Opinião

Sem atrito, sobra eco

Talvez estejamos terceirizando mais do que consumo. Estamos terceirizando pensamento

Chiara Martini

Diretora Senior, Integrated Marketing Experience Latam - The Coca-Cola Co. 11 de maio de 2026 - 9h10

Quando Shakira subiu ao palco de Copacabana, no Todo Mundo no Rio, vimos um daqueles raros momentos em que a cultura deixa de ser apenas entretenimento e vira acontecimento coletivo. Uma artista latina, madura, potente, dona da própria narrativa, que levou para o palco temas profundamente conectados à realidade das mulheres, demonstrou seu carinho e respeito pelo Brasil e, mais uma vez, reafirmou a força global da cultura latina.

Ainda assim, junto à celebração, vieram inúmeras críticas direcionadas a ela que foram muito além de qualquer leitura artística e técnica. Comentários sobre aparência, idade, relevância, escolhas pessoais, se deveria ou não estar ali diante do que aconteceu com o pai, e o que isso supostamente revelaria sobre seu caráter. Opiniões reproduzidas quase por reflexo, sem elaboração, sem contexto, muitas vezes carregadas de misoginia. Não era crítica cultural. Não era leitura de contexto. Era agressão apresentada como opinião.

Dois dias depois, no Met Gala, grande evento do mundo da moda, vimos outro capítulo da mesma lógica. O patrocínio de Jeff Bezos foi o grande assunto que dominou a conversa, levantando questionamentos legítimos sobre concentração de poder, domínio e interferência das big techs e influência simbólica. Ainda assim, boa parte do julgamento público em relação a ele se deslocou rapidamente para Lauren Sánchez Bezos, sua esposa. Sua aparência, seu rosto, seu corpo, a roupa escolhida, sua presença no evento. Mais uma vez, quando o centro da discussão estava em estruturas de poder e capital, boa parte do impacto foi descarregado sobre uma mulher. Não era crítica cultural. Não era leitura de contexto. Era agressão apresentada como opinião.

Mas existe um outro lado igualmente automático, e talvez ainda mais silencioso. Qualquer tentativa de aprofundar uma conversa, contextualizar um fenômeno ou levantar uma crítica construtiva rapidamente é enquadrada como inveja, recalque, hate ou negatividade.

“Você está com inveja.” “Você só fala isso porque queria estar lá.” “Se incomodou porque não consegue.” “Deixa as pessoas gostarem.” “A internet problematiza tudo.” “Ninguém pode gostar de nada em paz.” “Só joga quem quer.” São frases que parecem banais, mas cumprem uma função poderosa: encerrar a conversa antes que ela comece. Impedir atrito. Impedir elaboração. Impedir pensamento.

Acredito que esse é um sintoma importante do nosso tempo, para observarmos. De um lado, agressão rasa apresentada como opinião. Do outro, blindagem rasa apresentada como lealdade. No meio, o diálogo morre.

E, quando o diálogo morre, algo importante desaparece junto: o atrito saudável. Porque o atrito saudável produz refinamento, contraponto, originalidade, evolução. É dele que nascem perguntas melhores, leituras mais profundas e ideias menos previsíveis. Sem esse atrito, sobra repetição. Eco. Cópia. Todo mundo falando parecido, pensando parecido, desejando parecido.

A originalidade começa a desaparecer não quando faltam ideias, mas quando ninguém mais quer correr o risco de discordar. Talvez estejamos terceirizando mais do que consumo. Estamos terceirizando pensamento.

Compramos porque alguém recomendou. Vestimos porque alguém legitimou. Repetimos porque alguém viralizou. Defendemos porque alguém do nosso grupo defendeu. E, pior ainda, muitas vezes, pensamos porque alguém já pensou por nós. E, quero deixar isso claro, todos nós estamos vulneráveis a isso.

Porque reverência oferece conforto. Pertencimento. Clareza moral instantânea. Simplifica um mundo complexo demais. É mais fácil idolatrar ou demonizar do que sustentar contradições. É mais fácil defender sem questionar do que construir pensamento próprio. É mais fácil repetir uma posição pronta do que elaborar uma. Pensar dá trabalho. Pensar exige repertório. Exige escuta. Exige desconforto. Exige maturidade para entender que admiração e senso crítico não são opostos. E, muito pelo contrário, são mais fortes quando conseguem coexistir.

Vale também para marcas. Marcas não precisam construir reverência. Podem construir relações críticas e vivas. Podem convidar à conversa, assumir ambiguidades, estimular interpretação, provocar reflexão e cocriar significado com pessoas que não apenas as seguem, mas pensam junto. Menos culto. Mais diálogo. Menos seguidores. Mais interlocutores. Menos devoção. Mais repertório compartilhado.

Admirar continua lindo. Se inspirar continua essencial. Comunidade continua sendo uma das maiores forças da cultura. O problema nunca foi gostar muito de algo ou de alguém. O problema é quando gostamos tanto que paramos de refletir sobre. Quando crítica vira ataque. Quando discordância vira inveja. Quando a defesa vira blindagem. Quando a opinião vira eco. Sem atrito saudável, sobra barulho. E barulho nunca foi conversa.

Eu sinto que uma das habilidades mais importantes dos nossos tempos atuais é reaprender a admirar sem terceirizar o próprio olhar. Fazer perguntas melhores. Discordar sem destruir. Ouvir sem se sentir ameaçada. Entender que ter contradições é algo essencialmente humano, e que o pensamento crítico não enfraquece vínculos. Muito pelo contrário, acredito que é isso que vai nos conectar ainda mais.