Opinião

O papel mais profundo da comunicação

Se essa disciplina transforma comportamento, a incoerência deixou de ser um ruído tolerável

Sérgio Lopes

Sócio-diretor da Conteúdos Diversos 2 de abril de 2026 - 6h00

Durante o South by Southwest (SXSW), uma das principais vitrines globais de inovação, algumas constatações se repetiram com força: o excesso de dados está nos tornando prisioneiros de sistemas que antecipam, e aos poucos padronizam, nossa capacidade de imaginar o novo.

Mais do que isso, ficou evidente que o grande desafio do nosso tempo não é técnico. É humano. Vivemos um sistema onde todos reconhecem a urgência de mudança para um modelo mais regenerativo, justo e sustentável, mas poucos estão dispostos, ou preparados, para bancar o custo de liderá-la.

Essa deveria ser uma constatação desconfortável para qualquer organização. Para quem atua com comunicação, ela é ainda mais provocativa. Porque é exatamente nesse ponto que a comunicação revela seu papel mais profundo, e menos explorado.

Durante décadas, a comunicação foi usada com excelência como ferramenta de persuasão, moldar percepção, construir reputação, influenciar escolhas. Mas esse repertório, sozinho, ficou insuficiente. O desafio já não é mais convencer as pessoas de que algo precisa mudar. Essa etapa, em grande medida, foi superada. O que está em jogo agora é mais complexo, transformar consciência em comportamento consistente, escalável e economicamente viável. E isso muda tudo.

Nesse novo cenário, a comunicação deixa de ser a etapa final, responsável por “contar bem uma história”, e passa a ocupar um papel estrutural dentro das organizações. Uma infraestrutura invisível que conecta estratégia à execução, alinha discurso e prática e transforma narrativa em operação.

Sem esse alinhamento, não há transformação. Há dissonância e o mercado já começou a precificar isso. Marcas que comunicam propósito, mas operam em lógica oposta, deixam de gerar valor e passam a acumular risco, reputacional, operacional e, cada vez mais, financeiro.

A incoerência deixou de ser um ruído tolerável. Tornou-se uma variável de negócio. Isso reposiciona a comunicação em um novo patamar de responsabilidade. Mais do que criar campanhas relevantes, trata-se de ajudar a reconfigurar padrões de comportamento, dentro e fora das organizações. Porque, no limite, comportamento molda mercado. E mercado molda sistemas produtivos.

Sob essa lógica, propaganda, conteúdo, audiovisual, eventos e experiências deixam de ser pontos de contato e passam a ser pontos de inflexão. O que está em jogo não é mais apenas gerar atenção ou desejo, mas construir consistência ao longo do tempo. Porque comportamento não muda por impacto isolado. Muda por repetição, coerência e contexto.

E aqui está o ponto central, muitas vezes negligenciado, o maior risco hoje não é climático, tecnológico ou regulatório. É comportamental. É a incapacidade de ajustar o próprio comportamento, de indivíduos, empresas e instituições.

Mercados mudam quando comportamentos mudam. E comportamentos mudam quando deixam de ser exceção e passam a ser padrão. Nesse cenário, a comunicação deixa de ser aliada da transformação. Passa a ser uma de suas principais infraestruturas.

Porque não serão as marcas que melhor contam histórias que vão liderar esse processo, mas aquelas que conseguirem alinhar, de forma consistente, o que dizem, o que fazem e o que incentivam.

E isso tem um custo. Exige revisão de prioridades, redefinição de métricas e disposição para trocar conveniência por coerência. A boa notícia é que esse movimento já começou. A má notícia é que ainda é exceção.

O que nos leva a uma pergunta mais estratégica do que criativa: estamos ajudando a sustentar o modelo que precisa ser superado, ou estamos, de fato, contribuindo para construir o próximo?