Fernanda Gentil terá 10 marcas em cobertura da Copa do Mundo
Em entrevista, jornalista fala sobre Copa, CazéTV e creator economy: "Vamos contar essa história da nossa maneira"

Fernanda Gentil fecha com 10 marcas para Copa do Mundo (Crédito: Divulgação)
Prestes a embarcar para a sua sexta Copa do Mundo in loco, Fernanda Gentil chega ao torneio de 2026 com uma operação que combina jornalismo, criação de conteúdo e presença comercial. A jornalista será âncora da cobertura da CazéTV acompanhando a Seleção Brasileira e, em paralelo, levará para seus canais próprios um ecossistema patrocinado por dez marcas: Guaraná, Asaas, Minuano, Docile, Méqui, Dell, Uber, Pilão, Sony e iFood.
O movimento reforça a consolidação de Fernanda no ambiente digital desde sua saída da Globo, onde passou a desenvolver uma linguagem própria em redes sociais e no YouTube.
Para a jornalista, a assinatura do conteúdo está menos no nome e mais na qualidade, originalidade, criatividade e formato das entregas. Na Copa, além dos bastidores, Fernanda pretende explorar recortes comportamentais do evento, como a rotina das cidades, os encontros de torcedores, os sons do dia, personagens, restaurantes e histórias paralelas ao futebol.
A presença simultânea na CazéTV e em seus próprios canais também dá continuidade a um modelo que ela começou a experimentar na Copa do Catar, em 2022, quando conciliou entradas ao vivo no Mais Você com a produção para suas redes.
Leia a entrevista na íntegra:
Meio & Mensagem – Você está indo para a sua sexta Copa, mas agora com um ecossistema próprio e dez marcas parceiras. Como a sua bagagem no jornalismo tradicional ajuda a equilibrar conteúdo orgânico de publicidade, mantendo a audiência?
Fernanda Gentil – A grande sacada é inserir organicamente a publicidade, a mensagem do cliente, dentro do meu conteúdo. No meu caso, acho que é uma receita muito pessoal, mas só faz sentido se a marca tiver a ver com o que eu faço ou se ela já gostar dos formatos que eu desenvolvo, porque aí conseguimos inserir uma coisa na outra. Eu tenho muita sorte e me sinto muito honrada de ter parceiros que estão abertos a isso, o que não é tão fácil nem tão comum.
Muitas vezes, a marca quer divulgar a mensagem dela usando a vitrine do criador a qualquer custo, deixando muito clara a fronteira entre o conteúdo orgânico e a publicidade. Acho que essa é uma quebra ruim para todos os lados. Fica forçado, fora do tom, como se algum conteúdo tivesse caído ali de paraquedas e, de fato, caiu.
Para mim, o grande segredo é conseguir unir essas duas coisas. Inevitavelmente, faço um ajuste ou outro no meu conteúdo, no meu formato ou no meu quadro para caber a mensagem da marca. Mas são ajustes mínimos, que não desconfiguram o que eu já faço. Quando a marca entende que é importante estar dentro de um formato que já funciona, que já existe e que o público já está acostumado a receber, é o que dá certo.
Meio & Mensagem – Com patrocinadores de segmentos tão diferentes, qual é o maior desafio criativo para garantir que a sua assinatura não se perca nas entregas? O que você prioriza no seu conteúdo?
Fernanda Gentil – Esse é um desafio ótimo. Eu adoro ter marcas e segmentos muito diferentes, porque isso me obriga a trabalhar e flexibilizar o meu conteúdo para que ele faça sentido também para os meus parceiros. Para esta Copa, eu estou muito animada, incentivada e estimulada a criar conteúdos diferentes que façam sentido para todas as partes. Ao mesmo tempo, é importante que eles consigam abraçar os quadros e formatos que eu já faço e que já tenho nas redes e no canal.
O desafio é justamente fazer com que cada conteúdo seja muito proprietário. Ou seja, que ele não deixe de ser meu, mas que também seja completamente a cara de cada marca. Isso exige um mergulho profundo nos roteiros. Eu faço os roteiros e faço questão de estudar muito sobre a marca, principalmente sobre o briefing e sobre o que ela quer comunicar naquele período específico.
O que eu priorizo no meu conteúdo é a minha assinatura. E assinatura não é só o nome em si. É a qualidade, a originalidade, o formato, a criatividade. Esses detalhes, juntos, dão a cara de cada conteúdo, e disso eu não abro mão.
Meio & Mensagem – Nesta Copa, você atua como âncora na CazéTV ao mesmo tempo em que alimenta seus próprios canais. Como enxerga essa simbiose entre as plataformas de terceiros e o seu ecossistema proprietário? Como planeja sua rotina em torno disso?
Fernanda Gentil – Esse é mais um desafio muito gostoso. Ele obriga a minha cabeça a se dividir em muitas partes, desde a escala do dia a dia, na prática, até a criação dos conteúdos, conceitualmente falando. Mas tenho a meu favor o fato de isso não ser uma novidade.
Na Copa do Catar, em 2022, foi a primeira vez que fui nesse formato. Eu ainda estava na Globo, mas fui inicialmente pelas minhas redes. Depois, acabei combinando que entraria ao vivo no Mais Você todos os dias, com informações do que eu estava vivendo. Então foi o primeiro desafio de trabalhar essas duas frentes em paralelo. De um lado, uma entrada ao vivo por dia na TV aberta, em um programa da magnitude do da Ana Maria Braga. Do outro, uma frente always on, porque a internet não desliga. Pelo contrário: além de não desligar, ela é portátil, está em todos os lugares, na palma da mão.
Com a CazéTV não é diferente. Como eles também estão no digital, isso ajuda bastante em relação à linguagem e ao ritmo. Acaba sendo um grande guarda-chuva. Nas minhas redes, faço com a minha cara, dentro do que já sei e estou acostumada a fazer. Na Cazé, claro, faço com a cara da Cazé, cumprindo o papel de âncora da cobertura, que é sempre uma responsabilidade imensa. Eu adoro esses dois mundos e acho que um complementa o outro. Todo mundo sai ganhando.
Meio & Mensagem – O que você planeja, em termos de formatos e quadros autorais, para esta Copa que vá além do tradicional da cobertura digital?
Fernanda Gentil – Concordo que, quando falamos principalmente de grandes coberturas esportivas, o primeiro pilar que se esgota é o bastidor. Todo mundo vem de bastidores, faz bastidores, e eles são importantes. Eu também vou fazer bastidores. Mas, para mim, um território muito fértil de conteúdo é o comportamental: o que acontece numa Copa do Mundo em paralelo à Copa do Mundo.
É a vida daquela cidade e daquele país que muda. É para onde ir, o que fazer, onde os torcedores se encontram, os sentimentos, a montanha-russa emocional de uma Copa. Um dia você encontra um grupo de torcedores radiante; no dia seguinte, esse grupo pode estar fora da Copa, emocionado, chorando ou revoltado. Tudo isso é muito vivo e muito rico em uma cobertura esportiva.
Os meus quadros autorais e formatos para a Copa vão muito nesse sentido. Tenho, por exemplo, um quadro para contar um diário da Copa só com sons. O nome é Sons do Dia. A ideia é mostrar que tipos de sons aquele dia me proporciona e como posso contar a história a partir deles.
Gosto muito de explorar formatos para além do óbvio. Tenho também o Mesa pra Três, um quadro de review de restaurante que faço com a Priscila [Montandon, sua esposa]. Eu brinco que peço uma mesa para três: eu, Priscila e vocês, que são o público. Fazemos esse review de uma forma desconstruída e mais informal, com uma edição diferente, explorando ASMR, a crocância da comida, o gelo no copo, o drink chegando.
Outro formato é o álbum de vídeos, que é simplesmente um registro da vida enquanto ela acontece, sem muita interferência de edição. Isso aproxima muito o público. Desde a maneira de gravar até o formato em si, tudo dá a cara do conteúdo. Eu gravo com uma câmera pequena, nada profissional, com imagem mais crua, sem estabilizador, resolução mais baixa e cortes secos, para trazer essa memória afetiva de fita VHS.
Eu falo muito com a minha equipe: com mais do mesmo a gente não trabalha. Vamos contar essa história da nossa maneira, com a nossa cara, com a nossa língua e com a nossa letra.
Meio & Mensagem – Muitos criadores sofrem com a sazonalidade, mas o seu movimento aponta para uma consistência de longo prazo. O que essa robustez comercial ensina sobre o futuro da carreira de jornalistas que decidem empreender na criação de conteúdo digital no Brasil?
Fernanda Gentil – Na Copa do Catar, que foi aquela primeira nesse formato, eu fui pelas minhas redes e pelo universo digital com 11 marcas. Ali eu já entendi a sede e o apetite comercial que existem para esse tipo de criação.
A Copa é, obviamente, um grande chamariz, uma vitrine absurda. Mas qualquer grande oportunidade que a gente entenda como rica, como um território fértil de conteúdo, pode ser trabalhada dessa maneira. Isso é muito interessante para as marcas. Tudo o que elas querem é colocar seu nome, sua mensagem ou seu produto em lugares legais, em boas maneiras de contar histórias, em personagens interessantes que rendam conversa e troca. Entendi que essa consistência a longo prazo é muito importante para esse mundo.
Felizmente, consegui, aos poucos, com muito trabalho e muito suor, montar uma estrutura que fui entendendo entre tentativa e erro, erro e acerto. Eu sempre brinco, mas é uma brincadeira séria: antes de mergulhar 100% no digital e sair da TV, eu admirava muito os criadores de conteúdo. Agora eu idolatro, porque dá muito trabalho manter uma consistência de conteúdo always on, com qualidade, bem pensado, bem criado, elaborado, produzido e editado.
Hoje, depois de quatro anos 100% nesse mundo digital, acho que chegamos a um formato que funciona para o momento atual. Mas é um mundo em que amanhã o que valia hoje já não vale mais. É um universo vivo, que exige atenção e atualização constantes. Acho que esse é um ponto importante para mim em relação à consistência. Ela não é de agora, tem dado certo, mas para acontecer de verdade exige uma estrutura que, pelo menos no meu caso, só entendi quando mergulhei totalmente nesse mundo.
Meio & Mensagem – Como foi desvincular sua identidade profissional de um crachá institucional para construir sua própria autoridade, e como você enxerga o papel do jornalista nesse novo ecossistema onde o profissional precisa ser, simultaneamente, o talento e o estrategista da própria carreira?
Fernanda Gentil – Seja onde for, não apenas em relação ao crachá institucional de uma grande empresa ou ao mundo digital, a gente não pode abrir mão da nossa credibilidade. Isso envolve diretamente o nosso nome, a nossa imagem e a nossa reputação. Para mim, é algo completamente inegociável onde quer que eu esteja.
É fundamental me certificar, de todas as maneiras possíveis, de que minha reputação, meu nome, minha marca e minha credibilidade, que são o mais importante para um jornalista, não sejam tocados. Isso continua sendo verdade agora no digital e sempre foi verdade na TV, no rádio e por todos os lugares por onde passei.
Sobre o papel do jornalista nesse novo ecossistema, eu enxergo com muito entusiasmo. Gosto muito de pensar por trás das câmeras e fazer na frente delas. Gosto da parte criativa, de me debruçar sobre a estrutura, escrever roteiro, gravar já pensando na edição e imaginar como vai ficar o produto final.
Para quem gosta, eu digo: pode vir, porque é muito gostoso. É muito interessante poder pensar de forma mais 360 graus sobre o trabalho e sobre onde você está mergulhada, em vez de apenas executar uma função na frente da câmera.

