Opinião

Quando a marca para de anunciar e começa a tocar

Quando a publicidade para de interromper e começa a participar, ela deixa de ser tolerada e passa a ser desejada

Gustavo Luveira

Sócio do Bona Casa de Música 6 de maio de 2026 - 10h00

Eu estava rolando o feed quando vi: Gigi Perez cantando Good Riddance (Time of Your Life), do Green Day. Dei play. A música estava boa, o clipe tinha aquela temperatura certa entre nostalgia e presente. Fiquei. E só fui perceber que aquilo era da Hollister quando a câmera abriu e mostrou a loja. Não foi irritante. Foi quase natural. E foi aí que eu entendi: isso não era publicidade disfarçada de conteúdo. Era conteúdo que, de alguma forma, também era marca.

Coisa rara. Porque durante muito tempo, a publicidade se estruturou a partir da interrupção. Ela entra no meio do que você está assistindo, ocupa um espaço que não era dela e tenta arrancar sua atenção à força. Quantas vezes você clicou no “pular anúncio” antes mesmo de saber o que estava sendo anunciado?

Esse modelo ainda existe, mas vem perdendo eficiência à medida que o público desenvolve mecanismos automáticos de rejeição. Ignorar virou habilidade. Clicar no “xizinho” virou reflexo.

Não é que usar música em publicidade seja novidade. A música sempre foi um dos principais recursos da comunicação. A Apple escolhia trilhas que ajudavam a projetar artistas. O McDonald’s fez parceria com Travis Scott e virou fenômeno cultural. No Brasil, a Natura construiu o Natura Musical, criando um território que ia além da lógica tradicional de campanha.

Mas nesses casos, a música ainda operava como suporte. Ela ampliava a mensagem, reforçava a identidade, mas continuava subordinada a uma estrutura publicitária. A marca vinha primeiro. A música vinha depois, como trilha.

No caso da Hollister, essa relação se inverte. A música não acompanha a campanha. A música é a campanha. E isso altera completamente o ponto de entrada da marca na vida das pessoas.

O efeito prático é simples de observar: conteúdos com linguagem de música tendem a ser consumidos até o fim com mais frequência do que formatos publicitários tradicionais. Não porque são necessariamente melhores, mas porque não entram como interrupção. Eles se encaixam no fluxo de consumo que o usuário já escolheu.

Essa mudança acontece num momento em que mais de 100 mil faixas são lançadas diariamente nas plataformas. Nesse cenário, uma marca que vira música não está competindo com outras marcas. Está competindo com Sabrina Carpenter, Beyoncé, Djavan. E isso muda tudo.

Para as marcas, o desafio passa a ser encontrar formas de existir dentro de um contexto que o público já deseja consumir. A música oferece esse caminho. Mas também aumenta brutalmente o nível de exigência.

Porque atenção: transformar publicidade em música não é só contratar um artista relevante e soltar uma faixa. É entender que, quando você entra nesse território, você não está mais jogando o jogo da publicidade. Você está jogando o jogo da música. E se você não respeitar isso, se não houver coerência entre linguagem, contexto e intenção, a rejeição vai ser imediata.

Sem alinhamento, o resultado tende a ser percebido como oportunismo. Como aquela marca que aparece no Carnaval só porque todo mundo está falando de Carnaval. A diferença é que, na música, o público é ainda mais exigente. E ainda menos generoso.

Por outro lado, quando essa coerência existe, a marca deixa de ser um elemento externo que interrompe e passa a ocupar um espaço mais integrado à experiência.

A campanha da Hollister não inventou nada. Mas mostrou que, quando a publicidade para de interromper e começa a participar, ela deixa de ser tolerada e passa a ser desejada. E talvez seja essa a única forma honesta de existir num mundo ninguém mais tem paciência para ser interrompido.

Porque no fim, a forma como a mensagem entra na vida das pessoas não é tão relevante quanto a mensagem. É mais relevante.