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“O skate me ensinou, me trouxe caráter”, diz Bob Burnquist

Como general manager do X Games Club São Paulo, o skatista traça um panorama da evolução do esporte

i 14 de abril de 2026 - 7h32

Burnquist

Bob Burnquist, Gui Khury e Jeremy Bloom, CEO da X Games League (Crédito: Divulgação)

Ao longo de suas mais de três décadas de carreira, Bob Burnquist conquistou 30 medalhas nos X Games, se tornando recordista da competição, da qual participou de 1995, seu início, até 2017.

Atualmente, seu papel vai além das pistas, ele atua na conexão entre esporte, tecnologia, cultura e transformação social por meio de uma série de iniciativas, como o Instituto Skate Cuida e o festival Jackalope.

Além disso, recentemente, Burnquist assumiu um novo desafio: ser general manager do X Games Club São Paulo, time que integra a nova formatação do antigo X Games, que passou a se chamar X Games League (XGL) e propõe um campeonato entre atletas e equipes.

Para sua equipe, Burnquist selecionou os brasileiros Gui Khury, Giovanni Vianna, Gabriela Mazetto, Luigi Cini e Raicca Ventura, além de Sky Brown, Ryan Williams, Ibuki Matsumoto, Queen Saray e Garrett Reynolds.

O skatista revela que não tem uma estratégia clara para a competição, mas que a inspiração é o mais importante para ele e sua equipe. “A ideia do Clube de São Paulo é de inspirar. O pensamento inicial é inspiração, é fazer com que outros tenham vontade de viver, fazer algo. Essa é uma parte bacana que o X Games tem de diferente de outros esportes”, comenta.

Sua tarefa à frente do X Games Club São Paulo é gerenciar os skatistas, mas também conseguir patrocínio para equipe e possivelmente um investidor para adquirí-la e, inclusive, conseguir trazer o evento para São Paulo.

Na entrevista a seguir, o skatista detalha sua função no cargo de general manager do X Games Club São Paulo, analisa o papel das marcas e patrocínio no esporte, traça um panorama da evolução do skate brasileiro, e enfatiza que o esporte vai além da Olimpíada.

Meio & Mensagem – O skate ganhou escala global com a entrada nos Jogos Olímpicos, mas também passou a conviver com regras mais rígidas. Na sua visão, quais vantagens e desvantagens o skate obteve com essa institucionalização?
Bob Burnquist – Em primeiro lugar, o skate é muito mais cultura, é um estilo de vida. As pessoas não fazem skate e vão para casa. Você anda de skate, vive isso, vive a cultura. Se quer viver como um profissional de skate, você tem várias áreas. Pode competir, trabalhar no meio, ser fotógrafo, videógrafo. É uma questão do que quer mais dentro do universo skate. Ele sempre teve uma pegada underground. Tem ainda isso, porque tem muitos artistas. Me considero mais um artista do que um esportista. Vejo muito mais por esse lado. A minha manifestação é: penso em manobras, monto obstáculos e faço. Não tem um troféu para isso. Existe uma manifestação artística. Você pensa em algo, vai lá e faz. No meio do skate, gravamos isso, filmamos. E depois de várias manifestações e manobras, você monta uma “video part”, que no nosso caso é como um músico lançar um álbum. Esse trabalho de lançar uma “video part” é onde está, de fato, o progresso técnico do skate. Não está nos campeonatos. Os campeonatos são um encaixotado em que você tem que performar naquele momento, naquela hora. Tem juízes, que é subjetivo. Como vai julgar quem é melhor, Picasso ou Dalí? Vai muito de cada um. Mas, conseguimos, dentro dessa ampla visão do skate, se você vai fazer um evento, você trazer umas certas regras. Você monta, pega aquilo e joga esse jogo. É você aceitar que existem áreas, jogos e momentos que você manifesta para ser um skatista profissional. Competi minha carreira inteira, só que não era o que gostava de fazer, eu gostava de aprender manobras em casa, construir obstáculos novos, fazer ações como a do Grand Canyon, tirar as pessoas do sofá. Era para inspirar. Nessa evolução natural do skate, vivemos um momento em que agora tudo é Olimpíada. Fica uma coisa chata, o olímpico chato, sempre o assunto olímpico. Somos muito mais que isso, mas faz parte do nosso movimento agora, elevou a mensagem, expandimos. Sabem que existem verbas que liberam para esportes olímpicos. Tanto é que quando o skate entrou na Olimpíada foi quando fui para a presidência da CBSK para poder trazer o investimento que vinha do COI (Comitê Olímpico Internacional) para a confederação correta, que era a Confederação Brasileira de Skate. Foi uma luta inicial de recurso. Não é porque eu acho que o skate tem que ser olímpico, mas já que é, temos que fazer pela forma certa e, se alguém tem que organizar o skate, é o skatista. As vantagens são que temos essas oportunidades de construção de pistas, os eventos e, de repente, os pais não vão falar “não” se você pede um skate. Quando eu comecei a andar de skate não tinha isso, é que eu tinha pais legais, que me apoiavam contanto que eu fosse bem na escola. Tanto é que eles acharam uma ferramenta, então se eu ia mal na escola, eles tiravam o skate. Pegava a minha atenção. O skate me ensinou, me trouxe caráter. A vantagem de ele chegar ao tamanho que chegou é termos acesso a equipamentos, pista, investimentos. A desvantagem é que fica um pouco fora da nossa realidade. Nem tudo é Olimpíada, quase nada é Olimpíada. Olimpíada é a cada quatro anos. Só que parece que tudo agora é Olimpíada. Acabou a Olimpíada e já falam do próximo ciclo olímpico. Mas é natural, fica esse ciclo, esse vácuo que puxa para a Olimpíada e tem tanta história do skate que é muito mais.

M&M – Qual será a sua missão como general manager do X Games Club São Paulo dentro da reformulação da competição?
Burnquist – Obviamente tenho uma experiência de X Games. Em 1995 foi a minha primeira competição, fui até 2017. Entendo a evolução tanto do skate como eventos, como X Games. Antes o X Games era o único evento do pedaço, inclusive, era conhecido como as Olimpíadas do esporte. No primeiro X Games foram troféus, no segundo introduziram essa história de medalha de ouro, prata e bronze. Era só Olimpíada que tinha isso. No nosso meio era sempre troféu, que considero mais legal. Mas X Games sempre fazia medalhas arte. Tinha toda essa parte cultural inserida, mas era conhecida como as Olimpíadas do esporte. As modalidades que entraram na Olimpíada tiveram que ser desenvolvidas fora da Olimpíada. O park, que é uma das modalidades, existia um evento que era o Park Series. O street, tinha um evento que era o Street League. Só que o vertical, mega rampa, bowl. O skate tem muitas disciplinas, diferente do surf, por exemplo. Então, eles tentam encaixotar mas já tem outra modalidade. O skate não para de evoluir e a Olimpíada é engessada para travar só naquelas modalidades. O X Games League, que agora de X Games virou liga, tinha que se reinventar. Da mesma maneira que o skatista tem que se reinventar e evoluir, os eventos também têm que evoluir. O X Games League veio para, neste momento, entregar uma outra narrativa paralela à Olímpica, mas que coloca uma liga com times dentro do X Games tradicional da performance individual. Nada muda em relação a sua performance, medalha, juízes, tudo é individual, mas esses indivíduos fazem parte do time e esses pontos contam para o campeonato. Isso achei legal. Todas as ligações e reuniões que tive com eles, eu dava a minha consultoria de experiência. E eles foram ajustando tudo o que falava. Se eu entrar, vou conseguir ajudar a moldar uma nova narrativa. Estou ali para falar se algo não tem muito a ver conosco. Se eu sou do meio, vou querer trazer o melhor. Agora, estamos aterrissando cada vez mais num momento bacana. Primeiro, eu trago a identidade, a cultura, tento lembrá-los que sei que é uma liga e vem de outros esportes tradicionais. Os novos investidores são investidores de times de beisebol. Falei: “Legal, mas vamos usar esses elementos de esportes tradicionais, mas trazer a nossa cultura para dentro”. Foi o que falei, identidade, roupa, logotipo, a cultura. Falei: “vou escolher skatistas que me inspiram e eles são do mundo inteiro”. Usei o critério de que, se me identifico com o seu skate, provavelmente vou te chamar. Temos a Ibuki, do Japão, a Queen Villegas, da Colômbia, o Garrett Reynolds, dos Estados Unidos, o Ryan Williams, da Austrália, o Gui Khury, o Giovanni Viana, a Gabriela Mazetto, Raicca Ventura, do Brasil e a Sky Brown, do Japão e da Inglaterra. Tentei montar com bastante gente diferente para representar uma forma de andar de skate. É uma equipe que não seria formada numa Olimpíada. O X Games está fazendo os times e o bacana é que cada um que foi escolhido vai ganhar passagem para todos os eventos, hotel, dinheiro só por assinar. Isso também traz mais oportunidades para os skatistas e o time que ganhar ganha dinheiro também e dividimos com todo mundo. Estou ali para tentar direcionar e aterrissar de uma maneira que faça mais sentido.

M&M – De que forma as marcas podem apoiar o esporte para que ele tenha um crescimento sustentável? O que falta para entenderem o skate como plataforma estratégica de longo prazo e não só como hype?
Burnquist – Elas têm que interagir, entender que é um mundo diferente do delas. Então, vão pegar personalidades. No skate, se você é campeão, você tem uma atenção, mas às vezes você é campeão e não tem tanta atenção. A personalidade que não ganha tanto tem mais seguidores. No skate, sempre foi uma questão de: não é quem ganha mais eventos, é quem se identifica. Às vezes, você acompanha um skatista, porque você gosta do jeito dele, do estilo. Então, as grandes marcas, já entenderam que existem essas personalidades, que tem exposição, a Olimpíada existe, então em algum momento aquele skatista que está competindo pela cultura, se é um skatista olímpico, também vai para a Olimpíada. No nosso time, por exemplo, a Sky Brown tem milhões de seguidores. Ela tem uma personalidade. As pessoas vão conhecer mais sobre o Club São Paulo por ela estar no time. Óbvio, que não escolhi ela por isso, mas isso veio no pacote. De repente algum outro general manager vai procurar as pessoas que têm mais seguidores, para ele ter mais patrocinador, que independe se o time dele vai necessariamente ganhar agora, mas ele vai começar a trazer a atenção para o time. Depende muito do que você quer montar. Falta a profissionalização dos skatistas, porque têm um alcance com uma idade muito nova. Pessoas com 13, 14, 15 anos são campeões mundiais. Como é a sua cabeça com 13, 14, 15 anos? Como você trabalha o profissional? A carreira de skate é muito ágil, muito rápida. Com 49 anos, consigo ainda estar ativo, porque o que eu faço vai além da competição. O skate traz isso, a Fórmula 1 não. No skate, posso parar de competir completamente e continuar relevante por muito tempo porque construo Grand Canyon, ativações que as pessoas lembram. Falta também uma certa criatividade e flexibilidade no próprio skatista, de encontrar as oportunidades que não são só competitivas. As marcas vão fazer o que quiserem. É natural irem sempre com um nome. Agora, é muito fácil você patrocinar a Rayssa ou o Bob. É muito mais difícil trabalhar o entorno. Acho legal o que o Banco do Brasil faz. Óbvio que Rayssa e eu somos óbvios, Rayssa mais ainda pelo momento dela, mas montamos um squad muito variado, com nomes diferentes, personalidades do meio. Quando trouxe pessoas para dentro, trouxe construtores de pista, que para mim são tão importantes quanto. Fizemos uma movimentação no banco, que foi diferente de qualquer outra movimentação antes, que só procuravam skatistas. Trouxemos profissionais do skate que movimentam o skate: construção de pista, projeção, artistas, skatistas também. É uma questão também de criatividade. O Banco do Brasil é um exemplo raro, porque é um banco tão tradicional, que você acha que é engessado, e é o menos engessado em relação a tentar coisas novas. São poucos que pensam assim. Mas acho que é importante trazermos a atenção e que as marcas saibam que não é só sobre as Olimpíadas, existe todo um mundo de inspiração e de alcance maior do que o primeiro lugar numa competição.

M&M – O skate brasileiro vive um momento único, com nomes como Rayssa Leal e Gui Khury puxando uma nova geração altamente competitiva. O que explica esse salto de performance?
Burnquist – Viemos conquistando espaço há muito tempo. A primeira posição internacional foi o Lincoln Ueda, que trouxe o quarto lugar na Alemanha. Ele passou em terceiro para a final e ficou em quarto. Entre os cinco no meio do skate, nunca imaginávamos, como brasileiros. Lembro que quando vi isso, pensei: “Se o Ueda pode, eu também posso”. Isso foi em 1989, senão me engano. Chegou em 1995, competi no Canadá e ganhei. Foi a primeira vez que um brasileiro ganhou uma competição internacional. Mas isso veio porque eu acreditei vendo o Ueda. E depois as pessoas começaram a acreditar me vendo. Esse empurrão veio de gerações e a gente vem conquistando espaço. Antes das Olimpíadas, tínhamos muito espaço na mídia, eventos na Globo. Se a Olimpíada falar que não tem mais skate, o skate não vai morrer, porque já está aqui há muito tempo. Esses grandes eventos e essa exposição é o que traz a evolução para o skate.