e doações feitas. “É o foco em como isso é transferido para o consumidor final e para a sociedade”, disse.

A mesma premissa da acessibilidade vale para o lado das finanças. Um dos aprendizados do recuo do ESG é a urgência da tangibilidade dos conceitos. Parcerias com empresas fora do ecossistema, bem como a aliança entre dados e storytelling para a criação de uma linguagem que possa ser absorvida pelas comunidades são bem vindas no ecossistema regenerativo.

A Boston Impact Initiative, instituição que investe em empreendedores e gestores de fundos que priorizam a justiça econômica e o desenvolvimento comunitário, hoje permite que investidores não qualificados entrem com aportes a partir de US$ 1 mil, atuando lado a lado com investidores credenciados, que investem até US$ 3 milhões.

“Varejistas e investidores não qualificados não têm a folga de recursos excedentes para absorver perdas e riscos da mesma forma que os que têm mais dinheiro”, justificou Lubna Maria Elia, diretora do Impact Capital Lab, da Boston Impact Initiative.