Opinião

Qual liderança ainda faz sentido?

Da autoridade ao legado: o novo papel de sustentar confiança em cenários instáveis

Priscila Pellegrini

CEO da Holding Clube 8 de abril de 2026 - 6h00

Talvez a pergunta mais honesta que um líder possa fazer hoje não seja “como performar melhor?”, mas “quem eu preciso me tornar para sustentar pessoas em um mundo instável?”. Gestão de pessoas é sobre maturidade emocional, leitura de contexto e capacidade de sustentar tensão. Liderar já não é apenas definir metas. É lidar com fricções geracionais, inseguranças tecnológicas, ansiedade coletiva e expectativas cada vez mais públicas.

A liderança que aprendemos, linear, hierárquica, centrada no controle, foi desenhada para um mundo previsível. O problema é que o mundo deixou de ser previsível. O relatório Next Generation Leadership for a World in Transformation, do Global Future Council on Leadership do World Economic Forum (jan/2026), afirma de forma direta: a liderança atual não está preparada nem para o presente.

Vivemos um cenário de permacrise: aceleração tecnológica, fragmentação geopolítica, erosão de confiança e pressão ambiental simultâneas. Segundo o Edelman Trust Barometer 2025, citado no estudo, quase 70% das pessoas acreditam que líderes empresariais e governamentais enganam o público. Esse dado não fala sobre imagem. Fala sobre modelo.

Durante décadas, liderança foi confundida com controle, previsibilidade e autoridade individual. Existem quatro mudanças estruturais que considero incontornáveis para que isso evolua.

A primeira é repensar quem chega à liderança. Nossos sistemas ainda reproduzem perfis similares aos do passado.

Selecionamos visibilidade em vez de integridade, performance imediata em vez de maturidade sistêmica. A nova liderança exige critérios adaptativos, diversidade real e preparação para complexidade, não apenas promoção por senioridade.

Esse ponto se torna ainda mais evidente quando observamos a convivência entre gerações dentro das organizações.

Baby Boomers foram formados na lógica da estabilidade e da hierarquia. A Geração X consolidou-se na competitividade e na entrega individual. Millennials trouxeram a centralidade do propósito. E a Geração Z nasce em rede, com repertório digital, urgência ética e baixa tolerância à incoerência. Liderar hoje é orquestrar essas expectativas simultâneas, não existe uma narrativa única.

A segunda mudança passa pela formação. Liderar hoje requer pensamento crítico, previsão e, principalmente, uma bússola moral consistente. Entre jovens líderes globais, “bússola moral” é a competência mais valorizada. Isso desloca o foco da técnica para caráter. Em ambientes intergeracionais, caráter é o que sustenta legitimidade quando linguagens e estilos divergem.

Na era da IA e da sobrecarga de informações, a terceira mudança é estruturar processos de decisão. Como esperar coerência estratégica sem método? Liderar não é reagir à pressão de redes sociais. É sustentar decisões fundamentadas, mesmo sob ruído.

E aqui existe uma tensão relevante. Parte das lideranças constrói autoridade por meio da presença digital, compartilhando visão, posicionamento e bastidores. Outra parte resiste a essa exposição. O ponto não é transformar executivos em creators. É reconhecer que reputação hoje é construída em camadas públicas e privadas.

O LinkedIn ultrapassou 1 bilhão de usuários no mundo e se consolidou como espaço de influência corporativa.

Ignorar esse ambiente não reduz seu impacto; apenas transfere a narrativa para terceiros. Ao mesmo tempo, confundir visibilidade com liderança é um erro estratégico. Curtidas não substituem consistência. Cultura não se sustenta em post, mas também não sobrevive sem posicionamento.

A liderança contemporânea precisa equilibrar narrativa e entrega. Presença digital não é vaidade, é responsabilidade reputacional. Mas reputação sustentável só existe quando discurso e prática convergem.

E isso nos leva ao legado. Já não podemos aceitar o papel do líder como herói. Uma liderança madura assume o lugar de “bom ancestral”: alguém que constrói capacidade para que outros avancem. Liderança deixa de ser monumento pessoal e passa a ser construção intergeracional.

Como líder, vejo que as novas gerações não rejeitam liderança, e sim incoerência. Não são resistentes à autoridade, só a ausência de escuta. E por último, não rejeitam resultados, mas sim a miopia de curto prazo. A provocação é simples: liderança não pode mais ser individualmente performática e coletivamente frágil.

É urgente sair do modelo linear e migrar para liderança intergeracional. Sair do controle e migrar para cocriação.

Sair da autoridade isolada e migrar para agência compartilhada. Sair da performance trimestral e migrar para impacto de longo prazo.

O desafio não é parecer moderno. É ser estruturalmente relevante. Porque a pergunta já não é quem quer liderar. É: quem está preparado para sustentar confiança num mundo em transformação?