SXSW

Evite justificar tudo pela cultura, alerta CMO da PepsiCo Foods

Ao lado de diretores do Bank of America e Unilever, executivo da divisão para os EUA recomenda a fuga da obviedade e construção de times bem prepados

i 15 de março de 2026 - 22h19

A cultura tem sido objeto de debate central na trilha de Brand & Marketing do SXSW. Não à toa: patrocínios não garantem mais a relevância e até mesmo as maiores e mais bem posicionadas marcas do mundo têm se visto diante da necessidade de conquistar um espaço junto aos consumidores.

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Painel teve participação de executivos de marketing da PepsiCo Foods, Bank of America e Unilever (Crédito: Giovana Oréfice)

Muitas vezes, a solução pode estar em atribuir um olhar mais holístico para como estão inseridas no mercado. A PepsiCo Foods está presente em 99% dos lares nos Estados Unidos. “É o meu pesadelo”, brincou o CMO Hernán Tantardini, integrante do painel Belonging is Built: How Brands Earn Their Place is Culture. A divisão é avaliada em US$ 23 bilhões.

“Quando entendemos as ocasiões de consumo e o papel que desempenhamos no mercado de alimentos como um todo, conseguimos destravar e impulsionar crescimento”, argumentou. Para Lay’s, a oportunidade de crescimento mora no fato de a marca estar presente em apenas 1,5% de ocasiões de consumo de alimentos, não necessariamente no fato de ser a maior marca de batata chips do mundo.

No mercado financeiro, a criação de oportunidades está ligada ao valor atribuído às pessoas. Brad Ross, head de parcerias globais e marketing de social media do Bank of America, nasceu e cresceu na África do Sul. Quando completou 10 anos, viu o Fim do Apartheid e as eleições democráticas na sequência. Em 1995, vivenciou o poder do esporte quando o país sediou a Copa do Mundo de Rugby.

“Foi possível ver o poder do esporte se manifestando em um país que estava completamente dividido”, lembrou. O feito se repetiu em 2010, quando a Copa do Mundo de 2010 teve a África do Sul como país sede. “Ter visto o que o esporte pode fazer me deu muitas boas perspectivas sobre o poder das marcas, cultura e comunidade se ativado da maneira certa”.

A plataforma como impulsionador de receita é um dos pilares que evidenciam os benefícios dos esportes para anunciantes. O Bank of America arrecadou, por meio da Maratona de Chicago, quase US$ 800 milhões em impacto econômico, dado que dois terços dos participantes não eram residentes do estado de Illinois. Somada à Maratona de Boston, a instituição direcionou US$ 50 milhões à projetos de caridade.

A proximidade com os consumidores é a premissa que orienta as diretrizes da Unilever. Os produtos da divisão de beleza e bem-estar estão presentes em aproximadamente 99% dos lares norte-americanos.

“Exercemos um papel de intimidade na vida dos consumidores”, avaliou Kathleen Dunlop CMO de Beauty & Wellbeing da Unilever para a América do Norte. “A partir desse conhecimento e presença em lugares muito íntimos, respondemos à aspirações, desejos e necessidades maiores que eles têm”, acrescentou.

Entre as estratégias está o esforço de tornar o produto mais mundano e cotidiano. A campanha Vaseline Verified, vencedor do Grand Prix de 2025 em Health & Wellness no Cannes Lions, elevou as vendas em 43%. A premissa foi a cocriação com os próprios consumidores e a visibilidade da relação que estabelecem com a marca.

“Não é apenas sobre proximidade, mas sobre participação”, corroborou o CMO do Bank of America.

Cuidados para as marcas

Tantardini, da PepsiCo Foods, teceu um alerta para o risco da inautenticidade. “Tento evitar justificar tudo pela cultura”, confessou. Segundo ele, não se deve forçar a entrada na cultura em movimentos considerados óbvios pelos consumidores. A construção de times, adicionou, também deve ser pautada pela busca de profissionais que, de fato, tenham a expertise em reagir e amplificar a marca em meio ao zeitgeist.

Em áreas como a música, em que os públicos são apaixonados e têm, até mesmo, um certo ceticismo em relação à participação de anunciantes, Ross fez um apelo para que as marcas conheçam a indústria em que estão entrando. O executivo fez parte do marketing da Coca-Cola durante 16 anos.

Em campanha criada pela Open X da WPP, liderada pela Ogilvy e apoiada pela VML, a Coca-Cola, patrocinadora oficial da Copa do Mundo, apresentou uma música para o torneio deste ano: uma nova versão do hit Jump, de Van Halen, interpretada por J Balvin e Amber Mark, com participação do guitarrista Steve Vai e o baterista Travis Barker.

“Trabalhar com grandes marcas ou com profissionais de marketing é importante, mas também é preciso ter especialistas no negócio que entendam as indústrias em se está atuando. No caso da música, uma das questões é: como ser autêntico para os artistas? Ao assinar um acordo, por exemplo, deve-se fazer isso por meio da gravadora, do agente ou do empresário?”, provocou. “É preciso agir da maneira certa. Caso contrário, não parecerá genuíno e torna-se apenas um assinar de cheque”.