Opinião

Emoção é igual a ação

Por anos escanteados do ambiente de trabalho, os sentimentos são hoje vistos como molas propulsoras do crescimento das organizações e importante contraponto à frieza da automação

Gabriela Onofre

CEO do Publicis Groupe Brasil 19 de maio de 2026 - 17h34

Participei recentemente de um curso de liderança e saí de lá com várias provocações tilintando dentro de mim. Uma delas veio do professor belga Ludo Van der Heyden, do Insead, que estuda governança, inovação empresarial e como as lideranças reagem à complexidade no ambiente de negócios. Depois de décadas em que demonstrações de raiva, medo, felicidade e afeto eram vistas como fraquezas que poderiam impactar de forma negativa os negócios, Van der Heyden está entre os pensadores que defendem o valor da emoção.

E essa defesa parece ganhar ainda mais força em contraponto à frieza dos ambientes automatizados e que tendem a ser pasteurizados pela tecnologia. “A emoção nos coloca em ação”, diz ele, ressaltando a força dos sentimentos humanos para engajar times na busca pelos melhores resultados – algo que nenhuma máquina ainda é capaz de fazer.

Não à toa, temos visto termos corporativos evoluírem tanto no dia a dia. Nomes como “recursos humanos”, que posicionavam os colaboradores como ativos produtivos, ao lado de capital, máquinas ou tecnologia, aos poucos migram para um lugar de maior conexão com a nossa essência. Hoje, por exemplo, é comum chamarmos o departamento de RH de “Talentos” ou, simplesmente, “Pessoas”. Há empresas, ainda, que chegam a adotar cargos como o de Chief Happiness Officer, focados explicitamente na promoção da felicidade no ambiente de trabalho.

Mas as nuances de vocabulário são somente a camada mais superficial de uma mudança profunda que ocorre no mundo dos negócios e que vai além da responsabilidade social ou da crescente e necessária preocupação com a saúde mental. Ela reflete a compreensão de que o cerne do sucesso está em pessoas engajadas de forma genuína, apaixonadas e com um profundo senso de pertencimento.

O desafio das lideranças é muito maior do que promover uma suposta sensação de positividade. Precisamos entender a complexidade emocional que envolve as nossas equipes, inclusive suas ambiguidades, competitividades e angústias. É quando abrimos espaço para que todas essas emoções, mesmo as negativas,

sejam trabalhadas que começamos a construir ambientes seguros para o livre diálogo e o florescer de grandes ideias.

Em momentos de crise, então, o “gerenciamento emocional” torna-se ainda mais importante. “Quando você não tem muito dinheiro, precisa ser mais humilde, honesto e humano. E essa é uma ótima oportunidade porque muitos dos valores de negócios desaparecem exatamente por causa de dinheiro”, comenta o professor.

Caminhar para um lugar mais pulsante do ponto de vista emocional não significa, porém, se esquivar da onipresença da inteligência artificial. Pelo contrário. Também nessa seara, a tecnologia aparece como uma forte aliada. Pode monitorar níveis de engajamento e tensões em reuniões, sugerir intervenções e até identificar vieses comportamentais entre lideranças. Tudo isso me deixou ainda mais convicta de que para avançar na transformação de uma organização, sem perder de vista valores e cultura, é preciso, antes de tudo, compreender a complexidade emocional de suas pessoas. Afinal, “emoção nos coloca em ação”.