Opinião

Da sugestão à execução

A IA agêntica inaugura uma nova disputa pelo topo das estratégias de marketing

Luis Ribeiro

VP de Martech e Plataformas de Experiência Digital (DXP) na CI&T 13 de maio de 2026 - 6h00

O Adobe Summit 2026 deixou uma mensagem inequívoca. A fase de experimentação com inteligência artificial acabou. Entramos definitivamente na era da maturidade. Isso significa que o diferencial competitivo não está mais em testar IA, mas em estruturar governança, arquitetura e modelos operacionais capazes de capturar valor real dessa tecnologia.

O conceito que sintetiza essa virada é a IA agêntica. Não estamos mais falando de ferramentas que apenas geram textos ou imagens. Estamos falando de sistemas capazes de executar estratégias de negócio de forma autônoma, com base em objetivos definidos.

Durante o evento, Shantanu Narayen CEO da Adobe, e Jensen Huang CEO da NVIDEA reforçaram que essa nova geração de IA depende de três pilares. Agentes inteligentes, conteúdo digital de alta fidelidade e produtos solidos como base para escalar experiências em tempo real sem perder qualidade ou consistência.

Da criação à execução, a nova fronteira do marketing

A principal mudança é simples, mas profunda. Saímos da IA que cria para a IA que faz.

Isso significa que agentes de IA passam a atuar como verdadeiros co-workers. Eles não apenas recomendam campanhas, mas analisam dados, ajustam mídia, personalizam comunicações e executam ações com base em metas como retenção, cross-sell ou aumento de receita.

Essa evolução exige uma mudança estrutural dentro das empresas. Não basta adotar ferramentas. É preciso redesenhar processos e decisões para que a IA opere com autonomia e responsabilidade.

A descoberta por IA já mudou o jogo

Outro ponto central do Summit foi a ascensão da chamada descoberta por IA. Plataformas baseadas em LLMs estão rapidamente se tornando o primeiro resultado nas buscas por produtos e serviços.

O impacto é direto. Marcas estão perdendo visibilidade. Hoje, cerca de 80% das empresas relatam dificuldades em aparecer nesses novos ambientes.

É aqui que surge o GEO, Generative Engine Optimization, uma evolução do SEO tradicional. Em vez de otimizar apenas para mecanismos de busca, as empresas precisam garantir que suas informações estejam estruturadas e acessíveis para sistemas de IA como ChatGPT ou Gemini de forma precisa e confiável.

Quem não fizer isso corre o risco de desaparecer das decisões do consumidor.

O novo papel do CMO

Esse cenário redefine o papel do líder de marketing. O CMO deixa de ser um gestor de campanhas para se tornar um orquestrador de experiências.

Ferramentas de inteligência de marca, combinadas com dados em tempo real, permitem decisões mais rápidas e precisas. Isso também exige uma nova competência. Operar em um ambiente onde humanos e agentes de IA trabalham lado a lado.

Escalar conteúdo sem perder controle

A expectativa é que a demanda por conteúdo cresça cinco vezes nos próximos dois anos. Escalar essa produção sem comprometer a identidade da marca é um dos maiores desafios atuais.

A resposta está na criação de cadeias de suprimento de conteúdo altamente governadas. Plataformas como Adobe GenStudio e Adobe Firefly já estão integradas a agentes criativos que automatizam desde o planejamento até a execução, garantindo consistência em escala.

O diferencial competitivo deixa de ser volume e passa a ser controle criativo com velocidade.

CX como sistema operacional

Outro avanço relevante é a consolidação de plataformas como o Adobe Experience Cloud, que unificam conteúdo, dados e jornadas em um único ecossistema.

Esses sistemas permitem antecipar as intenções do usuário e transformar dados brutos em experiências acionáveis em tempo real, algo essencial em um ambiente onde cada interação conta.

O que muda no Brasil

No Brasil, essa transformação não é teórica. Ela atinge desafios muito concretos.

Primeiro, há uma clara transição do hype para a eficiência. Após anos de experimentação com IA generativa, as empresas agora são pressionadas por resultados tangíveis, como ROI, redução de custos e ganho de produtividade.

A IA agêntica responde diretamente a um gargalo estrutural do país, que são equipes enxutas. Em vez de depender de múltiplos profissionais para executar campanhas, agentes podem assumir parte significativa da operação, com ajustes contínuos baseados no comportamento do consumidor brasileiro, seja no Carnaval, Dia das Mães ou na Black Friday.

Segundo, a mudança na busca digital tem impacto ainda maior aqui. O Brasil é um dos mercados mais intensivos em pesquisa online. Com a migração para assistentes de IA, o risco de invisibilidade cresce rapidamente, especialmente em um cenário de aumento constante do custo por clique.

Terceiro, a gestão de conteúdo enfrenta o chamado Custo Brasil. A diversidade regional exige personalização em escala. A IA agêntica permite adaptar campanhas para diferentes regiões sem multiplicar equipes, algo crucial em um país continental.

Por fim, há uma mudança estratégica importante, o foco no Customer Lifetime Value. Historicamente, o marketing brasileiro priorizou aquisição. Agora, com crédito mais caro e competição acirrada, a retenção se torna central.

Agentes de IA podem prever churn e agir antes que ele aconteça, com ofertas personalizadas e no momento certo, algo que até então era limitado por processos manuais e fragmentados.

O que vem pela frente

Estamos entrando em uma nova fase do marketing digital. Jornadas em tempo real, orientadas por dados e profundamente personalizadas.

A diferença é que, agora, quem executa grande parte dessa complexidade são os agentes de IA.

As empresas que entenderem essa mudança e estruturarem suas operações para ela não apenas ganharão eficiência. Elas redefinirão o padrão de experiência do cliente.

As outras correrão o risco de ficar invisíveis em um mercado cada vez mais mediado por inteligência artificial.